Os rolos que fazem de Ricardo Barros, líder do governo, o alvo central da CPI da Covid

O deputado sempre esteve sob a proteção de Bolsonaro

Teriam o ex-capitão 
e o líder do governo na Câmara razões para rir?.(FOTO: Alan Santos/PR)

Teriam o ex-capitão e o líder do governo na Câmara razões para rir?.(FOTO: Alan Santos/PR)

Política

O senador Ciro Nogueira, presidente do PP e integrante da CPI da Covid, foi a Barcelona nos últimos dias em uma comitiva do tipo “trem da alegria” montada pelo ministro das Comunicações, Fábio Faria. Nos estertores do governo Dilma Rousseff, em 2016, Nogueira negociava com ela de manhã e à tarde tramava com o vice Michel Temer. Um de seus pedidos para o PP votar contra o impeachment era nomear o deputado Ricardo Barros ministro da Saúde, conta o petista Ricardo Berzoini, chefe da negociação política da Presidência naquela época. A Saúde é um paraíso para a fisiologia do “Centrão”, do qual o PP é expoente, dona do maior orçamento federal (118 bilhões de reais em 2016, 144 bilhões em 2021). Dilma não topou a proposta. Temer, sim.

Barros comandou a Saúde de maio de 2016 a abril de 2018, quando saiu para tentar se reeleger deputado pelo Paraná e ajudar a esposa, Cida Borghetti, do PP, a continuar no governo estadual, ocupado por ela interinamente de abril a dezembro daquele ano. Na campanha de 2014, declarou à Justiça Eleitoral bens de 1,8 milhões de reais, pouco menos que na disputa anterior, 1,9 milhões em 2010. Após ser ministro da Saúde, seu patrimônio engordou, numericamente, para 5,5 milhões em 2018. Hoje em dia, ele diz ter “omitido” 1,9 milhão em dívida, daí que seus bens na época seriam de 3,5 milhões. A descoberta de que ele girou, através de suas empresas, uma quantia milionária de origem desconhecida levou a Receita Federal a autuá-lo em 14 milhões em 2020. Autuação que Barros diz ser obra de “ativismo político” do Fisco, mas caiu à metade, em razão de suas explicações.

(FOTO: Anderson Riedel/PR)

Vitorioso Jair Bolsonaro com um discurso contra a “velha política”, o reeleito Barros comentou no fim de 2018, em uma rodinha de deputados na Câmara, que o PP ficaria na arquibancada a olhar o novo governo, à espera de o ex-capitão refundá-lo e chamar os profissionais. Bolsonaro casou-se com os profissionais do Centrão em 2020 e, em agosto, escalou Barros para ser seu líder na Câmara. Um nome que lhe surgiu à cabeça em 20 de março de 2021, quando os irmãos Luis Miranda, deputado, e Luis Ricardo Fernandes, servidor da Saúde, foram ao Palácio da Alvorada narrar fatos nebulosos por trás de um contrato bilionário de compra de vacina. “É mais um rolo desse Ricardo Barros”, reagiu o presidente, segundo Miranda disse à CPI da Covid, em 25 de junho.

Ferreira dias, diretor de logística do ministério da saúde, acusado de solicitar propina, acabou demitido

O homem do rolo tornou-se personagem central nas investigações, alvo de um cerco da comissão, em meio a histórias que se avolumam sobre propina em negociações de compra de vacina anti-Covid. Foi convocado a depor, testemunho que senadores da CPI apostam que será como Barros: arrogante e desafiador. Os “rolos” dele forçaram o governo a suspender o acordo de 1,6 bilhão de dólares por 20 milhões de doses da Covaxin, selado em fevereiro com o laboratório indiano Bharat Biotech, e a demitir da chefia do Departamento de Logística da Saúde alguém vinculado a Barros, Roberto Ferreira Dias. Rolos que parecem ter melado a entrada de uma empresa cujos donos são ligados a Barros, a Belcher, em um contrato, ainda em negociação, de 5,2 bilhões de dólares por 60 milhões de imunizantes Convidecia, da chinesa CanSino.

 

O acordo recém-suspenso tinha um atravessador, Francisco Maximiano, dono da Precisa. Ele iria à CPI na quinta-feira 1o, mas a comissão desistiu de ouvi-lo. Na véspera, Maximiano conseguira um habeas corpus do Supremo Tribunal Federal, concedido pela juíza Rosa Weber, e é provável que ficasse quieto, como ocorreu no dia do HC com o empresário Carlos Wizard, o do “gabinete paralelo”. Maximiano tinha dado o cano na CPI na semana anterior. Seus sigilos bancário, fiscal e comunicacional foram quebrados pela comissão, ele tentou reverter no Supremo a decisão, mas aí dona Rosa negou. Em despacho, a togada anotou que existem “graves suspeitas” sobre “negociações pouco transparentes” relativas a uma “vacina ainda não respaldada por estudos científicos consistentes” e com “custo substancialmente inferior” ao “de imunizante de eficácia comprovada”, o da Pfizer, objeto de jogo duro por parte do governo.

