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Pausa providencial

O recesso informal do Congresso adia certos efeitos do caso Master

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Peso. O senador baiano resistiu o quanto pôde, mas se afastou da liderança do governo para não contaminar a campanha à reeleição do presidente Lula – Imagem: Alessandro Dantas/PT no Senado
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Na quarta-feira 24, horas antes do jogo entre Brasil e Escócia pela Copa do Mundo, o presidente Lula se reuniu no Palácio do Planalto com o senador Jaques Wagner. A expectativa de vários integrantes do governo e do PT se confirmou. Encerrado o encontro, Wagner anunciou a decisão conjunta em nota. “Acabei de ter uma ótima reunião com o presidente Lula, uma conversa entre amigos, e decidimos, em comum acordo, que me afastarei da liderança do governo no Senado Federal”, anotou. “Neste momento, minha prioridade absoluta é provar minha inocência e me dedicar à reeleição do presidente Lula e do governador Jerônimo Rodrigues, além da minha reeleição junto com Rui Costa para o Senado. Juntos, com humildade e muito trabalho, renovaremos nosso compromisso com o projeto coletivo que vem mudando a Bahia e o Brasil.”

A mais recente operação policial só piorou o clima no Congresso, casa das principais lideranças envolvidas no escândalo. Embora a delação de Daniel Vorcaro tenha sido recusada duas vezes, o que reduz drasticamente a chance de um acordo, os investigadores encontraram um manancial de provas e indícios nos celulares do ex-banqueiro e de aliados. Wagner acabou lançado ao rol de suspeitos em companhia de Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência da República, Ciro Nogueira, presidente do PP flagrado em cenas íntimas com Vorcaro, Davi Alcolumbre, comandante do Senado, e Hugo Motta, seu par na Câmara dos Deputados.

Fora da liderança do governo, Wagner promete se dedicar à própria defesa

Fundador do PT, ex-governador da Bahia e um dos nomes mais importantes do partido, Wagner tem recebido a solidariedade de correligionários, que consideram a situação totalmente distinta daquelas que envolvem o clã Bolsonaro e figurões do Centrão.

“Primeiro, essas denúncias precisam ser confirmadas. Há muitas controvérsias e o próprio Jaques já entrou com uma ação para contestar alguns procedimentos da operação. Ele já havia se pronunciado quando foi levantada a suspeita e afirmado que não há efetivamente nenhuma aproximação com Vorcaro”, afirma Teresa Leitão, líder do PT no Senado. Entretanto, segundo uma fonte do Executivo ouvida por CartaCapital que pede anonimato, a possibilidade de Wagner deixar a liderança do governo estava no horizonte de Lula. “O mais importante é não atrapalhar a reeleição”, resume. Nas redes sociais, o deputado Rogério Correia, candidato do PT à prefeitura de Belo Horizonte em 2024, defendeu publicamente o afastamento do senador do posto de liderança no Senado. “Ele deve se afastar para se dedicar à sua defesa, resguardada a presunção de inocência”, argumentou.

Solidariedade. Alcolumbre sai em defesa do “desafeto” Jaques Wagner – Imagem: Carlos Moura/Agência Senado

Na quinta-feira 18, Wagner foi alvo de uma operação de busca e apreensão realizada no âmbito da Operação Compliance Zero, autorizada pelo ministro André Mendonça, que coordena as investigações sobre o Master no STF. Segundo a PF, ele teria recebido como presente de Augusto Lima, sócio de Vorcaro­, um apartamento de 2,45 milhões de reais em Salvador e mimos como o uso de jatinhos particulares e ingressos de camarote para um show de Taylor Swift no SoFi Stadium, um dos palcos da Copa, em Los Angeles, ao custo de 63,3 mil reais.

