Política

Olívio Dutra: Enquanto maioria nega Sistema Solar e acredita no sistema Neymar, há quem conserve a esperança

Ex-ministro e ex-governador do RS diagnostica os males do País, mas não perde a esperança

Mino Carta e Olívio Dutra
Mino Carta entrevista Olívio Dutra. Foto: CartaCapital Mino Carta entrevista Olívio Dutra. Foto: CartaCapital
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Surpreendeu-me Falcão, da estirpe dos grandes meio-campistas de todos os tempos e de todos os campos, que surge no vídeo e garante a tranquilizar os torcedores: “Neymar é um jogador maduro”. O jogo ainda não se deu. Falcão se precipita. Quando a contenda finalmente acontece, Neymar entristece um país profundamente imaturo, induzido a não confiar na existência do Sistema Solar, e sim da supremacia do Sistema Neymar. Na perspectiva do estranho encontro pela final da Champions League da Uefa entre Bayern de Munique e Paris Saint-Germain, o Brasil viveu a paroxística versão de um embate digno da imaginação de Homero, por obra e graça da presença no gramado do nosso craque transcendental, destinado inevitavelmente à conquista do título de melhor do mundo.

Falcão devia é se dar ao respeito, e muito mais os jornalistas da pátria da ilusão. Dias a fio falou-se do assunto incessantemente, enquanto cerca de 3 milhões de brasileiros são infectados pelo coronavírus e bem mais que 100 mil são ceifados pela doença. E também enquanto o País se entrega passivamente à demência de um presidente da República que no momento serve aos desígnios da casa-grande. O ex-capitão avança nas pesquisas e ninguém se surpreenda se for reeleito em 2022.

Como de hábito, na hora que haveria de ser da glória, o craque mostra a sua transparente imaturidade. Perde-se no retângulo verde, a despeito de toda a sua empáfia provinciana, dos seus rompantes de ricaço da bola, da sua grosseria e vulgaridade acaipiradas. Ao cabo chora a derrota que lhe pesa nas entranhas como se fosse sua exclusivamente. Não será preciso convocar o Oráculo de Delfos para nos esclarecer a respeito de um avante medíocre, raramente capaz de uma jogada empolgante.

Confesso ter pedido a esperança em relação não digo a Neymar, que nunca me enganou, mas ao Brasil da democracia impossível, onde apenas o MST cuidou de abrir a mente dos seus militantes, enquanto o resto vive no limbo, onde o relegaram a prepotência e as artimanhas da casa-grande. Do lado oposto está um velho e honrado combatente, o gaúcho garibaldino Olívio Dutra, ainda em luta deste lado da barricada. Para me reanimar recita os versos de Mario Quintana: “Meu saco de ilusões bem cheio tive-o/ e com ele ia subindo a ladeira da vida,/ no entanto, a cada ilusão perdida extraordinária a sensação de alívio”. Acrescenta Olívio: “Perdi muitas ilusões e me orgulho disso, mas não perdi as esperanças”.

O mais combativo e o mais claro nas suas demandas

Sempre tive grande admiração por Olívio, que conheço desde os tempos em que lideranças sindicais autênticas, em torno do presidente do Sindicado dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, Luiz Inácio da Silva, melhor conhecido como Lula, começaram a substituir os pelegos. Foi uma mudança muito importante contra a própria ditadura. Eu participava das reuniões dessa brava gente e até uma ou outra promovi, na sede da redação de IstoÉ. De todos os presentes, Olívio sempre foi o mais combativo e o mais claro nas suas demandas. Escalado para a costumeira conversa entre amigos, cuja íntegra está desde segunda-feira 24 no site de CartaCapital, pareceu-me adequado ao momento inserir sua reflexão nestas páginas, em contraposição aos delírios futebolísticos, e outros mais, que ensombrecem hoje o nosso cenário.