O falastrão Carlos Wizard ficou mudo na CPI… (FOTO: Pedro França/Ag.Senado)

Maximiano possui outra empresa, a Global Saúde, que é processada em ação na qual Barros é réu por improbidade. A acusação, de dezembro de 2018, refere-se a um negócio de 19,9 milhões do tempo em que o deputado era ministro. Para driblar o silêncio do empresário, os membros da CPI contavam com um cidadão que os procurou nos bastidores, Danilo Berndt Trento, que afirma ser uma espécie de sócio de Maximiano e logo irá à comissão testemunhar.

]Ele tem uma holding, a Primarcial, sediada no mesmo prédio em São Paulo (na Avenida Faria Lima, 3.144) de outra firma de Maximiano, a Primares. Trento relatou informalmente à CPI ter viajado à Índia, com o dono da Precisa, para negociar a Covaxin. A dupla teria estado lá no mesmo dia, 8 de janeiro, da carta de Bolsonaro ao primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, que indicava o interesse brasileiro no imunizante da Bharat. Este custou 4,1 dólares por dose ao governo de lá e 15 dólares ao daqui. Comparação: o da Pfizer custou-nos 10 dólares no primeiro lote de 100 milhões de unidades e 12 dólares, no segundo.

Os rolos de barros forçaram o governo a suspender o acordo de US$ 1,6 bilhão por 20 milhões de doses da covaxin

O acordo da Covaxin foi fechado pelo Ministério da Saúde em 25 de fevereiro. Naquele dia, o PM mineiro Luiz Paulo Dominguetti Pereira jantou em um restaurante de Brasília, o Vasto. Estava em companhia de Roberto Dias, então diretor de Logística da Saúde, e com o coronel Marcelo Blanco da Costa, até 18 de janeiro substituto de Dias, cargos subordinados ao então secretário-executivo do ministério, o coronel Élcio Franco. Pereira sustenta ter ido como representante de uma firma americana, a Davati Medical Supply, interessada em vender 400 milhões de vacinas AstraZêneca ao Brasil, proposta feita ao governo em 1o de março e nunca respondida. “O caminho do que aconteceu nesses bastidores com o Roberto Dias foi uma coisa muito tenebrosa, muito asquerosa”, disse Pereira à Folha de 29 de junho, dia em que a Davati divulgou um comunicado a negar que Pereira fosse seu representante no Brasil.

Resumo da ópera tenebrosa: Dias teria dito que, para vender imunizantes ao governo, só com propina de 1 dólar por dose. Pereira confirmou a história à CPI na quinta-feira 1o, dia da conclusão desta reportagem. “O pedido dessa majoração (de 1 dólar a mais) foi feito pelo Roberto Dias.” Para provar o jantar, a comissão requisitou ao Vasto e ao shopping do restaurante imagens das câmeras de segurança. Foi um depoimento estranho, o do PM mineiro. Ele contou que, antes do jantar, tinha ido três vezes ao Ministério da Saúde em nome da Davati, por delegação do representante oficial da firma no Brasil, Cristiano Alberto Carvalho. Sua entrevista à Folha derrubou Dias do cargo e levou o governo a formalizar o desligamento de Blanco como substituto de Dias, embora o coronel estivesse fora da pasta desde 18 de janeiro. Mas, de alguma forma, Pereira complicou também Luis Miranda. Mostrou um áudio, que lhe teria sido dado por Carvalho, no qual o deputado dá a entender que negociava vacinas.

Blanco também foi chamado a depor. Dúvida na CPI: o coronel abriu uma consultoria em 22 de fevereiro, a Valorem, para atuar como lobista e canal de propina a militares envolvidos em negócios com vacinas?

