Política

Ô troço agarrado

Entre idas e vindas e muitas reviravoltas, os candidatos ao governo tentam vencer a apatia do eleitorado

Ô troço agarrado
Ô troço agarrado
Incerteza. Kalil, Ananias, Simões e Cleitinho disputam uma vaga no segundo turno. Mas 80% dos mineiros ainda não decidiram quem merece a sua confiança – Imagem: Redes Sociais
Apoie Siga-nos no

O ex-governador Hélio Garcia tinha uma máxima: “Campanha e eleição, só depois da parada de 7 de Setembro”. Em 1994, Garcia resistiu à pressão para mergulhar na candidatura de Eduardo Azeredo ao governo estadual. Esperou. No primeiro turno, Hélio Costa teve 48,3% dos votos, contra 27,2% de Azeredo, e ficou a um passo da vitória. Garcia entrou em campo. No segundo turno, Azeredo protagonizou uma das maiores viradas da história eleitoral brasileira: venceu por 58,7% a 41,3%. Trinta e dois anos depois, a máxima não perdeu a validade. A campanha começou. A eleição, ainda não.

Pesquisa Quaest divulgada em 25 de agosto oferece uma medida dessa espera. Na pergunta espontânea, 80% dos mineiros não sabem dizer em quem votar para governador. Para o Senado, são 94%. Nesse vazio, a campanha começa a buscar seus votos. Na estimulada, Cleitinho Azevedo, do Republicanos, lidera com 29%, seguido pelo petista Patrus Ananias, com 11%, e Alexandre Kalil, do PDT, com 10%. Mateus Simões, do PSD, soma 7%, Gabriel Azevedo, do MDB, 5%, e Flávio Roscoe, do PL, 3%. Na espontânea, apenas 11% citam Cleitinho, enquanto Ananias e Kalil disputam a segunda vaga, seguidos por Simões. Para o CEO da Quaest, Felipe Nunes, tamanha indecisão permite “grandes reviravoltas” até 4 de outubro. “Boa parte dos candidatos que se apresentam para o governo e o Senado é muito desconhecida. Esse alto nível de desconhecimento, somado à indecisão, mostra por que a recomendação é de olhar para esse cenário mineiro com muita cautela.”

Durante meses, o grupo de Romeu ­Zema tentou reunir o campo conservador em torno de Simões, seu vice e sucessor depois da renúncia do ex-governador para disputar a Presidência. Fracassou. Cleitinho manteve a candidatura e o PL rompeu com Simões para lançar Roscoe, ex-presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais e estreante nas urnas. A herança eleitoral de Zema, que deveria impulsionar Simões, acabou repartida.

Simões carrega o paradoxo mais desconfortável da eleição. Tem o governo, a máquina, tempo de televisão e o apoio formal de um padrinho eleito e reeleito no primeiro turno. Tem quase tudo, menos votos suficientes até agora. Marca 4% no Datafolha e 7% na Quaest. Zema nem sequer fez agenda pública de campanha ao lado do pupilo. Simões abriu mão de apoiar Ronaldo Caiado, presidenciável de seu próprio partido, para permanecer fiel ao antigo chefe. A lealdade está demonstrada. Falta descobrir quanto vale nas urnas.

Lula também planejou uma eleição diferente. Depois de sucessivas recusas, o PT recorreu a Ananias, ex-prefeito de Belo Horizonte e ex-ministro, para organizar o palanque no segundo maior colégio eleitoral do País. O candidato concentra parte do voto lulista, mas divide terreno com Kalil. O ex-presidente do Atlético Mineiro conserva recall de sua administração municipal, mas encontra no campo progressista um adversário que não teve em 2022.

O problema para ambos é que o eleitorado mineiro costuma resistir aos roteiros escritos em Brasília. Segundo a Quaest, 44% prefere um governador independente de Lula e do bolsonarismo, ante 27% alinhado ao presidente e 25% ao campo bolsonarista. Cleitinho percebeu o espaço e ensaiou o “nem à esquerda nem à direita”, embora tenha declarado voto em Flávio Bolsonaro. A contradição pode ser cálculo: numa eleição em que quase metade procura distância dos dois polos, alguma ambiguidade pode valer mais que fidelidade.

Tanto na campanha ao governo estadual quanto ao Senado, prevalece a incógnita

Minas conhece essas combinações. Em 2002 e 2006, elegeu Aécio Neves governador e deu maioria a Lula. Em 2010, escolheu Antonio Anastasia e Dilma Rousseff. Em 2022, reelegeu Zema no primeiro turno e preferiu Lula para o Planalto. A política mineira batizou seus casamentos improváveis: “Lulécio”, “Dilmasia” e “Luzema”. Minas costuma acompanhar o vencedor presidencial, mas não necessariamente lhe entrega o Palácio Tiradentes.

No Senado, a incerteza beira o vazio. Na espontânea, Marília Campos (PT), líder na estimulada com 15%, é lembrada por apenas 2%. A disputa traz outra peculiaridade: o estado não reelege um senador desde Itamar Franco, em 1982. Quarenta e quatro anos depois, Carlos Viana, do PSD, tenta quebrar o tabu numa corrida congestionada à direita e ao centro, com Domingos Sávio, do PL, e Marcelo Aro (PP).

Foi nesse terreno que Aécio Neves resolveu entrar. Duas vezes governador e ex-senador, o tucano leva para uma eleição marcada pelo desconhecimento seu maior ativo – ou passivo –, a lembrança do eleitorado. Sua candidatura acrescentou outra combinação ao vocabulário eleitoral mineiro. Depois de “Lulécio”, “Dilmasia” e “Luzema”, já se fala em “Marécio”. Com duas cadeiras em disputa, o mesmo eleitor pode votar em Marília e Aécio, candidatos de campos distintos.

A corrida está afeita a outra reviravolta. Pressionado por aliados a abandonar a candidatura presidencial, Zema foi instado a disputar o Senado. Até agora resiste à sugestão. Se recuar, entrará, no entanto, numa disputa fragmentada carregando o ­recall de oito anos no governo e poderá alterar novamente a correlação de forças entre os candidatos do mesmo campo político.

A pouco mais de um mês das urnas, Minas tem um favorito ao governo, não uma eleição consolidada. Tem máquina sem voto garantido, padrinhos incapazes de controlar seus palanques e candidatos calculando até onde podem aproximar-se dos polos nacionais. Todos fizeram seus movimentos. Falta o principal personagem fazer o dele.

Garcia talvez reconhecesse a cena. Em 1994, esperou setembro para descobrir se o favoritismo das pesquisas sobreviveria à campanha. Em 2026, o eleitor mineiro resolveu ficar com a última palavra. É melhor esperar o desfile de 7 de Setembro. •

Publicado na edição n° 1429 de CartaCapital, em 09 de setembro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Ô troço agarrado’

ENTENDA MAIS SOBRE: , , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.

O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.

Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.

Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.

Quero apoiar

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo