Política

Operação Lava Jato

O que pesa sobre os petistas citados na lista de Fachin

por Redação — publicado 12/04/2017 19h44, última modificação 12/04/2017 22h46
Partido tem 20 políticos na mira do STF após depoimentos de ex-executivos da Odebrecht. Entenda as acusações contra eles
FlickrCommons e Pedro França/MinC
Petistas

O grupo inclui os parlamentares Vicente Cândido, Arlindo Chinaglia e Humberto Costa

Após 13 anos no poder, o Partido dos Trabalhadores desponta como a legenda com o maior número de investigados no âmbito do Supremo Tribunal Federal na lista de Edson Fachin, relator da Lava Jato na Corte. Ao todo, há 20 políticos citados por delatores da Odebrecht, a maior empreiteira do País.

Ministro do Planejamento de Lula e titular da pasta de Comunicações no governo Dilma Rousseff, Paulo Bernardo é acusado de ter solicitado recursos para as campanhas da esposa, Gleisi Hoffmann, em 2010, para o Senado, e em 2014, para o governo do Paraná. Ela teria recebido 5 milhões de reais da construtora.

Onipresente desde os tempos do “mensalão”, o ex-ministro José Dirceu figurava nas planilhas da empresa com o codinome “Guerrilheiro”. Segundo um executivo da Odebrecht, ele chegou a retirar dinheiro em espécie e abasteceu a campanha do filho, Zeca Dirceu, para o Legislativo.

O deputado federal Arlindo Chinaglia, presidente da Câmara entre 2007 e 2009, é apontado pelos delatores como destinatário de 10 milhões de reais em um esquema relacionado a obras da hidrelétrica de Santo Antonio, no Rio Madeira, em Rondônia. Outros beneficiários teriam sido o deputado cassado Eduardo Cunha e o senador Romero Jucá, ambos do PMDB e dois dos mais relevantes patrocinadores políticos do impeachment de Dilma Rousseff. 

Esse caso revela uma característica comum às acusações contra vários outros petistas: muitos deles figuram em investigações ao lado de antigos aliados que atualmente compõem a base do governo de Michel Temer.   

Confira, a seguir, as acusações que recaem sobre os petistas:

Caso "Parque da Cidade": Cândido Vaccarezza, Carlos Zarattini e Guido Mantega

Cândido Vaccarezza
Cândido Vaccarezza (Foto: José Cruz/ABr)

Segundo Marcelo Odebrecht e e outros delatores da empreiteira, Cândido Vaccarezza, ex-deputado do PT que pediu desfiliação da legenda no ano passado, e os deputados federais Carlos Zarattini e João Carlos Bacelar, do PR, solicitaram vantagens à construtora para atuar em prol da aprovação da aquisição de uma torre comercial e de um shopping center no empreendimento "Parque da Cidade", em São Paulo.

Segundo os delatores, firmou-se um ajuste, com a participação do ex-ministro petista Guido Mantega, para a liberação de um crédito de 27 milhões de reais em benefício do legenda, caso o negócio fosse concretizado. Do total, 5 milhões seriam destinados a Zarattini e Vaccarezza.

Zaratini diz que não teve acesso ao conteúdo das delações. "Todas as minhas doações de campanha foram legais e declaradas nos órgãos competentes e aprovadas pelo Tribunal Regional Eleitoral." Vaccarezza afirma que é "ficha limpa" e não responde a nenhum inquérito na Operação Lava Jato. A defesa de Mantega declara que ainda não conhece os motivos para abertura do inquérito e que só vai se pronunciar quando tiver acesso ao teor da denúncia.

Arlindo Chinaglia

O deputado federal Arnaldo Chinaglia é citado como suposto beneficiário de parte de um pagamento de 50 milhões de reais relacionado à licitação das obras da usina hidrelétrica de Santo Antônio, vencida pela Odebrecht.