…e com o aval da ministra Rosa Weber, a qual concedeu o mesmo benefício a Maximiano, dono da Precisa. (FOTO: Acervo/STF)

Dias está com depoimento na CPI marcado para a quarta-feira 7, véspera do de Ricardo Barros, com quem tem elos paranaenses. O agora ex-chefe da Logística na Saúde foi apontado ao Ministério Público Federal, pelo servidor Luís Ricardo Fernandes, como alguém que fez pressão inusual para o contrato da Covaxin começar a ser executado, relato repetido à CPI em 25 de junho. Um dos estranhamentos narrados por Fernandes foi uma nota fiscal de 19 de março, emitida por uma firma, a Madison Biotech, sediada em Cingapura, que cobrava 45 milhões de dólares antecipados por um lote inicial de Covaxin. A Madison seria um canal para distribuir propina a quem ajudou o acordo a sair? É uma das desconfianças de membros da CPI.

A nota fiscal foi a gota d’água que levou Fernandes e Luis Miranda a Bolsonaro, em 20 de março, para relatarem que algo cheirava mal no contrato da Covaxin. Onze dias depois da conversa no Alvorada, que os irmãos insinuam que pode ter sido gravada, Miranda foi à mansão, em Brasília, de um lobista descrito como alguém metido em enredos picantes no submundo da capital brasileira. O lobista é Silvio Assis, preso em 2018 pela Polícia Federal na operação Registro Espúrio, que desbaratou um esquema de venda de registros sindicais no Ministério do Trabalho. Na ocasião, Assis teria sondado Miranda sobre quanta grana ele queria para parar de atrapalhar o acordo com Bharat e Precisa. O deputado voltaria à casa cerca de um mês depois, e aí Barros estava também. O lobista foi convocado pela CPI. Miranda vai depor de novo à comissão e promete um dossiê “com fatos irrefutáveis” sobre corrupção na Saúde.

A Belcher, de Daniel Feio Ribeiro, filho de Chiquinho Ribeiro, um velho conhecido de Barros, negociou vacinas da CanSino. (FOTO: Redes sociais)

Barros talvez seja a explicação para o fato de Roberto Dias ser, digamos, uma fera conhecida de Bolsonaro desde o ano passado para ser demitido somente agora. Em outubro de 2020, o presidente indicara Dias para a diretoria da Anvisa, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Desistiria uma semana depois. Motivo: a notícia sobre um contrato suspeito de 133 milhões de reais de compra de 10 milhões de testes de Covid-19, selado por Dias. O negócio estava na mira do Tribunal de Contas da União, graças a um informe da Diretoria de Integridade do próprio ministério. Quem teria soprado a Bolsonaro o nome de Dias para a Anvisa? O líder do governo é um bom palpite. E por que o sujeito seguiu no cargo após o contrato de 133 milhões? Ricardo Barros é de novo uma boa aposta. E aqui se abre o capítulo paranaense da nossa história.

Randolfe Rodrigues apresentou no supremo uma queixa-crime contra Bolsonaro, por prevaricação

Dias é funcionário de carreira da Cohapar, a Companhia de Habitação do Paraná. Era gerente por lá em 2015, ano em que Abelardo Lupion, ex-deputado pelo DEM, foi nomeado presidente da estatal. Em 16 de abril de 2018, Lupion deixou a empresa para ser secretário de Infraestrutura do Paraná. Havia sido nomeado por Cida Borghetti, que acabara de assumir o governo estadual como interina. Cida, recorde-se, é esposa de Barros. Em maio deste ano, foi indicada por Bolsonaro para ser conselheira da estatal Itaipu. Em 24 de abril de 2018, Lupion fez de Dias seu assessor direto na secretaria. Com a derrota de Cida na eleição, Dias tornou-se Diretor de Logística do Ministério da Saúde, em janeiro de 2019, nomeado pelo então ministro Luiz Henrique Mandetta, do DEM. Uma indicação abençoada por Lupion e Barros, embora este diga que só o outro é responsável.

Engenheiro de formação, Barros trabalhava, nos anos 1980, numa estatal, a Urbamar, encarregada de obras de urbanização em sua terra natal, Maringá. Foi o trampolim para eleger-se prefeito da cidade em 1988. De cara, Barros botou no comando da companhia um amigo, Francisco Feio Ribeiro Filho. Em 2011, a família de Chiquinho Ribeiro, como o hoje rico empresário é conhecido, fundou uma firma de negócios farmacêuticos, a Interlogic, rebatizada de Belcher em março de 2020. Os sócios da Belcher são Daniel Moleirinho Ribeiro, filho de Chiquinho, e Emanuel Ramalho Catori. Alguns meses após a troca de nome, a Belcher foi pega numa operação da Polícia Federal, a Falso Negativo, sobre bandalheiras na compra de testes de Covid pelo governo do Distrito Federal. Teria topado participar de processos seletivos de mentira, para ajudar a dar aparência de legalidade à coisa.

