Política
Perna curta
Flávio Bolsonaro, em dobradinha com o irmão Eduardo, se enrola nas mentiras e vê a candidatura desidratar
A intimidade com Daniel Vorcaro, o papel de “mecenas” do banqueiro em um filme sobre Jair Bolsonaro, as lorotas cinematográficas contadas a respeito da história e a revelação de um encontro após o dono do banco Master ter obtido um habeas corpus e se livrar da primeira prisão preventiva abalaram a pré-candidatura presidencial do filho mais velho do capitão. Flávio Bolsonaro perdeu pontos preciosos em pesquisas de intenção de voto. O chefe da comunicação de sua pré-campanha debandou. Aliados hesitam em sair de peito aberto na defesa do “zero um” por receio de fatos novos. Alguns insistem na troca do senador pela madrasta, Michelle, como concorrente da extrema-direita. A candidatura foi ferida de morte? Talvez esteja cedo para cravar. A recusa da Polícia Federal da proposta de delação de Vorcaro alivia a situação de Flávio “sem sobrenome” por ora, embora seja um sinal de que o banqueiro não quer contar tudo o que sabe ou que topa falar somente sobre fatos conhecidos pelos investigadores. O início da Copa do Mundo daqui a menos de um mês promete dominar o noticiário e as conversas de bar, uma trégua à vista para o presidenciável. E não se pode ignorar a fidelidade do eleitorado bolsonarista na alegria ou na tristeza, na verdade ou na mentira.
“Não sei se o Flávio levou um tiro (mortal), mas o problema da mentira é que, quando alguém começa, se enrola cada vez mais. Esse assunto vai ficar por aí pairando contra ele”, afirma o líder do governo no Senado, Jaques Wagner, do PT da Bahia. O “zero um” de Bolsonaro não está sozinho nas lorotas. Eduardo, o “zero três”, lhe faz companhia. São “os irmãos cara de pau”, nome brasileiro de uma comédia norte-americana de 1980. A encrenca do clã Bolsonaro tem relação justamente com um filme, uma cinebiografia do capitão financiada por Vorcaro. Flávio inicialmente negou que houvesse dinheiro do dono do ex-Master e logo foi flagrado no embuste com a divulgação de um áudio de setembro de 2025 pelo site The Intercept Brasil. Justificou a inverdade com a alegação de que uma cláusula contratual de confidencialidade o impedia de prestar informações a respeito. Quer dizer, entre um interesse privado e outro público, optou pelo primeiro. O tal contrato até hoje não veio a público. O senador diz que em 30 dias haverá prestação de contas do que entrou e saiu no caixa do filme.
A afirmação foi feita depois de uma reunião com a bancada do PL, em Brasília, para tentar mostrar que segue de pé, apesar do filme queimado. A portas fechadas, fez uma revelação: foi a Vorcaro após o habeas corpus do banqueiro em novembro passado. O encontro aconteceu na casa do mecenas, que não podia deixar a cidade de São Paulo por estar de tornozeleira eletrônica. Segundo o presidenciável, a conversa serviu para botar um fim na relação contratual. Um deputado do PL diz ter ouvido algo um pouco diferente. O senador teria aproveitado para cobrar de Vorcaro as parcelas restantes do acordo financeiro. “Ninguém em sã consciência acredita que uma pessoa foi na casa da outra para avisar que não vai fazer mais negócios com ela”, disse na web Renan Santos, pré-candidato ultradireitista do partido Missão e fundador do MBL. “É um fato lamentável o que nós estamos vendo mais uma vez, um fato muito grave. E não há uma explicação convincente”, declarou o também postulante Romeu Zema, do partido Novo, ex-governador de Minas Gerais. Ronaldo Caiado, ex-governador de Goiás, outro nome na corrida, insinuou que falta a Flávio “autoridade moral”.
