Paes volta à prefeitura do Rio entre a austeridade e a retomada dos serviços públicos

Chefe do Executivo falou em 'herança maldita' de Crivella e alertou que não há dinheiro para pagar os salários de dezembro e o 13º

Eduardo Paes, do alto do Cristo Redentor, observa a cidade que comandará. Foto: Reprodução redes sociais

Eduardo Paes, do alto do Cristo Redentor, observa a cidade que comandará. Foto: Reprodução redes sociais

Política

Após assumir como prefeito do Rio de Janeiro na sexta-feira 1º e citar no discurso uma “herança maldita” deixada pelo antecessor, o bispo Marcelo Crivella, o demista Eduardo Paes fez questão de mostrar ao eleitorado a sua disposição: no dia seguinte, às 7 da manhã, postou uma foto nas redes sociais com a mensagem “Bom dia! Vamos trabalhar”! Trabalho não falta.

 

 

Em prisão domiciliar desde o fim do ano passado, acusado de favorecer empresários no esquema apelidado de “QG da Propina”, Crivella entregou uma administração falida e desorganizada ao antecessor, situação que Paes pretende enfrentar com uma ampla aliança e nenhuma polêmica.

O secretariado reflete a intenção de evitar marolas. Entre os 23 nomes, sete vêm da base aliada ou seguem indicação política, além de nove ligados ao DEM ou a partir da escolha pessoal do prefeito. Os demais indicados são técnicos ou funcionários de carreira.

No segundo escalão, a lista conta ainda com Daniela Maia, irmã do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, no comando da Riotur, autarquia da Secretaria de Turismo, e Stephanie Pazuello, filha do atual ministro da Saúde, o general Eduardo Pazuello, que vai assessorar o secretário da área, Daniel Soranz.

O estilo paz e amor estende-se às relações com o governador interino Cláudio Castro, substituto de Wilson Witzel, que enfrenta processo de impeachment e está afastado desde agosto. No plano federal, o novo prefeito quer distância das disputas políticas em torno das vacinas contra o coronavírus. Ao mesmo tempo que não cerra fileiras nas hordas de Jair Bolsonaro nem se alinha aos governadores que reclamam da irresponsabilidade federal no combate à pandemia, proclama a intenção de manter “o diálogo com todos”.

Logo nos primeiros dias após a vitória nas eleições, o prefeito eleito ligou para Bolsonaro. Em dezembro, foi a vez de fechar um acordo com o Instituto Butantan para a aquisição da vacina produzida pela autarquia, fonte de disputas entre Bolsonaro e o paulista João Doria. Sobre a imunização dos fluminenses, Paes costuma afirmar que deseja “a vacina que a Anvisa aprovar”, uma declaração para evitar a polêmica. A prioridade, repete, é garantir a logística e a distribuição do produto na cidade assim que ele estiver disponível. A respeito das medidas sanitárias, defende a retomada imediata das aulas e decidiu pelo fechamento para carros de vias tradicionalmente dedicadas ao lazer durante os fins de semana, medida suspensa durante o mandato de Crivella.

Além de criticar, no discurso de posse, a herança deixada pelo ex-prefeito, cujo partido, o Republicanos, não deve fazer oposição sistemática na Câmara Municipal, Paes­ fez questão de acenar à oposição formada naturalmente por PSOL, PT e PDT, que controlam 11 cadeiras. Em tom conciliatório, afirmou que tinha conhecimento claro do “conjunto de forças políticas” que o fizeram derrotar o ex-prefeito no segundo turno e prometeu não se esquecer desse apoio. Sem número suficiente de parlamentares, a bancada de oposição não conseguiu impedir que Carlo Caiado, do DEM, fosse eleito presidente da Câmara.

“Ele praticamente neutralizou a oposição”, afirma o cientista Paulo Baía, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “A trajetória do Paes é marcada por essa capacidade de atender a interesses políticos de maneira mais tradicional e sóbria do que conseguia o Crivella, por exemplo, o que também se reflete no maior diálogo.” Apesar de o prefeito ter garantido “pressão zero” dos partidos para compor seu secretariado e distribuir a presidência das autarquias, como a Riotur, Baía duvida: “Pode ser que ele não tenha tido uma imposição partidária clara, mas pôde escolher os nomes com as legendas”.

A oposição a Paes, ao menos nos primeiros meses de governo, avalia o cientista político, tende a atuar de maneira pontual, em projetos específicos, entre eles aquele que pretende aumentar a alíquota previdenciária dos servidores públicos de 11% para 14%. O novo secretário da Fazenda, Pedro Paulo, prometeu enviar até fevereiro o projeto de reforma da Previdência municipal.

O ajuste fiscal é um dos pontos de maior tensão no início do mandato. A prefeitura não teve dinheiro para pagar os salários de dezembro e o 13º dos servidores. Ainda no período de transição, Pedro Paulo estimou em 10 bilhões de reais o déficit do município. “A situação é grave”, afirmou ao tomar posse na secretaria. Para evitar ânimos exaltados na primeira semana de governo, Paes fez questão de tranquilizar os servidores e garantiu ser “prioridade absoluta” o pagamento dos salários atrasados.

A política de austeridade e o retorno dos serviços mais básicos da cidade, segundo Baía, serão uma fonte incontornável de atrito. Com um secretariado que não poderá dispor de grandes recursos para seus projetos, como foi o caso de quando Paes administrava a cidade no período de preparação das Olimpíadas, “a grande dificuldade do prefeito será conciliar a concepção da Fazenda com uma execução satisfatória que tire a cidade do abandono”.

Na tentativa de equilibrar os dois pratos, Paes continua com tempo para as saudações via redes sociais, como na segunda-feira 4. Com uma imagem do Cristo Redentor vista pelo para-brisa, o prefeito escreveu: “Bom dia! A luta é grande, mas ele está olhando por nós”! Por ora, só o otimismo não tem limites.

 

Publicado na edição n.º 1139 de CartaCapital, de 13 de janeiro de 2021

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Repórter da revista CartaCapital

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