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Paladar viciado

Alimentos ultraprocessados embalam epidemia de obesidade infantil no Brasil, alerta estudo do Unicef

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Junk food. O maior perigo reside nas refeições rápidas, como café da manhã ou o lanchinho da tarde, revela a pesquisa – Imagem: iStockphoto
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Em 2025, a obesidade superou a desnutrição como a forma mais prevalente de má nutrição entre crianças e adolescentes no mundo, segundo o Unicef. No Brasil, essa inversão ocorreu há mais de 25 anos. Graças ao êxito de políticas de redistribuição de renda, como o Bolsa Família, o País deixou de figurar no vergonhoso Mapa da Fome da ONU. A ampliação do acesso a alimentos não se traduziu, porém, em melhor qualidade nutricional para grande parte da população. Hoje, especialistas alertam para uma epidemia de obesidade: o porcentual de jovens de 10 a 19 anos com excesso de peso saltou de 18,27%, em 2010, para 33,52% no ano passado, de acordo com dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) do Ministério da Saúde.

Divulgado na terça-feira 31, um estudo do Unicef ajuda a explicar esse avanço ao associar o aumento da obesidade infantojuvenil ao crescente consumo de alimentos ultraprocessados – produtos prontos para consumo, com baixo valor nutricional e alta concentração de aditivos, também conhecidos como junk food (“comida lixo”, em tradução literal). A pesquisa ouviu 614 responsáveis por crianças e adolescentes de famílias das classes C, D e E em três comunidades urbanas – Guamá (Belém), Ibura (Recife) e Pavuna (Rio de Janeiro) – e incluiu, além de questionários, grupos focais com mães, cuidadoras e lideranças locais. Os resultados apontam uma elevada presença desses produtos em refeições rápidas, como café da manhã e lanches, além de dificuldades na identificação de opções saudáveis: 49% dos entrevistados consideram, por exemplo, nuggets preparados na air fryer um alimento adequado. O estudo também mostra que dois em cada três participantes ignoram os alertas da “lupa” nos rótulos, que indicam altos teores de açúcar, gordura e calorias em alimentos industrializados.

Especialistas alertam que o aumento do consumo desses produtos não ocorreu de forma espontânea. Ao contrário, há uma estratégia da indústria para ampliar a variedade de junk food nas gôndolas dos supermercados. A Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE demonstra que as calorias adquirias pelas famílias brasileiras por meio dos ultraprocessados passou de 12,6% em 2003 para 18,4% em 2018. No mesmo período, a redução de consumo de alimentos in natura, como arroz, feijão, frutas e legumes, caiu de 53,3% para 49,5%. Outro levantamento mais recente, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, mostrou que dos 39 mil alimentos e bebidas lançados no mercado brasileiro de 2020 a 2024, 62% eram ultraprocessados, e apenas 18,4% in ­natura ou minimamente processados.

Um terço dos jovens de 10 a 19 anos está com excesso de peso, revelam dados do Ministério da Saúde

De acordo com a pesquisa do Unicef, a exposição precoce de crianças a “ambientes obesogênicos favorece escolhas alimentares não saudáveis e comportamentos sedentários”. O lanchinho da tarde com bolachas, salgadinhos, refrigerantes e sucos de caixinha parece inocente, mas, em excesso pode trazer consequências graves ainda na infância e deixar sequelas por toda a vida. Alguns ingredientes encontrados em altas quantidades nos ultraprocessados, como sódio, açúcares e gorduras, são os principais vilões. Essas fórmulas contam ainda com realçadores de sabores, emulsificantes, corantes, acidulantes e saborizantes utilizados para melhorar a aparência, a textura e até a cor, que podem ser altamente viciantes.

A médica Fabíola Suano, presidente do Departamento de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, explica que a ação desses aditivos na primeira infância tem maior impacto no desenvolvimento dos órgãos e sistemas. “O efeito nocivo ao longo da vida se intensifica.” Isto significa que, quanto mais cedo a criança for exposta aos ultraprocessados, piores podem ser as consequências, que vão muito além de um “paladar viciado”. “Uma criança habituada a consumir macarrão instantâneo, bolacha, refrigerante terá o paladar moldado para preferir esse tipo de alimento na idade adulta. Hoje, os ultraprocessados já são comparados ao cigarro e ao álcool.”

Além de obesidade e sobrepeso, a dieta baseada em junk food traz uma série de outras complicações. A especialista em Nutrição e Saúde do Unicef Stephanie Amaral­ revela o surgimento em crianças de “doenças que antes eram de adultos”. Entre elas, o diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares, depressão e morte precoce por todas as causas, elenca a nutricionista Patrícia Jaime, coordenadora científica do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens), da Faculdade de Saúde Pública da USP.

Merenda. O programa alimentação escolar é elogiado por especialistas – Imagem: Fernando Teixeira/Prefeitura de Boa Vista

A especialista destaca ainda uma pesquisa publicada no ano passado pelo nutricionista e pesquisador Lucas Faggiani­, da mesma universidade, que demonstra como “o consumo de ultraprocessados está associado a alterações na microbiota intestinal com pior diversidade e maior presença de bactérias ligadas a perfis menos favoráveis de saúde, sobretudo entre crianças que já não recebiam leite materno”. De acordo com ela, “esse achado é importante porque a microbiota intestinal participa de funções essenciais do organismo e se conecta ao chamado eixo intestino-cérebro, que influencia respostas imunológicas, hormonais e até aspectos do comportamento”.

