Entrevistas
Pesquisa Atlas consolida Flávio como candidato do bolsonarismo, mas ainda não rifa Tarcísio
Apesar de certa estabilidade nas sondagens, o custo político de um recuo bolsonarista enfraquece as pretensões nacionais do governador
A mais recente pesquisa do AtlasIntel, divulgada nesta quarta-feira 21, registra um avanço consistente da pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República. Em um eventual segundo turno, ele aparece com 45% das intenções de voto, contra 49% do presidente Lula (PT). No levantamento de dezembro, a distância era bem maior: Lula vencia por 53% a 41%.
Mais distante, neste momento, da consolidação como alternativa presidencial competitiva dentro do campo bolsonarista, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), registra exatamente o mesmo desempenho de Flávio em um confronto direto com Lula. A diferença está na dinâmica: no caso de Tarcísio, o cenário é de estagnação. No mês passado, Lula também liderava por 49% a 45%.
Nas simulações de primeiro turno, Flávio alcança 35% das intenções de voto em um cenário sem Tarcísio, enquanto o governador soma 28% quando o senador não aparece na disputa. Quando ambos são testados simultaneamente, a vantagem é claramente de Flávio: 28% a 11%. Em todos esses desenhos, contudo, Lula permanece isolado na liderança, com índices que variam entre 48% e 49%.
Em entrevista a CartaCapital, o chefe de Risco Político e Análise Política do AtlasIntel, Yuri Sanches, lembra que a pré-candidatura de Flávio foi lançada em dezembro com um nível de apoio inferior ao piso histórico do bolsonarismo.
Segundo ele, o início anêmico pode ser explicado por uma combinação de fatores: um lançamento desorganizado da pré-campanha — feito de forma abrupta, logo após uma visita de Flávio a Jair Bolsonaro na prisão —, a exposição de tensões internas no clã, evidenciadas pelo atrito entre Michelle Bolsonaro e os filhos do ex-presidente, e a própria declaração de Flávio de que sua candidatura tinha um “preço”, sugerindo que poderia ser apenas uma estratégia de barganha.
Esse conjunto de sinais, avalia Sanches, gerou desconfiança no eleitorado e resultou em um começo mais tímido. Ainda assim, a recuperação já estava no horizonte. À medida que a candidatura de Flávio Bolsonaro se tornasse mais conhecida e se organizasse no imaginário do eleitor bolsonarista, a tendência era de crescimento. “Era natural para o bolsonarismo.”
Agora, Flávio atua em duas frentes simultâneas: busca consolidar a unidade do bolsonarismo, acenando inclusive a partidos do Centrão, e tenta pacificar as relações dentro da própria família, com atenção especial ao papel de Michelle Bolsonaro.
Ao mesmo tempo, ele e os irmãos trabalham para afastar definitivamente Tarcísio de qualquer ambição presidencial. O governador, por sua vez, adiou uma visita que faria a Jair Bolsonaro nesta quinta-feira 22, poucas horas depois de Flávio afirmar publicamente que o ex-presidente lhe diria que uma candidatura nacional está, para ele, fora de cogitação.
Resta a Tarcísio o trunfo da rejeição mais baixa. Na nova pesquisa do AtlasIntel, 47% afirmam que não votariam de jeito nenhum em Flávio, contra 41% que rejeitam o governador paulista.
Para Yuri Sanches, Tarcísio dialoga com um eleitorado menos ideologizado e menos vinculado a identidades partidárias, enquanto Flávio enfrenta mais dificuldades para ampliar seu alcance em um eventual segundo turno. Nesse cenário, seria obrigado a acenar a um eleitorado menos radicalizado, o mesmo que garantiu a vitória de Lula sobre Jair Bolsonaro em 2022.
O analista observa que Tarcísio sofreu um impacto inicial com o lançamento da pré-candidatura de Flávio, mas conseguiu estancar a perda de apoio. Além disso, não se pode descartar que parte desse eleitorado volte a se inclinar ao governador, sobretudo diante da percepção de que Flávio carece de habilidade política para uma disputa nacional de maior complexidade.
Ainda assim, paradoxalmente, a chance de Tarcísio se viabilizar como o candidato de Jair Bolsonaro parece diminuir. A consolidação gradual de Flávio e o custo político de um eventual recuo tornam essa alternativa cada vez menos plausível.
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