“Eu acho que não somente o PT, mas o campo democrático popular, que evidentemente não surgiu de cima para baixo e nem por geração espontânea, tem muito o que aprender e o que fazer. Este país não pode ficar pior do que já é, com uma concentração de renda que o torna campeão mundial na matéria, comandado por um governante que pisoteia direitos, infeliz cidadão.” Observo que a radiografia é perfeita, meu amigo acentua: “Esta é a questão, o que não estava bom ficou ruim ou o que estava ruim ficou pior”. Transparece que o PT não foi aquele que ele esperava. “O PT nasceu de uma luta séria contra a ditadura, a favor de uma democracia que não fosse formal, discursiva, mas vivida por milhares de pessoas. Temos uma tarefa que está longe de ter sido esgotada com as crises pelas quais passamos e estamos passando, com os erros que cometemos. Fizemos também coisas muito importantes, mas ficamos mais com políticas públicas do que com reformas estruturais do Estado, que continua a ser uma cidadela dos poderosos, das elites tradicionais, que vem desde o Brasil colônia. O Estado é uma estrutura que nunca esteve ao alcance da maioria da população brasileira, nem quando nós chegamos ao governo com os dois mandatos do presidente Lula e os dois incompletos, o segundo, da presidenta Dilma. A máquina foi sempre dominada por dentro e de fora para dentro pelas elites.”

É fundamental, segundo Olívio, que haja representação política popular nas instâncias institucionais, “mas não sejamos prisioneiros delas”. Queixa-se ele de uma estrutura tributária que permanece intocada, quem tem mais paga menos, “enquanto os governantes alegam não ter dinheiro para executar políticas de integração social e desenvolvimento”. No governo Lula, o PT chegou a ter maioria no Congresso. Estava em jogo uma reforma tributária para inverter a situação de injustiça flagrante em pleno vigor. E o que aconteceu? “Sentaram em cima dessa proposta.” A verdade é que a ideia de Lula expressa uma visão de sociedade de partilha, de convivência e solidariedade, sem deixar de respeitar a pluralidade, a diversidade e a luta por justiça e igualdade.

Na visão do ex-ministro e governador do Rio Grande do Sul, esta ideia não teve maioria no Congresso. Tivemos um governo de centro-direita no primeiro mandato de Lula. “No segundo foi mais à direita e quando chegou Dilma mais à direita ainda, até que no segundo mandato puderam dar o golpe.” O PT acreditou na conciliação com as elites velhas de guerra “e nunca entendeu que quem não pensava como nós era inimigo, mas adversário, e a disputa deu-se no espaço democrático, sem que nós percebêssemos que o Estado não pode ser a trincheira dos mais poderosos, das famílias tradicionais, daqueles que fazem bons negócios com o dinheiro público, sem o mínimo retorno em proveito do País”.

Direita se apropriou do discurso contra a corrupção

A direita, diz Olívio, apropriou-se do discurso contra a corrupção como se ela a combatesse no seu próprio seio, mas a corrupção está na apropriação do espaço público, do dinheiro público, dos cargos públicos, no quadro de uma privatização do próprio Estado. Qual seria o resultado prático disso tudo? O resultado prático é a exigência de uma reflexão em lugar da autocrítica em voga em velhos partidos, de cima para baixo, para apontar este ou aquele culpado. A reflexão implica a consciência de ensinamentos obtidos nas experiências realizadas. “A política é a construção do bem comum e do protagonismo das pessoas, trata-se de trabalhar em conjunto, de sorte a se mobilizar sem depender do partido, do Estado, da personalidade do Executivo, a resultar de um exercício da política que poderia ter ido mais longe.” Este caminho deixou de ser percorrido, “nós fomos perdendo a radicalidade democrática e esta é uma questão muito séria”.

