Política
Pacote de bondades
Em um esforço para melhorar a imagem, Lula faz um sprint final no lançamento de obras e programas de apoio
A campanha presidencial começa só em agosto, com o registro das candidaturas na Justiça e o início da propaganda eleitoral, mas a pré-campanha entra em nova fase. De 4 de julho em diante, exatos três meses antes de os brasileiros irem às urnas, os postulantes à reeleição ficam proibidos de inaugurar obras, contratar servidores ou fazer publicidade dos atos de gestão. Daí o presidente Lula ter se empenhado nos últimos dias nos derradeiros anúncios de novas medidas do governo. Agora, terá de combinar o expediente burocrático no Palácio do Planalto com atividades político-partidárias fora da agenda oficial, em particular à noite e nos fins de semana. Com palanques definidos em 24 estados, o petista dedicará parte do tempo a reuniões com candidatos a governador e senador que o apoiam e a gravar vídeos para eles, entre outras.
O que a máquina de publicidade governamental podia fazer pelo ibope de Lula está feito e se o resultado de hoje não é o dos melhores para quem tentará renovar o mandato, está um pouco melhor do que se via há dois ou três meses, tempos de angústia no petismo e sua militância diante das pesquisas. Para sorte do presidente, o principal rival, o senador Flávio Bolsonaro, do PL, vive uma maré de más notícias iniciada com a revelação da intimidade financeira com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do finado Banco Master, engrossada pelo “tarifaço 2” de Donald Trump e, mais recentemente, pela briga em praça pública, ou melhor, em ágora digital com a madrasta Michelle.
Até a largada da propaganda eleitoral na internet, em 15 de agosto, e na tevê, 13 dias depois, caberá ao PT a tarefa de promover o presidente, em especial nas redes sociais. Estas são dominadas pela extrema-direita, razão para o filósofo Marcos Nobre apontar a existência de um “Partido Digital Bolsonarista”, título de um livro recém-lançado por ele e cinco coautores. Na sexta-feira 3, o PL promoveu no Rio de Janeiro um seminário de comunicação com, segundo as palavras do secretário-geral do partido, o senador Rogério Marinho, “grandes nomes da direita, influenciadores e especialistas”. Um encontro para alinhar discursos e reunir arsenal contra Lula e o PT.
Secretário nacional de comunicação do PT, Eden Valadares afirma que por ora nada muda na atuação petista nas redes, o padrão atual será mantido, “até porque ainda não pode pedir voto e a Copa do Mundo tem monopolizado as atenções”. A final da Copa será em 19 de julho, e um dia depois começa o período de convenções partidárias que, até 5 de agosto, definirão os candidatos a presidente. A do PT, em conjunto com legendas aliadas, será em 2 de agosto, em São Paulo, estado escolhido por ser o principal teatro de operações, berço de 21% do eleitorado.
A popularidade do presidente tem melhorado nas últimas semanas
Os próximos 90 dias até o pleito verão um “corpo a corpo” na luta por votos, e aí será possível mostrar à população lá na ponta, no mundo real, as realizações do governo e combater as “narrativas” que circulam nas redes sociais por obra da oposição que contam uma história negativa sobre Lula. É o que diz o secretário-geral do PT, Henrique Fontana. “Essa será a eleição mais importante e desafiadora das nossas vidas e, provavelmente, a mais disputada”, afirma. E por que será mais acirrada do que o duelo de 2022 com Jair Bolsonaro? “Vamos enfrentar uma tentativa de interferência maior por parte dos Estados Unidos. Além disso, as ideias da extrema-direita ganham força com a crise gerada pelo capitalismo financeirizado e predatório, como vimos nas eleições recentes na Colômbia e no Peru.”
De quebra, o canhão financeiro do adversário está mais potente. O fundo público da eleição tem o mesmo tamanho da campanha passada, 4,9 bilhões de reais. Antes, o PT tinha vantagem sobre o PL: levou 503 milhões e os liberais, 288 milhões. Agora, é o contrário: 881 milhões a 615 milhões para o PL. Dificuldades políticas e financeiras somadas explicam o motivo de a futura campanha de Lula ser prioridade total na divisão interna no PT da verba do fundo, conforme um dos vice-presidentes do partido, Jilmar Tatto.
Para Fontana, mesmo com as restrições legais impostas pela legislação eleitoral, “o mais importante é o governo andar cada vez melhor”. A elevação da popularidade governamental é uma tendência durante campanhas. Foi assim com Bolsonaro em 2022. Segundo uma pesquisa Datafolha de junho, 49% desaprovam Lula e 48%, aprovam. No caso do governo, 38% têm uma avaliação negativa, 32% uma positiva e 29% uma regular. Na última semana sem restrições, Lula inaugurou obras, inclusive parciais, na Bahia e no Ceará, e participou, em Brasília, do anúncio da última grande medida oficial de potencial impacto nas urnas, o Desenrola Adimplentes.
O Desenrola é um programa de 2023, e que neste ano ganhou nova versão, destinado a tirar os endividados do sufoco. Propõe-se a facilitar a troca de dívida cara por uma mais barata, de juros mais baixos. Registre-se que parte da explicação para a corda no pescoço dos endividados é do governo, graças ao juro pornográfico do Banco Central, que com Lula saiu de 13,75% ao ano, chegou a 15% e agora está em 14,25%. O Desenrola Adimplentes segue a mesma lógica de substituir dívida pesada por outra menor, mas o público-alvo é diferente, microempreendedores individuais, não pessoas físicas, que ainda não entraram na lista dos caloteiros (essa lista abriga quem está com atrasos acima de três meses). Podem ser renegociados débitos de até 15 mil reais, com juro anual de 26%. As operações devem ser feitas basicamente pelo Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal. As instituições privadas não veem motivo para oferecer a facilidade a devedores que, bem ou mal, têm pagado os empréstimos.
Roupa suja. Michelle é a mais dura oponente de Flávio – Imagem: Mateus Bonomi/Anadolu/AFP
No embalo do Desenrola Adimplentes, o governo botou na praça mais duas iniciativas de alívio creditício. Uma é para quem bancou a faculdade com o Fies, linha de crédito estudantil, pagou em dia três anos desse financiamento e agora possui, ou quer, um empreendimento próprio e precise de capital de giro. O juro é de 11% ao ano. O empréstimo, via bancos públicos sobretudo, será de até 80 mil para pessoas físicas e de até 180 mil para as jurídicas. Neste segundo caso, a empresa precisa ter ao menos um sócio com histórico de bom pagador. A outra iniciativa é para atender trabalhadores de carteira assinada. Estes poderão oferecer o FGTS como garantia em empréstimos do tipo “consignado”, aquele cujas parcelas são descontadas do salário. Por estar diante de uma forma de reaver o dinheiro em caso de calote do devedor, o banco pode baixar o juro dos empréstimos. Ao menos, é a expectativa oficial.
Um dia após o pacote de crédito, o governo lançou o tradicional e anual Plano Safra, de empréstimos subsidiados do Banco do Brasil ao campo. E o que se viu foi o de sempre: um caminhão de dinheiro para um setor que nunca está satisfeito e reclama. O plano tem 610 bilhões de reais, um recorde. São 16 bilhões a mais do que o anterior. O juro será de 9% a 12,5%. Antes, variava de 10% a 14%. Do valor total de crédito, 525 bilhões são para médios e grandes agropecuaristas e 85 bilhões, para a agricultura familiar. A CNA, maior entidade nacional de defesa dos fazendeiros, queria 622 bilhões. A fatia direcionada à turma de grande porte supera o que a confederação pedia (518 bilhões). “O anúncio trouxe poucas informações sobre a efetiva disponibilidade de recursos para os produtores rurais e incorporou instrumentos que tradicionalmente não integram o Plano Safra”, reclamou a entidade.
A bancada ruralista no Congresso, uma espécie de CNA com mandato parlamentar, reverberou as queixas. E criticou a ausência de Lula no anúncio da bolada para os grandes agropecuaristas. O presidente havia viajado ao Paraguai pela manhã, para participar de uma reunião de cúpula do Mercocul, e voltou a Brasília à tarde, a tempo de participar somente do anúncio do plano para a agricultura familiar. A realização de dois eventos distintos é uma marca das gestões petistas. Apesar da chiadeira, a bancada ruralista tenta arrancar do ministro da Fazenda, Dario Durigan, uma linha especial de crédito para produtores que tenham tido perdas causadas por crises climáticas e conflitos geopolíticos.
Lula conta com os percalços do principal adversário, Flávio Bolsonaro
O antipetismo e o conservadorismo do campo empurram-no ao apoio do anti-Lula da vez, mas a fase de Flávio Bolsonaro não é boa. A briga com a madrasta por causa de um vídeo divulgado por ela no fim de junho, a atacar a aliança do senador com Ciro Gomes no Ceará, rendeu novos capítulos. A ex-primeira-dama deixou o comando do PL Mulher, apesar do apelo do presidente do partido, Valdemar Costa Neto, para que a lavação de roupa suja familiar acontecesse entre quatro paredes. Michelle tem espalhado ainda que pode até não concorrer ao Senado pelo Distrito Federal.
Em meio à briga com a madrasta, Flávio tomou café da manhã com mulheres do PL em Brasília. O voto feminino é de novo um pepino para o bolsonarismo, daí o encontro servir de pretexto para fotos e vídeos que virassem notícia. Michelle boicotou o convescote e nada indica que em 15 de julho comparecerá ao lançamento de um plano de governo do enteado para as mulheres. Para piorar, um aliado do clã, Paulo Figueiredo, neto de general-ditador brasileiro e há tempos residente nos Estados Unidos para não prestar contas à Justiça brasileira, comentou nas redes sociais que “mulher vota estatisticamente muito mal”, principalmente “as solteiras”.
As mulheres compõem a maioria do eleitorado, 53% dos 158 milhões de votantes, 9 milhões a mais que os homens. São mais antipáticas ao bolsonarismo e simpáticas ao lulismo. A diferença nas preferências delas e deles é uma das formas de enxergar o favoritismo do presidente nas pesquisas. Entre as mulheres, Lula ganha de 44% a 26% de Flávio no primeiro turno e de 52% a 37% no segundo, segundo o Datafolha de junho. Como o “zero um” de Jair vai virar esse jogo é um mistério. •
Publicado na edição n° 1420 de CartaCapital, em 08 de julho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Pacote de bondades’
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