A empresa relata que "estava sendo alvo de ataques" do governo federal, e pediu auxilio ao então deputado Eduardo Cunha, "visto como uma pessoa de forte influência em Furnas". O esquema teria envolvido ainda Romero Jucá, líder do governo Temer no Senado, e Sandro Mabel, do PR. Foram destinados, dizem os delatores, 50 milhões ao grupo, sendo 20 milhões a Cunha, 10 milhões a Jucá, 10 milhões a Mabel e 10 milhões a Chinaglia.

Segundo os delatores, Chinaglia reclamou, em 2014, de pendência na sua parte do pagamento. Após a reclamação, ele teria recebido 2,5 milhões de reais do Setor de Operações Estruturadas.

O deputado afirma que seu nome surge de forma "surpreendente" nas delações e diz que "está determinado a buscar, junto ao Supremo Tribunal Federal, todas as informações para que a verdade prevaleça."

Humberto Costa

Segundo denúncia do MP, o senador cassado Delcídio do Amaral e o senador Humberto Costa, de codinome "Drácula", teria conhecimento de um esquema de desvio de 3% em contratos da Petrobras com a Odebrecht. As planilhas da empreiteira indicariam um repasse de 591 mil reais ao parlamentar.

No mesmo inquérito, menciona-se uma possível participação de Michel Temer, em virtude de uma suposta reunião do peemedebista com Eduardo Cunha e Henrique Eduardo Alves em 2010. Há ainda relatos de que Dilma Rousseff e Graça Foster, ex-presidente da Petrobras, teriam conhecimento dos fatos.

Em nota, Costa afirma que já abriu mão de seus sigilos e aguarda ter acesso aos novos documentos para reunir as informações necessárias à sua defesa. Ele se coloca à disposição das autoridades para todos os esclarecimentos necessários.

Marco Maia

Marco Maia
(Foto: WikiCommons)

Segundo relato de Cláudio Melo Filho, o deputado petista Marco Maia, de codinome "gremista", teria recebido recursos irregulares para sua campanha de 2014, no valor de 1,35 milhão de reais. Os pagamentos teriam sido feitos por meio do Setor de Operações Estruturadas.

O parlamentar é ainda alvo de outro inquérito em conjunto com o peemedebista Eliseu Padilha, chefe da Casa Civil de Temer, e com o petista Paulo Bernado, ex-ministro de Dilma. O pedido de investigação refere-se a supostos pagamentos associados à execução do contrato de construção da linha 1 da Trensurb, ligação entre Novo Hamburgo/RS e São Leopoldo/RS. Maia teria solicitado uma porcentagem de 0,55% do contrato em um encontro com representantes da Trensurb em Porto Alegre.

Em nota, o deputado diz "desconhecer o teor das delações mentirosas feitas pelos delatores da Odebrecht" e afirma que "todas as contribuições para suas campanhas eleitorais foram realizadas dentro do que prevê a legislação eleitoral".

Vicente Cândido

Segundo denúncia do Ministério Público, o deputado Vicente Cândido, de codinome "Palmas", solicitou e recebeu 50 mil reais da Odebrecht para atuar na busca de uma "solução para o financiamento" da Arena Corinthians, estádio construído para a Copa de 2014.

Cândido é um dos mais destacados integrantes da Bancada da Bola e ocupa um cargo de diretor na Confederação Brasileira de Futebol, onde desempenha o papel de homem forte de Marco Polo Del Nero, presidente da entidade e alvo de investigações do FBI por suspeita de participar de um esquema de propinas da Fifa.

A abertura de inquérito deu-se com base nos depoimentos dos ex-executivos da empreiteira Alexandrino Alencar, Carlos Paschoal e Benedicto Barbosa Júnior.

Em nota, o deputado afirma que "a forma como a mídia trata os pedidos de abertura de inquérito confere ares de condenação. "Tenho certeza de minha idoneidade e me coloco a disposição para quaisquer esclarecimentos à justiça", afirmou.

Tião e Jorge Vianna

Os delatores da Odebrecht afirmam que o senador petista Jorge Viana pediu apoio financeiro à empreiteira para a campanha de seu irmão, Tião Viana, ao governo do Acre em 2010. De acordo com os depoimentos, foram repassados 2 milhões de reais, sendo 500 mil de modo oficial. O pagamento teria contado ainda com a anuência do ex-ministro Antônio Palocci e o uso de offshores para os pagamentos.