Antes de se associar ao Master, Lima, um empresário baiano, arrematou, em 2017, pelo valor de 15 milhões de reais, a Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), rede pública e deficitária de supermercados privatizada pelo governo da Bahia quando Wagner ocupava a Secretaria de Desenvolvimento Econômico no mandato de Rui Costa. A operação incluiu o cartão de crédito consignado, o Credcesta,­ utilizado por cerca de 400 mil funcionários públicos, aposentados e pensionistas. A gestão exclusiva por 15 anos do Credcesta­, ativo cobiçado, levou Lima a se associar mais tarde a Vorcaro. Ainda segundo a PF, Wagner teria atuado em favor do Master no Senado ao tentar aprovar emenda a uma Medida Provisória que aumentava os juros cobrados sobre empréstimos consignados, interferência negada pelo senador. O trecho acabou não incluído na MP e Wagner afirma ter sempre votado contra os interesses do banco, inclusive na célebre “Emenda Master”, apresentada por Ciro Nogueira, que elevava a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito de 250 mil para 1 milhão de reais. O testemunho do ex-ministro da Fazenda ­Fernando ­Haddad reforça a defesa do senador petista. Por orientação do governo, Wagner se posicionou sistematicamente contra eventuais benefícios à instituição financeira liquidada pelo Banco Central. Por enxergar um vício de origem na operação da PF, a defesa do parlamentar pediu, na segunda-feira 22, a anulação dos mandados de busca e apreensão expedidos por Mendonça. “A defesa confia que o STF corrigirá os equívocos e reafirma a tranquilidade do senador quanto à sua conduta”, afirma a nota assinada pelo advogado Pablo Domingues.

Alcolumbre e Motta continuam na mira da investigação

Durante evento público em São Paulo, Flávio Bolsonaro tratou de surfar nas denúncias contra o petista: “O PT da Bahia acaba de ser implodido pela Polícia Federal”. Para evitar uma contaminação, muita gente no entorno de Lula vê a renúncia de Wagner à liderança como a maneira mais rápida de voltar novamente os canhões do Master em direção à oposição e não deixar os eleitores esquecerem, entre outras coisas, dos 61 milhões de reais doados por Vorcaro ao clã Bolsonaro para supostamente financiar a produção do filme Dark Horse. Os próximos alvos em potencial podem abalar de vez as estruturas do Centrão ao bulir com Motta e Alcolumbre, o que provocaria terremotos nos dois polos da disputa presidencial.

Em confronto aberto com Lula desde a rejeição do advogado-geral da União, Jorge Messias, a uma vaga no STF, Alcolumbre redobrou a aposta na ruptura. Sob seu comando, o Senado aprovou pautas-bomba com potencial impacto de 111 bilhões de reais nas contas públicas e tem evitado dar prosseguimento ao projeto, aprovado pela Câmara, que coloca um ponto final na escala 6×1. Vazamentos dão conta, no entanto, que o amapaense teria sido agraciado com 30 milhões de reais de Vorcaro, em troca de apoio às demandas do ex-banqueiro. O senador nega: “Querem arrastar minha honra para a lama”. Exposto em praça pública, Alcolumbre aproveitou para fazer um gesto de boa vontade a Wagner, com quem andava às turras. Afirmou “respeito e admiração” pelo colega e defendeu o baiano após a investida da PF. “Muitas autoridades já foram vítimas de execração pública e mais tarde foi verificada sua inocência.”

Refresco. Com os holofotes sobre Wagner, o presidente da Câmara tem sido poupado de prestar esclarecimentos a respeito das relações com Vorcaro – Imagem: Douglas Gomes/Presidência Câmara dos Deputados

Com os holofotes lançados sobre o PT da Bahia, Motta ganhou um respiro. O presidente da Câmara é outro próximo a Vorcaro. Uma empresa da irmã de sua mulher obteve um empréstimo de 22 milhões de reais do Master. O deputado, por sua vez, teve viagens internacionais e estadias em hotéis cinco estrelas patrocinadas pelo ex-banqueiro. “Tudo dentro da normalidade”, defendeu-se.

No STF, o fantasma do Master trombou com outra poderosa assombração, o fantasma da Lava Jato. Após Mendonça admitir em sessão ter sido procurado por um advogado de Vorcaro com uma proposta de “delação seletiva”, o ministro decano do tribunal, Gilmar Mendes, afirmou que o colega de toga cometeu um “erro crasso” ao simplesmente admitir conversar com advogados do banqueiro. “Aqui há uma impropriedade, porque a lei não permite que o relator participe da delação. O acordo é entre o MP ou a PF com o delator.” Sem mencionar diretamente a Lava Jato, Mendes condenou aquilo que qualificou como “excessos” na condução dada por Mendonça ao processo, como vazamentos e quebras indevidas de sigilo. É de arrepiar, mas a coisa pode ficar ainda mais assustadora no Supremo, depois que seu presidente, Edson Fachin, definir qual será o responsável por analisar a notícia-crime que associa a produção de Dark Horse às investigações do Banco Master, o que deve acontecer em breve. Para certos parlamentares, o São João no Nordeste e a Copa do Mundo têm sido providenciais. •

Publicado na edição n° 1419 de CartaCapital, em 30 de junho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Pausa providencial’

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