“País precisa acordar para bolsonaristas à direita do presidente”

Poderes têm de impor limites e esquerda, comunicar-se melhor, diz pesquisadora de movimentos conservadores

Foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil

Foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil

Política

Jair Bolsonaro não para de chocar as pessoas de bom senso, mas entre seus apoiadores há quem o ache moderado até demais. O desejo de fazer justiça com armas nas próprias mãos e de tirar o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF) do caminho do presidente move esses radicais, para os quais Bolsonaro é só o passo inicial rumo a um futuro político ainda mais à extrema-direita.

São conclusões da cientista e antropóloga social Isabela Oliveira Kalil, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp). Ela dedica-se desde as marchas de junho de 2013 a estudar movimentos conservadores em terras paulistas, berço de 22% da população e de 68% a 32% para Bolsonaro contra Fernando Haddad na eleição de 2018.

A partir de 2016, Isabela, coordenadora do Núcleo de Etnografia Urbana (NEU) da Fespsp, botou foco no bolsonarismo. Os extremistas hoje frustrados com o presidente são em geral homens de 40 a 50 anos, um entre 16 tipos de apoiadores de Bolsonaro identificados nos estudos, feitos majoritariamente em manifestações de rua.

Para Isabela, a direitização dos brasileiros começou a partir dos protestos de 2013. As pessoas pediam transporte mais barato, saúde e escola melhores, mas no fim prevaleceu a bandeira anticorrupção. Uma proeza comunicacional, segundo a pesquisadora.

“A inteligência foi conseguir capturar as diferentes insatisfações que havia na sociedade e pessoas que ainda não tinham tendência política. Eu lembro de conversar com jovens e eles debatendo ‘o que é esquerda, o que é direita, como é que a gente se situa’”, diz Isabela, a ressaltar: autodefinição política não é uma coisa lá muito precisa no Brasil.

A seguir, sua entrevista e seus alertas aos progressistas e aos poderes da República (STF, Procuradoria Geral, Congresso) para que acordem e lidem com a radicalização direitista.

CartaCapital: Suas pesquisas identificam uma demanda social por um discurso e uma prática mais extremistas dos políticos. O que esse público quer?

Isabela Oliveira Kalil: É preocupante a gente ter pessoas achando que o Bolsonaro não está entregando o projeto que prometeu. Não é uma demanda grande numericamente, mas é importante, e o fato de essa demanda existir é também um risco de ela aumentar. O que pesa para essas pessoas é a questão das armas. Alguns grupos esperavam que a primeira coisa que esse governo entregasse fosse maior acesso ao porte e à compra de armas. Essas pessoas acreditavam que isso ia acontecer e beneficiá-las individualmente, de maneira direta. Não era uma questão de pensar no que seria o governo Bolsonaro em si. Foi um cálculo muito pragmático: vou votar no Bolsonaro para ter uma arma, me sentir mais seguro e proteger a minha família nas ruas. Só que não aconteceu.

CC: Esse grupo está frustrado e isso afetou a popularidade do governo, não?

IOK: Sim, mas há também uma visão de que é difícil governar, de que o Bolsonaro estaria refém da chamada velha política, então não seria culpa dele, “não estão deixando ele trabalhar”. O que chama a atenção nas pesquisas são discursos do tipo: “O Bolsonaro é o primeiro passo, depois a gente vai levar esse projeto mais para a direita, vai radicalizá-lo”. Parece estranho: como pode ser mais radical que isso? Se a gente olhar, o Bolsonaro da campanha e da pré-campanha disse coisas, prometeu coisas, assumiu posições mais radicais do que as que ele apresenta agora como presidente. Com suas declarações recentes mais radicais, ele tem mostrado uma face que não é tão diferente da sua face eleitoral, da sua trajetória histórica. O Bolsonaro não fechou o Congresso, mas algumas pessoas acreditavam que isso poderia acontecer e seria a melhor maneira de governar.

CC: Há também a defesa de fechar o Supremo. O tribunal é visto por esses radicais como outro limitador do Bolsonaro?

IOK: Vi em uma manifestação que o STF poderia ser fechado e que a Polícia Federal deveria assumir no lugar. Há uma visão de que o Brasil teria muitos direitos, o problema do País seria ter um excesso de direitos e de garantias constitucionais e que seria preciso endurecer um pouco as leis, as pessoas terem menos direitos. Nós saímos de uma ditadura não faz muito tempo (em 1985), de alguma forma essas pessoas estão culpando a democracia pelos problemas, inclusive os de desigualdade e de segurança pública. É como se as pessoas quisessem dar uma solução que é a seguinte: o Brasil precisaria de um regime mais autoritário e de menos direitos.

CC: O avanço de algumas causas progressistas no Supremo contribui para essa raiva, não?