O esperançoso acha, contudo, que muitas coisas funcionam independentes da vontade e das superestruturas. “Tem muita coisa andando no campo, nas cidades, nas periferias.” Mas para enfrentar o momento turvo seria preciso contar com uma frente que exprima um ideário de resgate da democracia, fora do discurso da retórica, porque “a democracia precisa ser vivida no cotidiano de cada um. Não podemos acreditar que seremos uma democracia com cinco magnatas brasileiros donos de uma riqueza igual à dos recursos de 110 milhões de cidadãos. Isso não surgiu de agora, já vem do tempo dos nossos governos. Não houve magnata que ficasse mais pobre”. Nesta moldura, até “um cabeça de bagre, pessoa desprezível, para dizer o mínimo, é tido pela elite como muito mais aceitável na Presidência do que um metalúrgico”.

Olívio Dutra não está aqui por acaso. Ele é o oposto do cidadão Neymar e de todos aqueles que torcem desesperadamente por seu ídolo caído. Tendo a crer que também seja o oposto de muitos que haveriam de aprender com ele, da maioria renitentemente incapaz de entender por que não é objeto da política. Caberia ao Estado preencher o vácuo, mas até hoje, com exceção do MST, a esquerda não chegou lá. Contristado, pergunto aos meus desalentados botões o que teria acontecido desde o tempo em que nascia no Brasil um novo, aguerrido sindicalismo. Logo veio o tempo em que o MDB do doutor Ulysses Guimarães se permitia ganhar eleições admitidas hipocritamente pela ditadura. E as ganhava de verdade.

“O povo quer democracia”

Naquele momento, o País não se parecia com o de hoje. Lembro-me, em primeiro lugar, das greves deflagradas sob o comando de Lula com a participação maciça dos trabalhadores da região, prontos a atender ao chamado. Recordo também, depois das eleições de 1978, de ter encontrado o general Golbery do Couto e Silva. Estávamos no carro do Merlin do Planalto, íamos da Praça dos Três Poderes para a Granja do Torto, onde Golbery residia. Ele me disse, sereno: “Temos de apressar a abertura que o Geisel pretende lenta e gradual para ser segura. Mas o povo quer democracia”. É claro que o chefe o chefe da Casa Civil de Geisel não pensava na democracia almejada pelos democratas autênticos, mas eu sabia o que pensava da pessoa do ditador, que ele próprio escolhera contra a vontade do anterior, Garrastazu Médici. Entendia-lhe as fraquezas, as convicções malpostas, o temperamento irascível, o caráter autoritário, mas também o QI baixo, que lhe permitiria levá-lo na conversa em diferentes oportunidades. Os eleitores de então, assim como os grevistas do ABC, representavam um povo disposto a enfrentar a briga por mais feroz que fosse. Os trabalhadores que lotavam a Vila Euclides, arengados do palanque por Lula, não mostraram um mais pálido sinal de medo quando as forças policiais os enfrentaram com brucutus e voos rasantes de helicópteros. Choviam as bombas de gás lacrimogêneo, mas ninguém arredou pé do estádio até que o presidente do sindicato foi preso e enquadrado na Lei de Segurança Nacional.

Nem se fale da campanha das Diretas Já, manifestação fluvial com a participação de centenas de milhares de brasileiros que invadiram praças e avenidas para reivindicar o fim da ditadura e um pleito livre. Exemplos da capacidade de resistência hoje tragicamente perdida. Filhos parecem não ter herdado a bravura e o desassombro dos pais. E o que exatamente me intriga é a definição do fator habilitado a precipitar a mudança. Já não se fazem líderes como antigamente, como Olívio Dutra, com seu belo rosto anguloso, enfeitado por vastos bigodes a prometerem a refrega próxima. Os erros de uma esquerda que chegou ao poder expõem a ausência de crenças sólidas, que haveriam de impregnar uma operação profunda de politização, a bem da conquista da consciência da cidadania por parte de cada brasileiro.

Figuras como Olívio Dutra não perdem a esperança, sentem a presença de um verbo redentor a percorrer as entranhas do País, a circular debaixo das calçadas por onde transita a multidão cabisbaixa, de Havaianas e mochilas às costas, como corcova ditada pela natureza. Espero que os esperançosos não se iludam.

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