Pandemia expõe que “governo não sabe o que é um pobre ou a economia real”

Para o economista Marcio Pochmann, País sairá em frangalhos das quarentenas e precisará do Estado mais do que nunca

O economista Marcio Pochmann. Foto: Pedro França/Agência Senado

O economista Marcio Pochmann. Foto: Pedro França/Agência Senado

Política

O governo propôs pagar 200 reais de renda emergencial a brasileiros pobres, depois que o coronavírus tornou-se pandemia global. O valor era baixo, e o Congresso, a quem cabia aprová-lo, decidiu aumentá-lo, e aí Jair Bolsonaro propôs 600 reais, em uma tentativa de ser ele a colher a glória política. Agora, o ministro da Economia, Paulo Guedes, diz que os parlamentares precisam aprovar uma certa mudança na Constituição, antes de o dinheiro ser gasto, por razões técnicas.

Esse episódio resume algo que o economista Marcio Pochmann, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) de 2007 a 2012, identifica na atuação do governo na pandemia: “Eles não têm a menor ideia do que é um pobre”. Como também não tem, diz, sobre o funcionamento da economia real, por ser dominado por pessoas ligadas ao sistema financeiro, a começar pelo ministro Paulo Guedes.

Para Pochmann, o governo tem agido de “forma muito vagarosa” propositalmente, a fim de criar um caos desejado por Bolsonaro. A economia, segundo ele, sairá destruída no fim das quarentenas, e o Estado será mais importante do que nunca para cuidar dos mais pobres e da reconstrução nacional.

A seguir, a íntegra de sua entrevista a CartaCapital, na qual ele critica os neoliberais neokeynesianos de ocasião, defende trocar a elite dirigente, comenta a disputa geopolítica e econômica entre Estados Unidos e China e faz alguns prognósticos sobre economia global depois da fase aguda do coronavírus.

CartaCapital: O que acontece no Brasil e no mundo, agora na pandemia, que para o senhor é “socialismo dos ricos”?

Marcio Pochmann: No caso brasileiro, o montante de recursos federais agora na crise é de 1 trilhão e 500 bilhões de reais. Desse valor, 1 trilhão e 200 bilhões foram disponibilizados pelo Banco Central para o sistema financeiro, por isso não há sinais até agora de problemas nos bancos, nas corretoras.

A Bolsa de Valores caiu mais de 30% e não teve uma empresa quebrada, uma corretora quebrada. E se o quadro se agravar, o Banco Central vai comprar ações de empresas, de bancos. Então, de 1 trilhão e 500 bilhões, 1 trilhão e 200 bilhões já foi imediatamente liberado para os ricos.

É uma situação muito parecida com a que ocorreu, não no caso brasileiro, na crise de 2008, quando os governos, na Europa e nos Estados Unidos, liberaram recursos, compraram títulos podres e emitiram moeda para salvar o andar de cima, os ricos.

No plano de agora no Brasil, sobraram 300 bilhões de reais de fora desse “socialismo dos ricos”, recursos de antecipação do FGTS, de crédito para empresas pagarem salários, de garantia de renda aos mais pobres. E desse total, praticamente dois terços não saíram do papel ainda.

CC: E se na crise de 2008 o problema começou em cima, agora há uma necessidade mais imediata de salvar os mais pobres, atingidos de forma mais rápida e ampla agora do que em 2008, não?

MP: A questão não é o gasto do Estado, na verdade, é a reorganização do Estado. Como é que você vai administrar essa massa de pobres desempregados que nós vamos ter? Você precisa de um Estado estruturado, e nós não temos. A equipe econômica desse governo não está preparada para lidar com isso, não tem a menor ideia de como é que funciona a economia real. O governo federal não tem conexões com as periferias.

CC: Não tem conhecimento para lidar com a pobreza…

MP: Não tem a menor ideia do que é um pobre. E eles dizem que vão liberar recursos, mas como é que o dinheiro chega lá na ponta? Liberar crédito para as empresas não vai funcionar. O governo acredita que as empresas não vão demitir, porque vão poder ir ao banco pegar empréstimo para pagar salário.

E aí eu pergunto: as empresas estão enforcadas, quem vai se endividar mais, quem vai passar no critério de avaliação dos bancos? E ainda vão ter de pagar uma taxa de juros (básica da economia, definida pelo BC, a Selic) de 3,75%, altíssima para um quadro de uma economia em depressão.