IOK: Há a visão de que o STF estaria passando de alguns limites, de que estaria legislando ao invés de agir como Judiciário. Algumas pautas em que o STF tem se envolvido recentemente são muito sensíveis para os conservadores: união homoafetiva, criminalização da homofobia, aborto em certas circunstâncias, nome social. A sensação que esses grupos têm, a narrativa deles é que determinados grupos, como gays, mulheres, pessoas trans, estariam tendo, não é nem direitos, mas privilégios, enquanto o cidadão comum está exposto à violência. Os conservadores acreditam que isso ocorreu porque o STF é formado por indicações políticas e que o PT fez indicações ideológicas, comunistas.

CC: Como a esquerda deveria lidar com esses grupos, na sua opinião? Como dialogar?

IOK: Tentar estabelecer diálogo é parte do processo democrático, é bem-vindo. Mas nós temos assistido reiteradamente posições que são uma afronta ao Estado Democrático de Direito. Então, não se trata mais de uma questão de diálogo, mas sim de cobrar das autoridades competentes que as instituições (STF, PGR, Congresso) consigam dar conta disso. Estamos vendo o avanço de determinadas linhas que a gente não pode aceitar como sociedade. Nós já passamos do limite de naturalizar coisas que não podem ser naturalizadas. A verdade é que como sociedade a gente está cada vez mais anestesiado diante de coisas intoleráveis. Precisamos pensar em como sair dessa situação.

CC: Sim, mas eu me referia em como o campo progressista pode tentar conquistar corações e mentes desses grupos em eleições, por exemplo.

IOK: Tem que pensar em formas de se comunicar para mostrar que quando há uma violação de direitos, de determinadas garantias, a ameaça é para todos. Por que algumas pessoas aceitam o que para nós é intolerável? Porque sentem que não vão ser afetadas. É bem complicada a ideia de que existem pessoas que por agirem “corretamente” não vão sofrer nenhuma violência do Estado e de que quem vai sofrer é entre aspas quem merece. Veja-se um exemplo: há apoiadores do projeto do Bolsonaro sendo chamados de comunistas (aconteceu com o deputado direitista Kim Kataguiri, do MBL). Não se trata mais de uma oposição entre esquerda e direita, é a vida das pessoas que começa a ficar em risco.

CC: A esquerda parece achar que suas causas são autoexplicativas, que basta se definir como progressista. Ela precisa se explicar melhor?

IOK: Não sei… Sabe uma coisa que me chama a atenção? Tenho visto que não se trata mais de um debate sobre ser de direita ou de esquerda, mas de marco civilizatório. Você não deseja a morte do seu adversário político. É uma questão que transcende o jogo político-partidário, é sobre viver em sociedade. Não é aceitável desejar a morte do adversário político. É uma questão básica de direitos humanos. O campo progressista defende pautas que parecem ser exclusivas de esquerda, mas que não são, são de direitos humanos. Alguns organismos internacionais defendem as mesmas pautas.

CC: Os radicais de direita acham que direitos humanos é para defender bandido. A esquerda precisa explicar melhor isso também, não?

IOK: Talvez o campo progressista tenha que entender, eu defendo essa tese, que esses grupos não são contra os direitos humanos. Eles não gostam do uso da palavra, mas como conceito, não são contra. Eles são contra é a universalização desses direitos. Querem para si, para atender seus interesses pessoais, não querem é que todo mundo tenha esses direitos. É uma visão seletiva sobre direitos. É uma visão que se você for pensar, do ponto de vista histórico, encontra ecos na nossa história de escravidão, de sociedade segregada em pessoas que têm direitos e pessoas que não são consideradas merecedoras de cidadania, que eram tratadas como coisas, não como pessoas. A sociedade brasileira é violenta, conservadora e tem um histórico de regimes autoritários. A minha geração ainda é muito próxima da ditadura, com pouca experiência de regimes mais democráticos. A gente está falando de uma radicalidade que se tornou visível e passou a ser operacionalizada, mas não é que a sociedade brasileira tenha mudado radicalmente.

CC: Qual é a visão econômica dos apoiadores de Bolsonaro sobre a economia? Eles só olham para si também? Ou pensam no conjunto?

IOK: Aí precisa de um olhar mais estratificado. Diferentes grupos foram afetados de maneiras diferentes. Mas acredito que há uma questão forte. O projeto neoliberal se apresenta como “a” solução para todos os problemas, quando na verdade, na minha interpretação, os problemas só vão se acirrar. Por que as pessoas acabam apoiando a reforma da Previdência? Porque imaginam que se o Brasil não fizer a reforma, vai quebrar. É o que diz a direita. O cálculo do cidadão comum é: se o Brasil quebrar, vai ficar pior do que está agora, e eu quero ter emprego, não quero que fique pior. A direita jogou muito na eleição na comparação de que o Brasil se tornaria uma Venezuela, onde há pessoas saqueando, passando fome. Há uma espécie de mobilização desses receios. É sempre uma imagem catastrófica de que se o Brasil não fizer privatizações, reduzir direitos, diminuir os gastos públicos, vai quebrar. É um caos também criado pela imprensa.

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Repórter correspondente da revista CartaCapital em Brasília

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