Os bastidores, desafios e intenções do retorno de Lula ao Nordeste

O PT deve lançar candidatos nos estados que governa – Piauí, Bahia e Rio Grande do Norte – e em Sergipe. Nos demais, está aberto a alianças

Em 2006, Lula amealhou 77% dos votos nordestinos. (FOTO: MST Oficial)

Em 2006, Lula amealhou 77% dos votos nordestinos. (FOTO: MST Oficial)

Política

RECIFE — Bastião de resistência ao bolsonarismo, o Nordeste será o principal campo de batalha das eleições do próximo ano. O ex-capitão sabe das dificuldades que enfrenta na região e tem tentado compensar a falta de apoio com uma intensa agenda fake, na qual “inaugura” obras antigas e planejadas pelos antecessores, e uma reformulação mequetrefe do Bolsa Família.

No controle da máquina do Estado, Bolsonaro levava, porém, a vantagem (ou seria desvantagem?) de dar as caras no pedaço com certa frequência, enquanto os adversários diretos andavam recolhidos por causa da pandemia da Covid-19.

O conforto de trafegar sozinho acabou. No domingo 15, Lula iniciou um périplo pelo Nordeste na tentativa de reorganizar as forças progressistas. O ex-presidente escolheu os estados governados pelo PT e pelo PSB. Começou em Pernambuco e passou por Piauí e Maranhão, antes de seguir para o Ceará, Rio Grande do Norte e encerrar o tour na Bahia. Na agenda, reunião com velhos aliados, movimentos sociais e lideranças de partidos que hoje integram a base governista, entre eles PP, Republicanos e PSD.

“Estou com disposição de fazer aliança e acordo político com quem quer que seja, desde que tenha um compromisso: o povo pobre tem de comer de manhã, de tarde e de noite”, discursou no Recife, onde se reuniu com representantes de uma dezena de legendas.

‘Pernambuco tem muito a agradecer’ ao ex-presidente, afirmou o governador Paulo Câmara

Começar a viagem por Pernambuco não se deu por acaso. O principal objetivo de Lula era selar a paz com a família do ex-governador Eduardo Campos, morto em um desastre aéreo em 2014, força poderosa no PSB e em um estado-chave na região. Petistas e pessebistas caminharam unidos em seis eleições presidenciais, até o rompimento em 2014, quando o PSB decidiu apoiar o tucano Aécio Neves no segundo turno contra Dilma Rousseff.

Quatro anos depois, um arranjo negociado de última hora, em vez de aplacar, aumentou as feridas em ambos os lados. Após uma costura articulada por Lula da prisão, os pessebistas desistiram de apoiar Ciro Gomes e declararam neutralidade na disputa. Em troca, os petistas fizeram campanha pela reeleição de Paulo Câmara ao governo estadual, contra o desejo da militância, que preferia apostar na candidatura da ­deputada federal Marília Arraes, ovelha desgarrada do clã Campos.

As frustrações daquele acordo ficaram adormecidas no inconsciente até a eleição municipal de 2020. Marília enfrentou o primo, João Campos, em um segundo turno virulento, marcado por golpes baixos e fake news. A petista perdeu, após liderar as intenções de voto até a última semana, e a derrota, tal como se deu, deixou marcas profundas.

A deferência de Lula à família terá o efeito de unguento? A ver. João Campos, o mais jovem prefeito das capitais, não esconde a adesão à tese da terceira via, por mais inviável que pareça no momento. Câmara, o governador, é mais realista e topa apoiar o ex-presidente, desde que os petistas apoiem os nomes pessebistas ao governo de Pernambuco e do Rio de Janeiro – leia-se Marcelo Freixo. Não deve ser problema. O PT carece de quadros competitivos no Rio e o voto de Marília Arraes a favor do fura-fila da vacina pelas empresas privadas, além da derrota de dois anos atrás, dificulta o lançamento de uma candidatura própria no estado nordestino.

O ex-presidente foi o convidado de honra de um jantar oferecido por Câmara no Palácio do Campo das Princesas no domingo 15. “Pernambuco tem muito a agradecer a Lula por todo o ciclo de desenvolvimento iniciado na gestão dele. Isso está muito vivo na memória dos pernambucanos. Em 2022, precisamos de uma frente ampla do campo progressista para derrotar Bolsonaro e fazer o Brasil voltar a crescer”, afirmou o governador.

A outra escala importante da viagem será no Ceará, onde o governador Camilo Santana se equilibra entre o PT, seu partido, e os irmãos Ciro e Cid Gomes, seus fiadores políticos. Enquanto em Pernambuco as arestas aos poucos são aparadas, à custa do sacrifício de Marília Arraes, no Ceará a maionese desandou. De aliado crítico, Ciro passou a feroz opositor de Lula, a quem compara a Bolsonaro e chama de “maior corruptor da história”. O ex-presidente, líder nas pesquisas, optou estrategicamente por uma postura magnânima e tem estendido, em vão, a mão ao pedetista – o trabalho de responder e atacar Ciro com a mesma virulência fica a cargo de dirigentes e da militância do PT.