Tião Viana afirma que nunca se reuniu com Marcelo Odebrecht ou com qualquer executivo da sua empresa e se diz "indignado, mas de consciência tranquila. "Estou longe dessa podridão, essa podridão está longe de mim". Já Jorge Viana afirma não haver nenhuma denúncia de corrupção contra a dupla, "mas questionamentos sobre a arrecadação da campanha em 2010". "Vamos provar na Justiça o que dissemos antes: nossas campanhas foram dentro da lei e feitas com dinheiro limpo."

Lindbergh Farias

Os delatores Benedicto Barbosa da Silva Júnior e Leandro Andrade Azevedo afirmam que pagaram recursos não contabilizados ao senador Lindbergh Farias para as campanhas de 2008 e 2010.

O parlamentar teria recebido dois pagamentos, um de 2 milhões de reais e outro de 2,5 milhões, que teriam como motivação "o potencial de projeção do parlamentar". Em contrapartida às doações, narram os colaboradores, Lindbergh, então prefeito de Nova Iguaçu, teria beneficiado a Odebrecht em contratos administrativos relacionados ao programa "Pró-Moradia".

Lindbergh espera o arquivamento do caso. "Mais uma vez confiarei que as investigações irão esclarecer os fatos e, assim como das outras vezes, estou convicto que o arquivamento será único desfecho possível para esse processo. Novamente a justiça será feita.”

Paulo Bernardo e Gleisi Hoffmann

Paulo Bernardo
(Foto: Antonio Cruz/ABr)

De acordo com delatores da Odebrecht, o ex-ministro Paulo Bernardo solicitou recursos da empreiteira para a campanha de sua esposa, a senadora Gleisi Hoffmann, no âmbito das eleições ao Senado em 2010 e ao governo paranaense em 2014. A senadora teria recebido 5 milhões de reais.

Segundo os colaboradores, o pagamento está relacionado à abertura de crédito de 50 milhões de reais para exportação de bens e serviços entre Brasil e Angola, medida que teria beneficiado a empreiteira. 

Fachin não autorizou uma nova abertura de investigação, mas solicitou que os depoimentos sejam incorporados a outro inquérito no STF que envolve a senadora. 

José Dirceu e Zeca Dirceu

José Dirceu
(Foto: Richter Frank-Jurgen/WikiCommons)

O delator Fernando Luiz Ayres da Cunha Santos Reis afirma que reuniu-se com ex-ministro José Dirceu, atualmente preso em Curitiba, para discutirem negócios privados que o petista pudesse intermediar.

Nos encontros, teriam sido tratadas contribuições para as campanhas municipais de 2008 e 2012 e para o legislativo em 2010. Segundo a delação, foram identificados pagamentos de 350 mil reais em espécie a Dirceu, identificado nas planilhas pelo codinome "Guerrilheiro". Os repasses teriam sido feito diretamente a beneficiários, e não ao próprio Dirceu.

Narra-se ainda que, em 2010 e 2014, foram efetuados, a pedido do ex-ministro, repasses à campanha de seu filho, o deputado federal Zeca Dirceu, no valor de 250 mil reais cada.

Zeca Dirceu afirma que "não há e nunca houve qualquer tipo de tratativa do parlamentar junto às diretorias da Petrobras e/ou às empresas investigadas na Lava Jato". O advogado de Dirceu, Roberto Podval, disse que só vai comentar após ter conhecimento da íntegra da denúncia.

Maria do Rosário

De acordo com o depoimento de Alexandrino Alencar, Maria do Rosário teria procurado o executivo da Odebrecht para solicitar auxílio financeiro a sua campanha. O pagamento de 150 mil reais teria sido efetuado pelo Setor de Operações Estruturadas, "sem qualquer registro contábil do repasse financeiro".

A deputada afirma que a está indignada com a citação de seu nome. " Vou disponibilizar meus sigilos fiscal, bancário e telefônico ao STF tamanha é minha tranquilidade. Meu nome e minha vida não estão à disposição para serem enxovalhados por ninguém em nenhum lugar."