Um estudo do Nupens mostra que, a cada 10% de aumento na participação de ultraprocessados na dieta, há uma elevação de 10% no risco de sintomas depressivos. “Quando se observa o conjunto das evidências, uma meta-análise de estudos prospectivos indica que pessoas com maior consumo desses produtos têm um risco cerca de 30% maior de desfechos relacionados à depressão”, explica Patrícia Jaime. A representante do Unicef acrescenta que as mudanças na microbiota “também estão relacionadas a alterações hormonais associadas à ansiedade, depressão e hiperatividade”.

Mesmo diante de todos esses malefícios, por que esses alimentos ainda são escolhidos pelas famílias? Tamara Correia de Andrade, especialista em regulação de alimentos do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), atribui o fenômeno ao apelo publicitário dos ultraprocessados, além de alertar que as embalagens podem transmitir mensagens enganosas. “Uma bolacha sabor morango, por exemplo, exibe a fruta no rótulo frontal, mas muitas vezes nem contém morango na formulação, o que confunde o consumidor”, explica. A diagramação, geralmente atraente para crianças, dificulta convencê-las de que o produto não é saudável, especialmente quando há mascotes ou heróis de séries, filmes e jogos.

Quase metade dos consumidores acredita que nuggets preparados na air fryer são saudáveis

Em 2014, o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente ­(Conanda) publicou a Resolução 163/14, que estabelece diretrizes para a publicidade infantil e considera abusiva qualquer comunicação mercadológica voltada às crianças. As regras, no entanto, não se estendem às embalagens. E mesmo que as propagandas sejam proibidas na programação televisiva, hoje os pequenos estão muito mais expostos aos programas infantis na internet. “A publicidade direcionada ao público infantil é abusiva por natureza, porque se aproveita da falta de discernimento, da deficiência de julgamento das crianças”, explica Tamara Andrade. O Idec entende que a embalagem não é apenas informativa, mas funciona também como uma peça publicitária abusiva e “muito atrativa para as crianças”, por isso precisa de regulamentação.

A coordenadora do Nupens, por sua vez, alerta para o peso econômico e estratégico do marketing das indústrias para substituir a alimentação tradicional brasileira, como arroz, feijão, salada e uma carne, pelos ultraprocessados. “Essa mudança não acontece por acaso. Os ultraprocessados são formulados com o propósito de gerar lucro, por isso há um imenso investimento em publicidade. Não se trata apenas de uma escolha individual.” Assim como a mudança dos hábitos não deve ser vista como um sintoma dos indivíduos, as consequên­cias também precisam ser vistas como problemas coletivos, avalia a médica da Sociedade Brasileira de Pediatria. “No Brasil, cerca de 70% da população vive com excesso de peso. É uma doença que reduz a qualidade de vida, aumenta a chance de morte, de doenças crônicas e de alguns tipos de cânceres. Mas, quando há uma incidência tão alta, ela não pode ser vista como uma doença do indivíduo. É uma doença da sociedade.”

O aumento da oferta de ultraprocessados para todas as classes sociais se intensificou no Brasil nos anos 2000, mas a padronização alimentar e a redução das variedades de ingredientes começaram bem antes, afirma Adriana Salay, professora da USP e especialista em História da Alimentação. “Nos anos 1970, existiam quase 500 variedades de feijão consumidas no País, todas muito regionalizadas. Hoje, a variedade que a gente mais come é o feijão carioca, que foi nacionalizado por meio de um esforço da indústria e da Embrapa, para ampliar a produtividade, e isso gerou uma uniformização nacional do paladar e a perda de sementes locais.”

Há, porém, outros fatores relevantes para a inclusão das junk foods na dieta diá­ria: o preço convidativo e a praticidade do preparo. “Hoje, as classes altas consomem mais ultraprocessados. A classe E ainda tem uma dieta baseada em arroz, feijão e farináceos, mas a tendência é de que essa população vulnerável seja empurrada cada vez mais para os ultraprocessados, devido ao aumento dos preços dos alimentos in natura”, avalia a especialista. A inflação atinge muito mais os alimentos perecíveis. Mas a facilidade­ de armazenamento e os longos prazos de validade dos ultraprocessados têm um forte apelo para as donas de casa no momento da compra. “Existe a ideia de que, se a comida estragar antes mesmo de ter sido preparada, o dinheiro foi perdido”, explica.

No entanto, nem tudo está perdido, acredita a médica Fabíola Suano. Para ela, o Brasil ainda tem “muitas chances” de reverter esse alto consumo de ultraprocessados e uma imensa “possibilidade de resgate” dos hábitos alimentares saudáveis, diferentemente do que ocorre nos EUA e em países europeus, cuja dieta está fortemente concentrada nos ultraprocessados, chegando a taxas próximas de 80%. “No Brasil, esse índice está entre 30% e 35%. Isso indica que a cultura alimentar tradicional ainda resiste e pode ser fortalecida”, avalia. A médica observa também que, fora dos grandes centros urbanos, a população “come muito melhor” porque mantém contato mais próximo com a agricultura familiar. Além disso, o Programa Nacional de Alimentação Escolar garante o consumo de itens in natura nas escolas, onde grande parte dos alunos faz a principal refeição diária. A especialista considera o Guia Alimentar para a População Brasileira um instrumento eficaz para melhorar a educação nutricional e proteger as crianças, e a sociedade como um todo, de cair na armadilha das comidas empacotadas. •

Publicado na edição n° 1407 de CartaCapital, em 08 de abril de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Paladar viciado’

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