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O risco Bolsonaro precisa ser enfrentado com uma frente democrática

Política

Como previsto, uma semana após ter sido confirmado como candidato, Fernando Haddad (PT) já é um dos favoritos para chegar ao segundo turno. Ele recebe parte significativa dos votos de Lula, desidratando Marina Silva (Rede) e estancando o crescimento de Ciro Gomes (PDT).

No outro polo, Bolsonaro se consolidou, apesar do pouco tempo de televisão, da debilidade partidária e do escasso fundo eleitoral. A lamentável facada lhe rendeu um triplo efeito positivo: ganhou mídia espontânea, pousou como vítima e passou a ter uma boa justificativa para se ausentar dos debates, não se desgastando.

Apesar de limitado, tem uma rede capilarizada que o promove há muito tempo e que está, mais do que nunca, atuando em todo o país. Já tinha altos índices de adesão no voto espontâneo – rivalizando com Lula – e, agora, se consolidou em um patamar irremovível.

Por outro lado, as operações para alavancar um candidato “novo” de centro direita (Huck, Barbosa, etc.) falharam. Alckmin, o candidato que sobrou, estacionou em um dígito, sem chances de reação, apesar do imenso tempo de TV.

Nesse contexto, várias questões estão no ar. Bolsonaro se tornará o candidato das forças que, desde 2014, atuaram para remover Dilma, implantar “reformas” neoliberais e excluir Lula das eleições? Ele conseguirá agregar “todos os tons de cinza” do antipetismo? O “mercado” e a mídia eletrônica irão apostar nele para evitar o retorno da esquerda?

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O capitão não é mais o candidato que todos derrotariam com facilidade no segundo turno. Ele simboliza um tema de apelo popular e já catalisa a rejeição ao PT. Se conseguir atrair os setores da centro direita, terá potencial para ganhar as eleições. Em São Paulo, o PSDB de Doria já faz uma aliança branca com Bolsonaro!

A intenção de voto dos candidatos desse campo (Bolsonaro, Alckmin, Amoedo, Meirelles, Dias e Cabo) somam 45% na última pesquisa do Datafolha, enquanto que os candidatos dos que se opuseram ao golpe (Haddad, Ciro e Boulos) alcançam apenas 27%. Incluindo Marina a soma atinge 35%. Restam apenas 6% de indecisos e 13% de brancos e nulos.

O quadro poderá se alterar até o 2º turno. Mas para isso, Haddad precisará agregar uma frente democrática que una não apenas a centro-esquerda, atraindo os eleitores de Marina e Ciro, como também setores do centro democrático.

A união da centro-direita em torno de Bolsonaro, que parecia inimaginável, não é impossível. Seria a última cartada para implementar, pelas vias institucionais, a agenda “ponte para o futuro”, que levou Temer ao governo. A história registra muitos momentos em que o centro em crise aderiu à extrema direita em ascensão. O caso mais notável foi a eleição de Hitler como chanceler da Alemanha em 1933. O resultado foi trágico, como seria aqui.

A presença de Paulo Guedes como fiador do capitão junto ao “mercado” aponta nessa direção. A combinação do conservadorismo nos costumes (autoridade, segurança, moral e valorização da família machista tradicional) com liberalismo na economia (estado menor, privatizações, arrocho fiscal, supressão de direitos) é a receita que daria consistência a esse arranjo. A democracia, a liberdade e as conquistas sociais ficariam por um fio.

Para evitar esse desastre, Haddad precisa ultrapassar a barreira que separa a esquerda do centro democrático. Pelo seu perfil, capacidade de análise e visão de mundo (e com Lula excluído das eleições), é o melhor o candidato que o PT poderia ter para cumprir essa missão. Mas não é uma tarefa fácil.

Em primeiro lugar, porque para conquistar os eleitores de Lula, Haddad reforçou seus vínculos com o PT. Isso era inevitável e garantiu o avanço registrado nas pesquisas, mas traz junto a desconfiança de setores que embora rejeitem Bolsonaro, são críticos ou também rejeitam o PT.

Em segundo lugar, porque o centro democrático que, em tese, seria o antigo PSDB de Montoro, Covas e FHC, hoje é pequeno e está fragilizado. Ainda assim, pode ser o fiel da balança em uma disputa acirrada.

Para isso, Haddad precisa, depois de conquistar os votos “lulistas”, ir além. Não pode simplesmente olhar para a frente com os olhos no retrovisor. Precisa sinalizar o futuro, com reformas progressistas, pactuadas com a sociedade e agreguem amplos setores democráticos que possam ser a base de uma aliança programática de governo.

É necessário ter senso crítico em relação aos problemas reais do país. Ampliar os horizontes que marcaram os governos anteriores do PT, com inovações e criatividade, para enfrentar a crise econômica, fiscal e social. Passar a imagem de que irá romper a polarização, a intolerância e o ódio que contaminaram a sociedade brasileira. Ser mais amplo que o PT, sem ceder às alianças fisiológicas.

Se as forças democráticas não se aglutinarem, corremos um risco inimaginável há seis meses: uma vitória do capitão Bolsonaro, meio caminho para um golpe legitimado pelas urnas.

 

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