Os concorrentes Zema, Caiado e Renan Santos sentiram o cheiro de sangue
Em outra atitude nada convincente, o senador havia negado que o irmão Eduardo tivesse participação na empreitada cinematográfica. Não demorou a aparecer um contrato no qual o “zero três” desponta como coprodutor. O próprio ex-deputado havia espalhado balelas: não tinha nada a ver com o filme e inexistiam contribuições de Vorcaro à obra, entre outras. A ladainha constava de uma nota pública da produtora do filme, a GoUp, e verbalizada pelo roteirista, o deputado federal Mario Frias, do PL do Rio de Janeiro, secretário de Cultura do governo Bolsonaro. Em 11 de dezembro de 2024, Frias enviou, no entanto, o seguinte áudio a Vorcaro: “Só te agradecer, meu irmão. Vamos mexer com o coração de muita gente e vai ser muito importante para o nosso País, tá? Preciso de vez em quando te falar como as coisas vão andando, tá?”. Por que a necessidade de esconder a ligação de Vorcaro com o filme? Quem patrocina não deseja divulgação da própria marca? Uma das mensagens de celular obtidas pelo Intercept revela um plano secreto para Bolsonaro assistir com Vorcaro a um documentário em março de 2025, dias após o capitão ter se tornado réu por tentativa de golpe.
Pegos na mentira, Frias e a GoUp apegaram-se a uma sutileza. O financiamento não saiu do bolso do banqueiro diretamente. O mecenas injetou dinheiro no filme de forma indireta, por meio da Entre Investimentos e Participações. A ligação de Vorcaro com a empresa pode ser vista em um processo de 2020, no qual ambos eram réus na Comissão de Valores Mobiliários. A verba provida pelo mecenas chegou a um fundo criado nos Estados Unidos, o Havengate. Um dos controladores do fundo é o advogado Paulo Calixto, que trabalha para Eduardo Bolsonaro. Ou seja, quem tinha a chave do cofre era o “zero três”. Dúvidas: por que usar um fundo nos EUA para pagar o filme gravado no Brasil, ainda que o ator principal e o diretor sejam norte-americanos? E aqui a encrenca de Flávio, Eduardo e Cia. deixa de ser sobre ética e resvala no Código Penal. Tudo depende da origem e do destino dos recursos repassados por Vorcaro para financiar Dark Horse, O Azarão, em português.
Que mecenas. Vorcaro teria financiado 90% da cinebiografia de Bolsonaro, mas ainda pairam dúvidas acerca do destino da generosa contribuição do banqueiro – Imagem: Redes Sociais
Rastrear o destino do dinheiro do fundo é de interesse da PF. É uma maneira de descobrir se o montante foi para o filme ou bancou outras atividades, entre elas a conspiração de Eduardo com o trumpismo para prejudicar o Brasil. O rastreio depende da cooperação de autoridades dos EUA e tal colaboração requer um pedido da Procuradoria-Geral da República ou uma ordem judicial. O deputado petista Lindbergh Farias requisitou a ordem ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Foi no inquérito que levou Eduardo ao banco dos réus por causa da conspiração, tipificada criminalmente como “coação no curso do processo”. A cronologia joga a favor da hipótese de que a estada e o complô do “zero três” tenham sido financiados por Vorcaro. O acordo de patrocínio com o banqueiro foi selado em dezembro de 2024. Eduardo partiu para o autoexílio e a conspiração em fevereiro de 2025. A primeira remessa de recursos de Vorcaro ao filme foi justamente naquele mês, 2 milhões de dólares, segundo o Intercept. Em 18 de março de 2025, o então deputado anunciou a licença do mandato. Três dias depois, Vorcaro recebeu por celular prints de uma conversa sobre dinheiro para o filme de Eduardo com um colaborador do banqueiro, Thiago Miranda.
Era conveniente para o mecenas a reabilitação político-criminal de Jair Bolsonaro, objetivo da conspiração? Na eleição passada, o cunhado do banqueiro, Fernando Zettel, doou 3 milhões de reais ao capitão na disputa contra Lula no segundo turno. Havia sido do Banco Central de Bolsonaro a autorização para o Master funcionar, em outubro de 2019, após o BC do governo Temer tê-la negado. A mudança de posição da autoridade monetária em um intervalo de oito meses segue inexplicada. Gabriel Galípolo, atual comandante do BC, não quis esclarecer as razões, ao participar, na terça-feira 19, de uma audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. E voltou a defender o antecessor, Roberto Campos Neto, posição que tem irritado o presidente Lula.
