Educação

O que faz mesmo no governo o ministro-astronauta Marcos Pontes?

Criticado pela ausência, apatia e desconhecimento dos reais problemas da ciência, o ministro prefere seguir vivendo no mundo da lua

Nebuloso. A comunidade científica coleciona histórias de gafes de Pontes, incapaz de enfrentar os colegas de Esplanada (WESLEY SOUSA ASCOM/SEAPC/MCTI)
Nebuloso. A comunidade científica coleciona histórias de gafes de Pontes, incapaz de enfrentar os colegas de Esplanada (WESLEY SOUSA ASCOM/SEAPC/MCTI)

Não fosse um comentário desairoso do colega Paulo Guedes, o ministro de ­Ciências e Tecnologia, Marcos Pontes, continuaria ignorado pelo grande público. O astronauta “burro”, segundo Guedes, ocupa o cargo desde o início do governo Bolsonaro, mas ninguém é capaz de citar um único feito, decisão ou discurso que justifiquem a sua nomeação. Ao contrário. Os interlocutores de Pontes, ocasionais ou constantes, só conseguem lembrar de episódios constrangedores.

Um deles deu-se nas primeiras semanas da administração, em 2019. Dirigentes de associações do setor foram chamados a uma reunião em Brasília. Esperavam conhecer as metas e diretrizes do novo ministro. Acabaram confrontados com uma pergunta bizarra: “Vocês sabem por que o avião voa?” Pontes não esperou a resposta, providenciou ele mesmo uma explicação “básica”, enquanto fazia um origami em forma de gaivota e o lançava em direção à plateia.

“No início pensamos que fosse uma pegadinha”, lembra um cientista que esteve na reunião e prefere manter o nome em sigilo. Quando os presentes perceberam que a coisa era séria, a vergonha alheia tomou conta do ambiente. “Ele mostrou profundo desconhecimento sobre a realidade do setor e referiu-se a nós como ‘as instituições do CNPq’, revelando que nem sequer sabia sobre mudanças que haviam ocorrido na estrutura do ministério há anos.” Esse “primeiro e revelador contato”, diz o cientista, “demonstrou aos representantes do setor em que nível os demais aconteceriam”.

Ausência, apatia e desconhecimento dos reais problemas da ciência são as críticas mais comuns dirigidas a Pontes, militar que ganhou fama por participar como “astronauta convidado” de uma missão da Nasa em 2006 e se tornar o primeiro brasileiro a ir ao espaço, onde permaneceu por dez dias na Estação Espacial Internacional. A popularidade o fez aproximar-se de Jair Bolsonaro na campanha de 2018, mas não foi suficiente para que gerisse com eficiência uma pasta que sofreu sucessivos cortes orçamentários desde 2016, ainda no governo do “pacificador” Michel Temer. Desmonte crescente que, nos últimos três anos, teve no ministro-astronauta um observador passivo.

Ninguém se lembrava do militar até ele ser chamado de burro pelo colega Paulo Guedes

Há um mês, quando mais um corte foi anunciado, 565 milhões de reais, Pontes afirmou ter sido “pego de surpresa” e, em audiência na Câmara dos Deputados, afirmou que Bolsonaro “prometeu” recompor os recursos. No dia seguinte, o ex-capitão sancionou, porém, a redução do orçamento solicitada por Guedes. “Ele nunca teve estofo para peitar o Guedes ou o titular da Casa Civil e brigar por recursos para a ciência”, diz uma fonte que conhece o dia a dia da Esplanada. Quem está acostumado a conversar com Pontes conta que o ministro sempre repete um bordão: “Estão jogando bola nas minhas costas”.

“A verdade é que, em três anos, ele nunca encarou a comunidade científica, os deputados e senadores e muito menos o chefe. Reclama timidamente dos cortes e depois vai participar de motociata ao lado de Bolsonaro”, diz a fonte. A docilidade do tenente-coronel da reserva pode ser explicada por suas pretensões eleitorais. Com base na paulista Bauru, Pontes tem dito a interlocutores que pretende concorrer a uma cadeira na Câmara dos Deputados nas próximas eleições. O ministro recusou-se a atender os pedidos de entrevista de CartaCapital.

Uma das deficiências do ex-astronauta é não conseguir estabelecer contatos com os parlamentares ligados ao setor. Presidente da Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara, Aliel Machado, do PSB, afirma que a “gestão negativa” de Pontes se insere no contexto bolsonarista: “Para o governo, a ciência não importa”. O parlamentar lamenta o desmonte do setor: “O ministério poderia ter sido um diferencial na crise sanitária, tanto do ponto de vista do desenvolvimento tecnológico quanto da capacidade que o Brasil tem por suas universidades e cientistas, mas ficou muito aquém, muito desprestigiado”.

