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Os 50 tons de Jair Bolsonaro no segundo turno

Política

Na terça-feira 9, Jair Bolsonaro usou seu palanque favorito para tentar se dissociar da escalada de violência de seus eleitores contra adversários. Em seu Twitter, avisou que dispensa os votos dos agressores e assassinos dos últimos dias. Pediu a “este tipo de gente” que vote nulo ou “na oposição por coerência”.

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Na sequência, Bolsonaro logo assume sua persona mais conhecida. Diz haver um “movimento orquestrado para prejudicar nossa campanha nos ligando ao Nazismo”. Referia-se, provavelmente, à jovem que teve uma suástica entalhada em seu corpo em Porto Alegre por um grupo de apoiadores do presidenciável, segundo relato à Polícia Civil. Em vez de condenar o caso, preferiu defender-se por meio de sua estratégia mais conhecida, a de acusar o outro lado de “fake news”.

Nem o Datafolha, que o colocou com 58% dos votos válidos na pesquisa divulgada na quarta-feira 10, escapa de seus ataques. Ao lado de Luciano Hang, dono da Havan e um de seus apoiadores mais próximos, disse em vídeo que “estão acertando as pesquisas com uma possível fraude”. Referia-se ao levantamento do Ideia Big Data, que o colocou com 54%. O vídeo, no entanto, chama-se “Datafoice prepara pesquisas para possível fraude”.

Neste segundo turno, Bolsonaro tem buscado agradar a gregos e troianos. À grande mídia e à opinião pública mais tradicional, tenta mostrar uma postura mais assertiva contra a violência. No mesmo dia, ataca Fernando Haddad, do PT, abaixo da linha da cintura: “Calma que sua hora vai chegar, marmita de corrupto preso.”

Aos seus seguidores, continua alimentando teorias conspiratórias de fraudes das urnas apesar de sua expressiva vitória no primeiro turno. Ao Nordeste, onde perdeu para Haddad, promete um “super Bolsa Família”, inflado com 49 bilhões que serão incorporados ao programa por meio de cancelamento de incentivos tributários para empresas. Discurso diametralmente oposto ao de suas declarações após o primeiro turno, quando prometeu aos empresários “desonerar a folha de pagamento” e tirar o “Estado do cangote de quem produz”.

Os 50 tons de Bolsonaro são amplificados por sua ausência em debates com o seu adversário. Ao não se reunir em uma mesma arena com seu competidor, o candidato não mostra seu pacote completo, ou pelo menos aquela parte que pretende privilegiar mais. Distribui benesses retóricas a todos os tipos de público, como se fosse simples, por exemplo, desonerar e reonerar o empresário ao mesmo tempo, ou criticar a violência e chamar o concorrente de “canalha”.

A fragmentação de propostas contraditórias auxilia Bolsonaro, por isso sua ida a debates não é prioridade. Pelo contrário, pode até ser prejudicial. Não à toa Haddad diz que “vai até a enfermaria” para discutir o País com o candidato do PSL. A maior chance que o petista tem nestas eleições é mostrar as imensas contradições da campanha de seu adversário. A de Bolsonaro, pelo contrário, é preservar essas mesmas contradições sem que seu adversário tenha sucesso em apontá-las. 

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