Certas coincidências de datas levantam suspeitas sobre o uso real do dinheiro doado por Vorcaro
De volta ao filme. O cofre da produção de Dark Horse era o fundo Havengate, mas quem se encarregava dela era a empresa GoUp, localizada no estado norte-americano da Flórida e que tem como sócia a brasileira Karina Ferreira da Gama. À Globonews, Karina disse que os gastos com a cinebiografia foram de 13 milhões de dólares, em torno de 75 milhões de reais. Significa que Vorcaro bancou quase tudo sozinho, pois aportou 12 milhões de dólares, conforme Flávio Bolsonaro, perto de 65 milhões de reais. Até aqui não há outros investidores conhecidos. O acordo do clã Bolsonaro com o banqueiro era de 24 milhões de dólares (134 milhões de reais) e, quando Vorcaro parou de pagar o combinado, foi cobrado, conforme o áudio de Flávio a ele, de setembro de 2025.
Karina Gama é suspeita de estar metida em uma bandalheira de 2 milhões de reais em dinheiro de emenda parlamentar, por causa de outra empresa em seu nome, a Instituto Conhecer Brasil, sediada aqui no País. O responsável pela emenda é Mario Frias, o deputado-roteirista do filme sobre Bolsonaro. O ministro Flávio Dino, do Supremo, autorizou a abertura de inquérito para investigar duas emendas, no valor de 1 milhão de reais cada, separadas por Frias no orçamento federal de 2024. Dino cobra esclarecimentos do congressista desde março, quando a deputada Tabata Amaral, do PSB paulista, havia apontado a relação do ex-ator com o ICB. Oficiais de Justiça não conseguem intimar Frias, que tem, no entanto, concedido entrevistas para diversos meios de comunicação e influenciadores. A propósito, o ICB esteve metido em rolos com dinheiro de patrocínios do Conselho Nacional do Sesi. Embolsou 11,9 milhões entre 2017 e 2019, e a atual direção do conselho tenta reaver a verba na Justiça. Idalby Cristine Morena Ramos, emissora das notas pelo ICB, foi condenada no Tribunal de Contas da União por irregularidades em outros patrocínios.
A estreia de Dark Horse está prevista para setembro, perto da eleição. Na disputa passada, o Tribunal Superior Eleitoral proibiu a exibição de um documentário que servia de promoção do bolsonarismo. O lançamento ficou para depois da abertura das urnas. Segundo o advogado Fernando Neisser, da Academia Brasileira de Direito Eleitoral, o caso de agora é “muito parecido” com aquele de 2022 e o TSE deveria agir da mesma forma. Um porém: a composição da Corte mudou de lá para cá. No comando não está Alexandre de Moraes, mas um indicado de Bolsonaro ao Supremo, Kassio Nunes Marques. O deputado mineiro Rogério Correia entrou no tribunal, em nome do PT, para impedir a exibição do filme em setembro. A ação invoca não somente “potencial impacto sobre o eleitorado” e “abuso de poder econômico”, mas a possibilidade de o filme configurar caixa 2 (o orçamento não faria parte da contabilidade da campanha de Flávio), doação empresarial indireta (a lei proíbe empresas de dar recursos a candidatos) e lavagem de dinheiro.
Entorno. Frias patrocinou a ele mesmo. Michelle não perde a oportunidade de alfinetar – Imagem: Zack Stencil/Partido Liberal e Rodrigo Costa/Alesp
Haveria “lavagem” na hipótese de o dinheiro repassado por Vorcaro para o filme tiver origem criminosa. É uma suposição plausível. Antes de a proposta de delação do banqueiro ser rejeitada pela PF, circulavam informações na mídia de que ele topava pagar 40 bilhões de reais, enquanto as autoridades pediam 60 bilhões. As cifras indicam o tamanho monumental da fraude do Master. A maior multa aplicada em um acordo de leniência até hoje é de 10 bilhões de reais, à JBS em 2017, posteriormente anulada no Supremo. O valor das sanções não significa que a falcatrua foi naquele montante, é calculado para reparar o dano causado e, também, castigar o criminoso. De qualquer forma, a vigarice do Master atingiu níveis que levam o senador Renan Calheiros, do MDB de Alagoas, a usar palavras superlativas. “É o maior escândalo do sistema financeiro do mundo, do planeta, não tem um caso igual em valores”, comentou durante a audiência pública com Galípolo na terça-feira 19.