Vicentinho

Os delatores da Odebrecht narram pagamentos à campanha eleitoral do deputado federal Vicentinho à Câmara em 2010. Segundo os depoimentos, o petista teria recebido 30 mil reais em espécie, em duas parcelas de 15 mil reais, não contabilizados oficialmente. As tratativas, narram os colaboradores, foram realizadas com o próprio parlamentar, em reunião com o executivo Alexandrino Alencar.

O deputado Vicentinho declarou que se surpreendeu com a notícia, negou as acusações e que irá provar a sua inocência.

Zeca do PT

Os delatores João Antônio Pacífico Ferreira e Pedro Augusto Neto afirmam que repassaram recursos durante a campanha de 2006 ao ex-governador do Mato Grosso Blairo Maggi (PP), atual ministro da Agricultura, e para Zeca do PT, ex-governador do Mato Grosso do Sul, com o objetivo de liberar créditos da empreiteira em ambos os estados. Maggi teria recebido 12 milhões de reais, e Zeca, 400 mil.

O deputado afirma que houve "um erro enorme" nas apurações, pois o valor teria sido repassado a Delcídio do Amaral, candidato do PT ao governo naquele ano. "Fui eleito governador em 1998 e reeleito em 2002. Portanto em 2006 estava impedido de ser candidato a governador e não disputei nenhum cargo naquela eleição."

Paulo Rocha

Delatores da empreiteira relatam pagamento de recursos não oficiais à campanha eleitoral de Helder Barbalho, atual ministro da Integração nacional de Temer, ao governo do Pará em 2014.

Os valores teriam sido solicitados pelo candidato ao governo e também pelo senador petista Paulo Rocha. Segundo os depoimentos, foram repassados 1,5 milhão de reais ao grupo em três parcelas. Em contrapartida, a Odebrecht seria beneficiada em áreas de interesse no Pará, notadamente no setor de saneamento básico.

Paulo Rocha afirma que todos os recursos de sua companha de 2014 para o Senado Federal foram repassados pela direção nacional e estadual do Partido dos Trabalhadores e estão todos declarados nas prestações de contas junto ao TRE.

Décio Lima

Delatores relatam o pagamento não oficial de 500 mil reais, a pedido do deputado federal Décio Lima, para a campanha de sua mulher, a deputada estadual Ana Paula Lima, à prefeitura de Blumenau (SC) em 2012. Os depoentes afirmam que os repasses funcionariam como uma contrapartida a interesses da empresa, "notadamente na área de saneamento básico".

O deputado afirma que "a verdade prevalecerá" e a "justiça será feita". "Minha vida pública sempre foi pautada pela ética, lisura e transparência e a minha história demonstra a preocupação com a legalidade de todos os meus atos."

Vander Loubet 

Segundo Alexandrino Alencar, o deputado federal Vander Loubet recebeu 50 mil reais não contabilizados para sua campanha em 2010. O parlamentar afirma que "todas as contribuições recebidas em campanha eleitoral foram devidamente oficializadas em prestações de contas aprovadas pela Justiça Eleitoral."

Carlos Zarattini 

Os delatores da Odebrecht afirmam que o deputado federal Carlos Zaratini recebeu, nos anos de 2010 e 2014, 50 mil reais em pagamentos não contabilizados, além de mais de 600 mil reais em doações oficiais. O pedido de doação teria ocorrido no contexto da aprovação de emendas favoráveis à empreiteira. "Todas as minhas doações de campanha foram legais e declaradas nos órgãos competentes e aprovadas pelo Tribunal Regional Eleitoral", afirma o parlamentar. 

Nelson Pellegrino

Depoimento de Benedicto Barbosa da Silva Júnior narra que a Odebrecht teria repassado 1,5 milhão de reais ao deputado federal Nelson Pellegrino para sua campanha eleitoral, sendo 200 mil reais de forma oficial e o restante por intermédio de caixa 2.

O parlamentar diz estar tranquilo."Meu advogado vai requerer o conteúdo ao STF e, após o conhecimento dos termos, me manifestarei."