Você teria que operar com juro negativo (menor do que a inflação), não com juro real positivo. As empresas não vão se endividar, não vai funcionar. Quem está tomando decisão em Brasília é gente que desconhece a realidade brasileira. A micro e pequena empresa está endividada, não vai contrair empréstimos. Nós vamos ter demissão em massa no Brasil, fechamento de empresas, uma coisa horrível o que nos espera.

CC: Até onde chegará o desemprego e qual será o tamanho do tombo do PIB este ano?

MP: É difícil chutar um número. Eu diria que nós não estaremos em recessão, estaremos em depressão. Recessão foi o que aconteceu em 2015, 2016 (anos em que, no fim do governo Dilma Rousseff, o Brasil encolheu 7%). É quando você mantém a sua capacidade de produção, só que reduz o nível de atividade. Você pode produzir 100 automóveis, mas produz 90, depois passa a 70, mas você pode voltar a ocupar essa capacidade ociosa gerada pela recessão. Então, recessão gera capacidade ociosa.

Depressão leva à redução da capacidade de produção. O que nós vamos ver no Brasil não é só a redução de atividade e aumento da ociosidade, é redução da capacidade. Por quê? Porque vai ter fechamento, quebra de empresas. O empresário parou, não sabe quando vai voltar, então fecha o negócio e guarda dinheiro na mão. De nada adiantará daqui um ou dois meses ter uma fábrica, se eu não vou conseguir reativá-la.

CC: O que achou de manifestações de alguns empresários bolsonaristas de que vai morrer pouca gente de coronavírus, o mais importante seria pensar nos impactos econômicos das quarentenas?

MP: Faz parte do egoísmo do dinheiro, é a salvação individual. A experiência de outros países na pandemia mostra duas medidas tomadas simultaneamente. A primeira, aparentemente sem alternativa, é o isolamento social: você faz uma parada técnica na economia, na produção e no emprego, para manter as pessoas isoladas.

Simultaneamente, você tem as políticas fiscal e monetária, para dar garantia de renda, de crédito e de condições mínimas de operação da economia. No Brasil, os governadores e prefeitos tomaram a iniciativa da paralisação, que gerou a parada técnica na economia.

Só que a segunda medida, que só pode ser tomada pelo governo federal – os prefeitos e governadores não tem capacidade de endividamento, não podem fazer política monetária e fiscal – tem sido feita de forma muito vagarosa. O cara que é um pequeno empresário, autônomo, trabalha por conta própria, pensa: “Tudo bem, vou ficar parado, mas e a minha renda de amanhã, de depois de amanhã?”. É o desespero entre a fome e o risco da contaminação.

CC: Essa demora tem potencial para criar caos social, na sua opinião? O presidente Bolsonaro fala em caos.

MP: Penso que é a estratégia de Bolsonaro. O Bolsonaro foi eleito para não governar, porque governar significaria dar continuidade ao que ele entende como um rumo ao comunismo. Portanto, é um presidente eleito para não governar, e de certa maneira a estratégia dele é criar o caos, pois só através do caos ele tem condições de se legitimar e de operar essa política.

Se a gente analisar o que foi o primeiro ano dele, foi um mandato de estímulo ao caos institucional: ele saiu do partido, criou vários problemas entre os partidos, entre os políticos da própria base dele, criou problemas institucionais com os poderes da República… Em suma, gerou um maior descrédito na política e nas instituições. Esse segundo ano acredito que será de coroamento do caos econômico e social. E o caos não trará democracia, dará em mais autoritarismo.

CC: Se a economia brasileira estiver mesmo destruída depois da pandemia, haverá como recuperá-la com a política econômica do governo centrada em reformas liberais? Em uma recente conversa via internet com investidores da Bolsa no fim de semana, o ministro Paulo Guedes disse que, no ano que vem, volta à estratégia antiga.

MP: Será a repetição do que ocorreu depois (da crise financeira global) de 2008. A General Motors ia quebrar, vários bancos dos Estados Unidos quebraram, e o que aconteceu? O (então presidente americano Barack) Obama foi lá e atendeu o setor privado, injetou recurso. O Banco Central europeu fez a mesma coisa. Os governos compraram títulos podres dos grandes setores com dinheiro saudável saído do próprio governo, que se endividou. E na crença de que, ao passar o dinheiro para os ricos, ao praticar esse socialismo dos ricos, os tomadores pegariam o dinheiro e investiriam na economia, na produção, gerando emprego e mais arrecadação de impostos para o Estado.