Na CPI, Dominguetti tentou implicar os irmãos Miranda. (FOTO: Pedro França/Ag. Senado)

A Belcher entrou na mira da CPI. Catori foi convocado a depor, enquanto a empresa e o Ministério da Saúde terão de enviar informações sobre as negociações de um contrato, ainda não assinado, de 5,2 bilhões de dólares por 60 milhões de vacinas Convidecia. A Belcher representava o fabricante do imunizante, a chinesa CanSino, nas tratativas. De olho nas bilionárias importações à vista, foi à Justiça em 1o de fevereiro, com um mandado de segurança para obrigar a Receita Federal a autorizá-la a importar acima de 150 mil dólares por semestre. Uma semana depois, conseguia uma liminar do juiz Augusto César Pansini Gonçalves, da 6a Vara de Curitiba. Em 30 de abril, houve uma reunião na Anvisa sobre o imunizante da CanSino e um dos presentes era Flávio Pansieri, advogado de Ricardo Barros na ação em que o deputado é réu por improbidade.

Em 4 de junho, o secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Arnaldo Correia de Medeiros, distribuiu internamente um ofício sobre a assinatura de uma carta de intenções de comprar da Belcher 60 milhões de doses de Convidecia, por 17 dólares cada. Detalhe: Medeiros é um apadrinhado do Centrão, está no cargo há um ano por indicação do líder do PL na Câmara, Wellington Roberto, da Paraíba. A CPI tem informações de que o pedido feito à Anvisa de autorização emergencial para a Convidecia partiu da Belcher e dos empresários Carlos Wizard, que é do Paraná, e Luciano Hang, catarinense, dupla de bilionários bolsonaristas que no início do ano batalhava em Brasília pelo fura-fila da vacina, aquela permissão para companhias privadas poderem adquirir injeções e aplicá-las nos funcionários. Munido de um habeas corpus concedido por Luís Roberto Barroso, do Supremo, Wizard calou-se na CPI ao ser questionado sobre a relação com a Belcher.

Ricardo Barros promete ser falante na comissão ao depor na quinta-feira 8. Ele nega ter sido citado por Bolsonaro e ter participado das negociações do contrato da Covaxin, as quais são investigadas pelo Ministério Público Federal. “Sobre a minha defesa pública em favor de mais agilidade por parte da Anvisa e da oferta de imunizantes e produtos para o combate à Covid-19, além da minha obrigação como ex-ministro da Saúde, sou presidente da Frente Parlamentar da Indústria Pública de Medicamentos desde 2015”, tuitou o deputado.

Cida Borghetti está metida nos rolos do marido. (FOTO: Redes sociais)

Como líder da Frente, Barros, segundo relatos, fez muita pressão em 2020 para a Saúde não mudar uma decisão estranha dele do tempo de ministro. Com uma portaria de setembro de 2017, ele quis levar adiante uma Política de Desenvolvimento Produtivo, as chamadas PDPs, que definia, inclusive com porcentuais, quais empresas ganhariam verbas federais para fabricar aqui remédios complexos e importados. A divisão não foi submetida a nenhum dos órgãos colegiados de dentro do governo, a quem caberia aprovar cada PDP. Em 2018, o Tribunal de Contas da União mandou à Saúde uma PDP em particular. No caso em questão, a Tecpar, órgão público do Paraná, levaria uma grana para produzir o Trastuzumabe, da Roche, que previne câncer de mama. O custo final do remédio após a parceria seria, porém, maior do que importá-lo. Esse episódio levou a um reexame geral da portaria de 2017, processo que só agora começa a vingar, apesar da pressão de Barros.

Foi para acobertar os rolos de seu líder no capítulo vacinas que Bolsonaro não teria feito nada ao ouvir a denúncia de corrupção dos irmãos Miranda em 20 de março?

O vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues, apresentou queixa-crime ao Supremo contra o presidente, por prevaricação, ilícito que consiste, por exemplo, na omissão de um agente público diante de uma denúncia de corrupção. Outros senadores da comissão discordaram da iniciativa neste momento. O relator da CPI, Renan Calheiros, acha, por exemplo, que há mais do que prevaricação contra Bolsonaro: crime de responsabilidade também. Além disso, a investigação da prevaricação será feita, se houver, pelo procurador-geral da República, Augusto Aras, a quem a juíza Rosa Weber encaminhou a queixa. E Aras, sabemos, está doido para ser indicado por Bolsonaro ao Supremo nos próximos dias.

Publicado na edição nº 1164 de CartaCapital, em 1º de julho de 2021.
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Repórter correspondente da revista CartaCapital em Brasília

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