Os 3 grandes debates da corrida eleitoral de 2022, segundo economistas

Especialistas projetam retomada econômica pós-pandemia, mas sem melhora do desemprego e da pobreza. O que fará Bolsonaro?

O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Alan Santos/PR

O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Alan Santos/PR

Economia,Política

A corrida eleitoral de 2022 que vem não terá como temas principais pandemia, inflação ou recessão. Os focos do debate serão, na verdade, o desemprego e a pobreza e a renda. É o que antevê o economista Armando Castelar, pesquisa do Instituto Brasileiro de Economia, o Ibre, da Fundação Getúlio Vargas. Diante desse cenário, o presidente Jair Bolsonaro deve, aposta ele, “vir com tudo, em termos de Bolsa Família, transferência de renda, de gasto social”, aproveitando a folga que a inflação lhe dará no limite do Teto de Gastos.

Vacinação e retomada da atividade econômica caminham juntas. Quanto mais rápida o ritmo da primeira, melhor se recupera a será a segunda. Castelar prevê que, até o fim do ano, a economia brasileira estará muito perto da normalidade considerando — conforme promete o Ministério da Saúde — que 9 em cada 10 adultos brasileiros estejam vacinados na virada do terceiro para o quarto trimestre. 

“Se a vacinação avançar, a eleição vai ser feita com a pandemia no retrovisor; não vai estar tão presente como nas eleições americanas e nas eleições peruanas. O que aconteceu no Peru, agora, vai estar muito presente na cabeça do governo”, disse Castelar, lembrando que as informações sobre a situação fiscal estão surpreendendo e levando a significativas reduções das expectativas de déficit. “Em 2022, será mais fácil o governo cumprir a regra do Teto de Gastos.”

“Porque a inflação que vai corrigir o teto é 12 meses até junho, que provavelmente vai estar girando acima de 8%”, explicou ele, que participou do II Seminário de Análise Conjuntural IBRE FGV. “Esperamos que a inflação no fechar do ano esteja em torno de 6%, ou um pouco menos, então vai gerar uma folga no ano que vem.”

A coordenadora do Boletim Macro da FGV Silvia Matos concordou com Castelar. “Com a taxa de desemprego continuando alta no ano que vem, vai ter pressão por mais despesas”, endossou. “Mesmo com esse balanço de riscos no curto prazo, de um fiscal mais positivo, acho que a situação está longe de ser confortável.” Os segmentos menos qualificados e menos escolarizados estão sendo os mais penalizados. E muito provavelmente serão os últimos a se recuperar — se e quando a vacinação efetivamente prosseguir, em tese, sem contratempos.

De qualquer forma, atravessar um ano eleitoral com inflação comendo a já parca renda da maioria do eleitorado é má ideia. Logo, será importante fazer o Banco Central “desaparecer de cena alguns meses antes, seis meses antes” da votação.

 

O ‘pombo’ banco central

Assim, o ajuste na taxa básica de juros, a Selic, para controlar a inflação terá que ser feito antes, o que leva Castelar e e o economista José Júlio Senna, o coordenador do Centro de Estudos Monetário do IBRE, a projetarem mais duas subidas de 0,75 de ponto percentual na reunião do Copom da próxima semana e outro na reunião de agosto, seguidos de três ajustes de meio ponto percentual cada nas reuniões seguintes do Comitê, a fim de a Selic encerrar o ano em 6,5%. 

Em suma, o BC brasileiro não tem espaço para ser “pombo”, ou seja, mais brando no controle da inflação, como o BC norte-americano, Fed. “Todo o Fed hoje é dove”, frisou Senna. O motivo, ele entende que sejam perspectivas de que a inflação americana tende a se atenuar – apesar de hoje ter sido divulgado um índice de preços ao consumidor que elevou a aceleração dos preços em 12 meses para 5% – a taxa mais alta desde meados de 2008.

 

Para ele, as pressões inflacionárias, como os gargalos na produção e as altas das commodities, tendem a arrefecer daqui para a frente e a inflação americana se estabilizar num patamar médio de 2% ao ano nos próximos anos. Com isso, ele entende que em princípio, se pode contar com um cenário externo favorável para a economia dos emergentes em geral, inclusive o Brasil, para os próximos anos. 

No front interno, mesmo com uma fileira de boas notícias, como a baixa do dólar, a alta da bolsa, recorde nos termos de troca, que trazem uma sensação de segurança e otimismo, principalmente para os mercados financeiros, são insuficientes. “Nossos desafios são gigantescos, como o emprego que não se recupera e todas as questões sociais. Não é pra soltar foguete”, adverte Senna.

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Editor de Finanças em CartaCapital.

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