E o que aconteceu? Os ricos usaram o dinheiro no velho rentismo, em aplicações financeiras, especulativas. A economia não cresceu, não gerou emprego, não aumentou a receita pública, e o Estado ficou com mais dívida. Aí ressurgiu o discurso da austeridade: “Está vendo, o Estado é mau gastador, o setor privado está bem, mas o Estado é gastador”. Agora nós vamos ter aumento da dívida pública também e vamos ouvir essa mesma ladainha.

CC: Existe alguma comparação entre a crise de 2008 e a de agora? O FMI acha, por exemplo, que agora pode ser pior.

MP: Em 2008, tivemos contradições da economia, uma contradição no lado monetário, financeiro, creditício, que depois contaminou a economia real. Em 2020, o problema não nasceu na economia, mas na saúde. Para enfrentá-lo, foi estabelecida uma parada técnica da economia. A China fez isso, de uma forma organizada: uma parada técnica para a produção e o consumo, mas com o Estado em condições de reativar isso na sequência.

No caso brasileiro, a parada técnica não tem sido acompanhada de um Estado organizado, porque o Estado está muito fragilizado, então o que pode acontecer é que essa parada técnica não seja apenas uma redução da capacidade ociosa, mas uma quebra do setor produtivo, uma depressão.

Essa depressão vai precisar de um Estado completamente diferente do que temos hoje. Para simplificar: uma situação que decorre de uma pandemia, de um problema que vem da saúde, contamina a economia e saída terá de ser política, você vai ter que mudar a elite dirigente. Como é que você pode ter um quadro de emergência nacional, e o Parlamento desarticulado? Na Índia, diante da identificação do problema da pandemia, em 36 horas o Congresso tomou decisão. Nos EUA, em 48 horas. E o Parlamento brasileiro? O pessoal não está se dando conta da gravidade.

CC: O que será a economia mundial, por exemplo, a partir de 2021, depois da pandemia?

MP: Em primeiro lugar, eu diria que a economia chinesa sai na frente dos Estados Unidos e vai superá-los antes do imaginado. Nós estávamos diante de uma guerra comercial (entre China e EUA) e pode ser que a única saída para reativar a economia mundial seja uma guerra, como foi na saída (da crise global causada pela quebra da bolsa americana) de 1929 .

O New Deal (plano de governo do presidente americano Franklin Roosvelt, à base de gastos públicos e proteção social) foi importante, mas não tirou a economia americana da situação que estava. Os EUA só saem da crise de 1929, só tem um PIB maior que 1929, quando entram na (Segunda) Guerra (Mundial) em 1939, dez anos depois.

Ponto dois: será uma economia mundial com um Plano Marshall chinês, com a inclusão de muitos países na chamada Rota da Seda (projeto de mais de 1 trilhão de dólares para interligar a infraestrutura de Ásia e Europa), muitas vezes superior ao Plano Marshall (original, injeção de capital americano na Europa e no Japão depois da Segunda Guerra de cerca de 100 bilhões de dólares em valores atualizados) de 1947.

Terceira possibilidade: o fim do dólar como moeda internacional, substituído por uma outra, por um outro sistema monetário.

CC: O senhor costuma dizer que na História não houve troca de hegemonia econômica sem guerra. Acredita que a gente possa ver um conflito armado mundial num futuro não muito distante?

MP: Eu não descartaria, inclusive porque há hipóteses de trabalho que apontam que o coronavírus está associado a uma guerra biológica. Há uma versão de que o vírus surgiu em um laboratório militar no estado americano da Virgínia, que não tinha condição de conter patógenos (agente infeccioso) que resultavam de pesquisas biológicas. Esse laboratório foi fechado no ano passado ou retrasado. Justamente nas proximidades dele, ficaram concentrados os 300 militares americanos que participaram, em outubro do ano passado, das Olimpíadas Militares (realizadas na cidade chinesa de Wuhan, o epicentro do coronavírus).

