Política

Pastores lobistas do MEC alvos da PF estiveram 35 vezes no Planalto

Além da Presidência, os pastores foram recebidos na Vice-presidência, na Casa Civil, na Secretaria de Governo, na Secretaria-geral, entre outros

Gilmar Santos e Arilton Moura em evento oficial do governo ao lado de Bolsonaro.

Foto: Carolina Antunes/PR
Gilmar Santos e Arilton Moura em evento oficial do governo ao lado de Bolsonaro. Foto: Carolina Antunes/PR
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Dados de registro de entrada nos órgãos da Esplanada mostram que os pastores tinham amplo acesso à cúpula do governo. Arilton Moura esteve 35 vezes no Palácio do Planalto desde o início do governo Bolsonaro. Já Gilmar Santos foi ao palácio dez vezes no mesmo período.

Além da Presidência, os pastores foram recebidos na Vice-presidência, na Casa Civil, na Secretaria de Governo, na Secretaria-geral, entre outros.

Os dados foram divulgados pelo Gabinete de Segurança Institucional (GSI), um dia após O GLOBO revelar que o governo federal havia recusado um pedido para apresentar as informações.

De acordo com o GSI, os dados foram liberados devido a uma “recente manifestação da Controladoria-Geral da União quanto à necessidade de atender o interesse público”.

A divulgação dos dados foi autorizada pelo presidente Jair Bolsonaro, após o ministro titular do GSI, Augusto Heleno, receber um alerta do ministro da Controladoria-Geral da União (CGU), Wagner Rosário, de que a tendência era o órgão determinar a divulgação dos dados.

Arilton Moura foi recebido seis vezes no Planalto após agosto do ano passado, quando a CGU abriu uma investigação para apurar supostas ofertas de propina que ele teria feito. Gilmar esteve três vezes no local no mesmo período.

Em nove oportunidades, os pastores chegaram juntos ao Planalto. Em alguns casos, houve mais de uma visita no mesmo dia por parte de um dos dois.

Gilmar é presidente da Convenção Nacional de Igrejas e Ministros das Assembleias de Deus no Brasil, e Arilton é assessor de Assuntos Políticos da organização. Os dois intermediaram encontros de prefeitos com o ex-ministro da Educação Milton Ribeiro. Ao menos três prefeitos relataram que Arilton pediu propina para auxiliar na liberação de recursos para as suas cidades. A atuação dos dois está sendo investigada pela Polícia Federal (PF).

O caso levou Milton Ribeiro a pedir demissão do governo. Senadores também tentam reunir assinaturas para criar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o tema.

Encontros com Bolsonaro

A agenda oficial de Bolsonaro registra três encontros com os pastores no Palácio do Planalto: em 25 de abril de 2019, 18 de outubro de 2019 e 14 de outubro de 2020. A lista do GSI, no entanto, só registra entrada de Arilton e Gilmar em dois desses dias.

Idas ao ministério

O número de idas dos religiosos ao MEC foi ainda maior. Moura esteve na sede da pasta 90 vezes neste período, enquanto Santos foi dez vezes ao órgão.

Informações obtidas pelo GLOBO via Lei de Acesso à Informação mostram que a partir da gestão de Milton Ribeiro a dupla passou a acessar o MEC por meio da entrada privativa, destinada a autoridades. O acesso continuou mesmo após o ex-ministro ter levado suspeitas sobre atuação dos religiosos à Controladoria-geral da União (CGU). O acesso a essa área restrita continuou mesmo após Ribeiro ter feito uma denúncia à Controladoria-Geral da União (CGU) sobre a atuação dos dois pastores.

Além disso, a maioria dos encontros não tem correspondência nas agendas de Ribeiro e dos demais dirigentes do ministério. Os dados, repassados pelo MEC por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), são dos registros da entrada principal do ministério e da portaria privativa.

Dos 90 registros de entrada de Arilton, 47 ocorreram na segunda categoria. No caso de Gilmar, foram sete entre 13. Apesar de Arilton frequentar o ministério desde agosto de 2019, foi somente um ano depois que ele passou a entrar pela portaria privativa, em agosto de 2020.

A mudança coincide com a chegada de Ribeiro, que assumiu a pasta no mês anterior, em julho. O pastor indicou na portaria 38 vezes que seu destino seria o gabinete do ministro. Em somente seis dessas datas há registros da presença dele na agenda de Ribeiro.

Os encontros continuaram mesmo após a denúncia apresentada por Ribeiro à CGU: ele esteve 13 vezes no gabinete após agosto de 2021 (data em que a denúncia foi feita), sendo 10 delas fora da agenda de Ribeiro. Gilmar começou a visitar o MEC depois: seu primeiro registro de entrada ocorreu em dezembro de 2020.

Depois de cinco visitas no primeiro semestre de 2021, a partir de outubro ele passou a utilizar a portaria privativa. Desde então, ele indicou setes vezes que iria ao gabinete do ministro, sendo que apenas uma dela constou na agenda de Ribeiro.

O MEC disponibiliza em seu site as agendas das principais autoridades: além do ministro, secretários, assessores especiais e diretores. Um cruzamento entre os registros de entrada e as agendas públicas de todos os dirigentes mostra uma correspondência apenas em 19 das vezes em que Arilton esteve no ministério e quatro quando Gilmar visitou a pasta.

Visita a ministro

Em 8 de dezembro, os pastores Arilton Correia e Gilmar Santos visitaram o gabinete do ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira. Ambos estiveram por cerca de uma hora nas dependências do Palácio do Planalto, onde fica o gabinete de Nogueira, segundo o sistema de controle de visitantes administrado pelo Gabinete de Segurança Institucional (GSI).

Na ocasião, o ministro publicou uma fotografia no Instagram na qual os pastores aparecem durante uma reunião com o deputado federal da bancada evangélica João Campos, do Republicanos de Goiás, que emprega a filha do pastor Gilmar Santos em seu gabinete.

“Dia de muitas reuniões aqui em meu gabinete para dialogar com parlamentares sobre as demandas estaduais e a pauta legislativa do Congresso. Hoje recebi os deputados Antônio Brito, Cacá Leão, Covatti Filho, Pedro Westphalen, Neri Geller e João Campos; as senadoras Kátia Abreu e Daniella Ribeiro; o ex-deputado federal Manato e o reitor da nossa Universidade Federal do Piauí, Gildásio Fernandes”, escreveu Ciro Nogueira na legenda da foto, omitindo os nomes dos pastores investigados por desvios no FNDE.

Agência O Globo

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Agência de notícias e de fotojornalismo do Grupo Globo.

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