Política
Os limites da hegemonia
O Nordeste presidencial lulista divide espaço com uma organização estadual independente
Por Luciana Santana*
O Nordeste chega à eleição de 2026 ocupando novamente uma posição central na estratégia eleitoral de Lula. As pesquisas mais recentes mostram Lula mantendo ampla vantagem sobre Flávio Bolsonaro nos nove estados. Quando descemos para as eleições estaduais, entretanto, encontramos outro mapa: disputas apertadas, governos ameaçados, prefeitos e ex-prefeitos competitivos, coalizões ideologicamente heterogêneas e eleitores que parecem distinguir cada vez mais a escolha presidencial da escolha para governador.
Isso não significa que o Nordeste esteja simplesmente migrando para a direita. A mudança é mais complexa. O que está ocorrendo é uma crescente autonomia das disputas estaduais em relação à polarização nacional. Em vários estados, a principal ameaça aos candidatos apoiados por Lula não vem de um bolsonarismo orgânico, mas de lideranças locais com capital político próprio, máquinas municipais fortes e capacidade de construir coalizões que atravessam as fronteiras entre esquerda, centro e direita.
A nova rodada de pesquisas ajuda a enxergar esse processo. O Piauí continua sendo a exceção mais importante. Rafael Fonteles mantém ampla vantagem, mostrando um caso em que lulismo, PT, governo estadual e capilaridade municipal continuam praticamente sobrepostos.
Bahia e Ceará apresentam problemas diferentes. Na Bahia, depois de quase 20 anos de governos petistas, Jerônimo Rodrigues enfrenta novamente ACM Neto em uma disputa competitiva. A força de Lula permanece enorme no estado, mas já não elimina o desgaste acumulado de uma longa permanência no poder.
No Ceará, o desafio é ainda mais revelador. Ciro Gomes aparece à frente de Elmano de Freitas em diferentes levantamentos. Mas seria incorreto interpretar o fenômeno simplesmente como crescimento da direita. Ciro construiu sua trajetória no campo da centro-esquerda, foi ministro de Lula e adversário de Jair Bolsonaro. Sua candidatura reúne hoje setores distintos em torno de uma liderança política com capital próprio.
Em vários estados, a principal ameaça aos candidatos de Lula vem de lideranças locais com capital político próprio
Pernambuco oferece outro exemplo da autonomia da política estadual. João Campos tenta converter a enorme força conquistada no Recife em maioria estadual, enquanto Raquel Lyra dispõe da máquina do governo e ampliou suas alianças no interior. A disputa coloca frente a frente duas estruturas territoriais relevantes. Lula pode ajudar João Campos, mas dificilmente substituirá presença municipal, alianças locais e capacidade de chegar ao eleitor para além da Região Metropolitana. É um padrão que aparece também em Alagoas. Renan Filho e JHC estão tecnicamente empatados. Renan reúne o apoio de Lula, do governador Paulo Dantas e de uma extensa rede de prefeitos. JHC tenta fazer o caminho inverso: transformar a força construída em Maceió em uma candidatura estadual competitiva. Mais do que esquerda contra direita, a eleição contrapõe duas formas de territorialização do poder, uma coalizão estadual fortemente interiorizada e uma liderança municipal que precisa avançar.
No Rio Grande do Norte, a nacionalização da disputa é testada de maneira ainda mais explícita. Cadu Xavier adotou eleitoralmente o nome “Cadu de Lula” e procura associar sua candidatura diretamente ao presidente. A estratégia começou a produzir resultados: a Quaest divulgada em agosto mostrou Allyson Bezerra com 25%, Cadu com 21% e Álvaro Dias com 19%, com empate técnico entre os três.
Maranhão e Paraíba acrescentam outra dimensão ao fenômeno. No Maranhão, Eduardo Braide lidera com folga em meio à fragmentação da coalizão que sucedeu ao domínio do grupo Sarney. Na Paraíba, a competição permanece aberta e diferentes candidaturas disputam, inclusive, a possibilidade de associação com Lula. Em ambos os casos, as alianças estaduais desafiam classificações ideológicas rígidas. Sergipe completa esse mosaico. Depois de meses de maior equilíbrio, pesquisas recentes passaram a indicar vantagem de Fábio Mitidieri. Mas também ali a disputa principal não reproduz PT contra bolsonarismo. PSD e Republicanos protagonizam uma competição organizada a partir da política estadual.
Com os nove estados lado a lado aparece um fenômeno mais relevante do que simplesmente contar quantos governadores de esquerda ou direita poderão ser eleitos. O primeiro elemento é a força de lideranças municipais. JHC em Alagoas, João Campos em Pernambuco, Allyson Bezerra no Rio Grande do Norte, Eduardo Braide no Maranhão e Cícero Lucena na Paraíba representam, com diferenças importantes entre si, trajetórias nas quais a prefeitura funciona como plataforma para a disputa estadual. O segundo é a permanência da importância das redes municipais, principalmente contemplando o interior dos estados. Prefeitos, ex-prefeitos, deputados e lideranças locais ajudam a organizar campanhas, construir palanques e conectar candidatos aos municípios. A popularidade presidencial importa, mas não substitui essa estrutura. O terceiro elemento é a própria heterogeneidade partidária. MDB, PSD, PSB, PSDB, União Brasil, Republicanos e PP aparecem em diferentes posições dependendo do estado. Um partido pode estar próximo de Lula em uma unidade da Federação e enfrentar seu candidato em outra. Por isso, uma eventual redução do número de governos estaduais controlados pelo PT ou por seus aliados não deveria ser interpretada automaticamente como uma onda conservadora no Nordeste.
As pesquisas sugerem algo diferente: existe um Nordeste presidencial, fortemente lulista, e existe um Nordeste estadual muito mais plural, no qual avaliação de governos, lideranças municipais, máquinas políticas, coalizões locais e trajetórias pessoais dos candidatos ganham peso próprio. A eleição de 2026 poderá mostrar, portanto, não o fim da hegemonia eleitoral de Lula no Nordeste, mas seus limites. •
*Professora da Universidade Federal de Alagoas. O projeto Observatório das Eleições 2026 é uma iniciativa do professor titular aposentado Leonardo Avritzer, sob a coordenação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e do Instituto de Estudos sobre Política e Integridade Eleitoral (Iepi). O Observatório tem o objetivo de monitorar grandes questões e elementos relativos às eleições, de modo mais geral, e aos processos eleitorais especificamente. A iniciativa contempla destacada produção acadêmica e jornalística desde 2018, tendo tido diversos parceiros, tanto no campo do financiamento quanto no da divulgação.
Publicado na edição n° 1428 de CartaCapital, em 02 de setembro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Os limites da hegemonia’
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