Investigações chinesas mostraram que, no hotel onde ficou a delegação americana, houve um grande grau de contaminação pelo vírus. O tal do mercado popular em Wuhan onde teria começado a contaminação ficava a 300 metros dali. Há uma segunda versão, de que esse vírus surgiu de um laboratório chinês que desenvolvia uma vacina. Se juntarmos essa hipotética guerra biológica à guerra comercial e tecnológica do Trump com a China, temos um ambiente de guerra, só que sem armas letais. É um enfrentamento que, em última etapa, pode ser um conflito de fato. Só que, embora a China avance, ainda não tem força militar comparável aos EUA.

CC: O presidente Trump largou a mão invisível do mercado de lado agora na pandemia e botou o Estado para atuar nos EUA…

MP: Exatamente. Ele interveio em duas montadoras, a General Motors e a Ford, obrigando-as a parar a linha de montagem de automóveis, para fabricarem respiradores mecânicos, em um quadro de desespero numa situação dramática… Para entender como cada país vai enfrentar a crise do coronavírus, é preciso olhar seus antecedentes, ou seja, como é que ele vinha do ponto de vista econômico.

O Brasil já vinha mal das pernas, quase não cresceu no ano passado (1,1%), esse ano também não ia crescer (as previsões pré-pandemia eram de 2%), então, entramos mal na crise, com uma economia fraquejando, que ainda está com um nível de atividade abaixo de 2014. E há o aspecto político. Entramos em 2020 sem coordenação, com disputas entre o Executivo e o Legislativo, entre o presidente e os governadores… É a pior situação possível: economia fraquejando e condução política completamente fragmentada.

CC: O que acha de economistas neoliberais e anti-Estado serem chamados a opinar e apresentar ideias no Brasil para uma crise que requer ação estatal?

MP: Pois é, gente como Arminio Fraga, (Affonso Celso) Pastore, o cara que foi Secretário de Política Econômica do (presidente de 1995 a 2002) Fernando Henrique, o (Luiz Carlos) Mendonça de Barros. São neoliberais neokeynesianos, mas é um falso neokeynesianismo pois eles não acreditam de fato no Estado.

Num país subdesenvolvido como o nosso, o Estado é fundamental para os pobres. Todo o trabalho que, de alguma forma, ficou dos governos do PT foi o de colocar os pobres no orçamento. Essa elite que nós temos nesse início do século 21 é muito parecida com a do final do século 19. No final do século 19, ela aceitou a abolição da escravidão, mas dizia: “O atraso brasileiro é porque tem muito negro, miscigenado. A saída é o branqueamento”.

Você entrou no capitalismo, mas excluiu quase dois terços da população miscigenada e negra. O que o neoliberal sempre diz? “O problema do Brasil é que o Estado gasta muito”. Mas gasta com o quê? Com pobre. A política neoliberal é a política de exclusão do pobre, é de redução de políticas que atendem os pobres. O Estado gasta muito com os bancos, com o rentismo, mas isso não se fala. Dá subsídios para os ricos, sem cobrar impostos, mas isso não se fala.

CC: Cobrar mais impostos dos ricos, do atual estoque de riqueza, não seria uma solução para o poder público arrumar dinheiro que compense a inevitável queda da arrecadação que será causada pelo coronavírus? O Congresso já debatia uma reforma tributária antes da pandemia.

MP: Sou favorável a essa maior taxação, mas tenho duvida se esse é o momento. Numa calamidade, é preciso ter convergência de direção política. Cobrar mais dos ricos, tudo bem, é necessário, mas em uma situação de calamidade, em uma economia de guerra, dividir a sociedade com a discussão de “tributar este ou aquele” não me parece a melhor estratégia política.

A questão do financiamento do déficit, do gasto público, se vê mais à frente. Temos outras forma de agir numa situação de calamidade, que é o endividamento público. Eu me preocuparia mais em reorganizar o Estado num quadro de guerra. O Estado que nós temos está quase incapacitado de atuar para aqueles que mais precisam. Como é que você vai fazer com que os recursos cheguem às pessoas? Os ministério estão constrangidos há mais de três anos pela lei do teto (aprovada em 2016, por Michel Temer, para congelar por 20 anos as despesas estatais). O País foi desmontando suas políticas públicas. Reconstruir o Estado é uma tarefa gigantesca que exige uma nova maioria política, não dá para dividir a sociedade.

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Repórter correspondente da revista CartaCapital em Brasília

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