“Temos uma aliança com o PDT, não com Ciro. Como Camilo vai tratar, nós vamos discutir na hora certa”, afirma o deputado federal cearense José Guimarães. “É possível uma construção, talvez dois palanques de presidente da República e a preservação de uma aliança local que tem dado certo”, pondera o senador pernambucano Humberto Costa.

O crescimento do bolsonarismo no estado também faz parte das discussões. Na pesquisa de junho do Instituto Paraná, 46,3% dos cearenses votariam em Lula, 19,5% em Bolsonaro e 14,5% em Ciro. Segundo Monalisa Torres, socióloga e professora da Universidade Federal do Ceará, “diante das circunstâncias e na impossibilidade de uma reaproximação de petistas e pedetistas no estado, o governador, que planeja se candidatar ao Senado, terá de escolher entre a lealdade aos irmãos Gomes ou a quem lhe oferece um futuro eleitoral, ou seja, o PT”.

 

Em Pernambuco, Lula fez acenos ao governador Paulo Câmara e ao prefeito de Recife, João Campos. (FOTO: Ricardo Stuckert/Instituto Lula)

Assim como aconteceu em Pernambuco, Lula será recebido em um jantar no Palácio da Abolição, sede do governo cearense. O petista também se reunirá com integrantes do MDB do ex-senador Eunício Oliveira, do PCdoB e do PSOL. E encontrará percalços para amarrar uma aliança tão ampla. “Bolsonaro conseguiu reduzir até o horizonte do campo progressista, levando setores a se aliarem com quem deu o golpe e votou contra a pauta dos trabalhadores. Não existe a possibilidade de o PSOL compor com Eunício Oliveira, até porque esse processo não vai se resolver na eleição. É necessário fazer alianças não só para derrotar Bolsonaro, mas também para revogar as medidas que retiraram direitos dos brasileiros. É preciso ter cuidado com quem se alia”, adianta Ailton Lopes, presidente do PSOL no Ceará.

Em resposta à hegemonia petista na região, Bolsonaro aposta na reformulação do Bolsa Família

É natural que tanto Lula quanto Bolsonaro disputem cada coração e mente no Nordeste. A região concentra 27% do eleitorado. Para o ex-capitão, seria uma vitória reduzir a vantagem do PT, que desde 2002 amealha mais de 60% dos votos do eleitorado nordestino. O ápice deu-se em 2006, na reeleição do próprio Lula: 77%. As pesquisas têm, no entanto, sido desanimadoras para o ex-capitão, por isso a aposta desesperada no Auxílio Brasil, o substituto do Bolsa Família, visto com maus olhos pelo mercado financeiro, que patrocinou a eleição e apoia as insanidades de Bolsonaro no poder.

Para Túlio Velho Barreto, cientista político e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, a estratégia do presidente é driblar os governadores nordestinos, mais alinhados com Lula, e abrir um canal direto com a população beneficiada. “Para conquistar o apoio dos eleitores, Bolsonaro vai ter de convencer que é outro programa, porque está no imaginário a vinculação do Bolsa Família aos governos petistas. Ele tenta fazer parecer que o programa é federal, que não tem vinculação com os estados, mas não há como não passar pelo poder local, pelos municípios. Ele vai tentar driblar a influência dos governadores.” Durante a viagem, Lula criticou o adversário: “Mudar de nome é uma coisa pequena. Eu jamais vou falar contra qualquer melhora na qualidade de vida do povo. O que vai acontecer, e a grande lição que ele vai aprender, é que o povo vai receber e vai votar contra ele, porque não é possível brincar com a pobreza.”

No Ceará, a costura é mais difícil. Camilo Santana é do PT, mas sempre foi ligado a Ciro Gomes. (FOTO: Gabriela Biló/Estadão Conteúdo)

As investidas de Bolsonaro vão além do Auxílio Brasil. Só neste ano ele visitou Pernambuco, Alagoas, Rio Grande do Norte, Maranhão e Ceará para inaugurar obras de infraestrutura, a maioria iniciada em governos petistas. Ministros bolsonaristas sonham com as cadeiras de governadores e tentam montar palanques para o ex-capitão nos estados. Além de Ciro Nogueira no Piauí, podem disputar Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional) ou Fábio Faria (Comunicações), no Rio Grande do Norte, João Roma (Cidadania), na Bahia, e Marcelo Queiroga (Saúde), na Paraíba. No Ceará, além do Capitão Wagner, que conta com o recall de eleições recentes, fala-se nas pretensões do senador Eduardo Girão (Podemos), denodado defensor do governo na CPI da Covid.

O PT deverá lançar candidatos nos estados que governa – Piauí, Bahia e Rio Grande do Norte – e em Sergipe. Nos demais, está aberto a alianças que garantam o apoio a Lula e indicações para a chapa majoritária, seja para senador, seja para vice-governador. Impossibilitado pelo distanciamento social de reunir multidões nas ruas, o ex-presidente concentrou-se nos convescotes palacianos, nas conversas ao pé do ouvido, em visitas pontuais a lideranças sociais e nas inúmeras entrevistas à mídia local. Está longe de ser uma caravana, mas é um primeiro passo. A sorte está lançada.

Publicado na edição nº 1171 de CartaCapital, em 19 de agosto de 2021.

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Repórter correspondente de CartaCapital em Pernambuco

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