Calheiros é um dos maiores especialistas no Congresso a respeito do escândalo. Comanda a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado e montou um grupo de trabalho para investigar as estripulias de Vorcaro e as ações ou omissões de autoridades. Nas contas do senador, o golpe do Master alcança 155 bilhões de reais. A quantia abrange quatro situações. O gasto do Fundo Garantidor de Crédito (60 bilhões) para salvar quem tinha dinheiro depositado depois da liquidação decretada pelo BC. A perda de fundos de pensão que investiram na instituição (15 bilhões). Direitos obtidos e mensurados irregularmente para cobrar precatórios judiciais (30 bilhões). E a criação de uma fonte de renda para a família Vorcaro por meio de uma lei sobre o mercado de crédito de carbono (50 bilhões). Nesse último caso, a estrela do enredo é o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, do Republicanos da Paraíba. Crédito de carbono consiste em lucrar com preservação ambiental. A família Vorcaro controla uma empresa, a Alliance Participações, dona de créditos gerados por uma fazenda na Amazônia. Em dezembro de 2023, Motta, que ainda não presidia a Câmara, propôs uma alteração em um projeto sobre crédito de carbono em vias de votação. A emenda obrigava certas entidades financeiras a investir em ativos ambientais um porcentual mínimo de suas reservas. Pagariam o pato fundos de previdência e seguradoras, por exemplo. A proposta foi aprovada por deputados e senadores em 2024 e virou lei.
Renan Calheiros: “É o maior escândalo do sistema financeiro do mundo”
Naquele ano, o Master começou a enfrentar uma crise reputacional e a cometer fraudes para fugir do sufoco, segundo um documento do BC. A emenda de Motta funcionaria como fonte de receita para a família Vorcaro. A cunhada do deputado, Bianca Motta, pegou 22 milhões emprestados no Master em 2024. Usou o dinheiro, conforme reportagem de março da Folha de S.Paulo, para comprar um terreno que custava o dobro e, para fins tributários, valia mais de 100 milhões de reais. Segundo Calheiros, a cunhada de Motta recebeu, na verdade, 140 milhões e jamais pagou de volta. “Certamente contrapartida”, diz ele, pela “emenda Master”, contestada no STF pela confederação das seguradoras. O julgamento começou e deve terminar até 29 de maio. Consta que Henrique Vorcaro, pai de Daniel, tentou convencer os autores da ação a encerrar o processo de forma amigável, desde que a regra legal do investimento mínimo fosse mantida. Henrique está em prisão preventiva desde 14 de maio, acusado de levar adiante ilicitudes em nome do Master após o filho ser encarcerado dois meses antes. Daniel segue preso e, com o fim das negociações da delação, voltou a uma cela comum. Apesar da postura da PF, a Procuradoria-Geral ainda não desistiu de negociar a delação.
O caso mais famoso até agora de “emenda Master” era o do senador Ciro Nogueira, presidente do PP e ministro da Casa Civil no governo Bolsonaro. Nogueira queria mudar a legislação para quadruplicar o teto pago pelo Fundo Garantidor de Crédito, medida para socorrer o banco de Vorcaro. Em troca, receberia um “mensalão” do banqueiro, conforme a PF. Ao contrário de Motta, Nogueira não conseguiu emplacar a proposta na legislação. A chefe de gabinete do deputado na Presidência da Câmara, Sabá Cordeiro, exerceu a mesma função quando Nogueira foi ministro de Bolsonaro. A “emenda Master” de Motta é uma pista do comércio de legislação e abre uma frente investigativa capaz de tragar o “Centrão”. Após o escândalo do Master estourar, em novembro passado, um dirigente de uma grande entidade bancária comentou com um deputado que o caso era “um tiro na testa” de certos figurões, entre eles Nogueira, Motta, o antecessor deste no comando da Câmara, Arthur Lira, do PP de Alagoas, e o atual presidente do Senado, Davi Alcolumbre, do União Brasil do Amapá.
Juiz. O TSE, sob o comando de Kassio Nunes Marques, irá decidir se o filme de Bolsonaro configura propaganda eleitoral indevida. Há precedentes para tal – Imagem: Rosinei Coutinho/STF
Entre aliados de Flávio Bolsonaro há o temor de que novos capítulos revelem uma relação ainda mais umbilical com Vorcaro. O “zero um” até tentou se antecipar. Avisou da possibilidade de vazamento de “um videozinho” com ambos em cena. Nos bastidores do Congresso, há comentários a respeito da presença do senador em convescotes animados na casa do banqueiro em Trancoso, na Bahia. Questionada em público sobre o enrosco do enteado, Michelle Bolsonaro respondeu: “Tem de perguntar para ele”. A temporada de caça está oficialmente aberta. •
Publicado na edição n° 1414 de CartaCapital, em 27 de maio de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Perna curta’
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