Também integrante da Comissão, Nilto Tatto, do PT, ressalta que os cortes orçamentários “iniciados após o golpe contra a presidenta Dilma” só fizeram crescer na atual gestão: “O mau desempenho de Pontes não se resume, no entanto, à falta de recursos. Concentra-se também no excesso de marketing, em seguidas viagens internacionais inócuas e, principalmente, numa postura escancaradamente subserviente aos que, de fato, têm algum poder no governo”. A relação de Pontes com a Câmara, diz ­Tatto, foi contaminada por essa subserviência: “Conosco, ele sempre se comportou com absoluta cordialidade e disponibilidade. Veio à Casa inúmeras vezes, porém com efeitos inócuos, pois sempre baixou a cabeça para Bolsonaro”.

O gabinete do (Foto: NASA)

Presidente do Sindicato Nacional dos Gestores Públicos em Ciência e Tecnologia, Roberto Muniz aponta a precarização das condições de trabalho dos servidores do setor como outro fator negativo: “Ele aprofundou uma tendência de desvalorização da carreira de gestão, planejamento e infraestrutura. Desprezou servidores públicos qualificados para atuar na área. Não houve concursos públicos, reposição de mão de obra. Os institutos precisam renovar seus quadros de pesquisadores, tecnólogos e gestores, mas isso não está acontecendo, enfrentamos enormes dificuldades”.

Assim como em outros ministérios, militares tomaram de assalto a pasta. “Em vez de fortalecer uma gestão qualificada, moderna e preparada, preferiu deixar em cargos-chave oficiais da Aeronáutica ou do antigo Ministério das Comunicações”, diz Muniz.

Pontes parecia ter chegado ao ápice de sua carreira em 8 de abril de 2006, quando voltou do espaço. Escolhido pelo governo Lula como símbolo de um Brasil tecnologicamente desenvolvido em um momento de afirmação internacional da imagem do País, o militar ainda não havia demonstrado apetite pela política quando, semanas após o passeio com a Nasa, enveredou pela carreira de palestrante. Cobrava 10 mil reais por evento. “Ele passou anos repetindo a mesma palestra, um apanhado de frases motivacionais baseadas em sua experiência espacial”, conta uma fonte presente em vários desses convescotes.

Para administrar a carreira, o astronauta criou a Portally Eventos e Produções, da qual sempre negou ser o dono até virar oficialmente sócio em 2017. Ao longo dos anos, além de palestras e participações em eventos, a empresa fez uma série de negócios, entre eles o lançamento do livro Missão Cumprida, sobre as peripécias espaciais de Pontes, pacotes de viagem ao Centro de Operações da Nasa em Houston, no Texas, travesseiros feitos com “espuma” das espaçonaves e bonecos do agora ministro.

Pontes não pretende retomar a carreira de palestrante. Quer disputar uma vaga na Câmara em 2022

Apesar de comandar a pasta de Ciência e Tecnologia, Pontes não cortou os vínculos com a Portally. A diretora-executiva da empresa, Christiane Gonçalves, tornou-se secretária de Articulação e Promoção do ministério. A subordinada também é sócia da mulher do ministro, Fátima Cavalcanti Pontes, na Marcos Pontes Engenharia e Eventos, e da filha Ana Carolina Pontes na Chris Mchilliard Editora, que publicou quatro livros do militar.

O atual descalabro do setor não pode, porém, ser creditado apenas ao ministro, lembra o presidente da Academia Brasileira de Ciências, Luiz Davidovich: “É impossível avaliar a gestão do ministro independentemente de considerações sobre a postura do governo federal, e do Ministério da Economia em particular, em relação à ciência, à tecnologia e à inovação. Qualquer que fosse o ministro, sua gestão seria extremamente prejudicada pela política econômica vigente”.

Davidovich ressalta que Pontes começou a promover reuniões das Câmaras Técnicas do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, que agrega diversos ministérios e representantes das comunidades acadêmicas e empresariais. “Pode ser um passo importante para a elaboração de uma estratégia para os próximos anos. Mas, a permanecer a política econômica vigente, essa estratégia corre o risco de ser uma peça de ficção. O ministério sofre as consequências de uma política econômica equivocada, que alia uma contabilidade de planilha ­Excel a interesses eleitoreiros de curto prazo. É importante ter um foco preciso e apontar os verdadeiros responsáveis pelo desmonte do sistema nacional de CT&I”. Mas o ministro prefere viver no mundo da Lua.

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1185 DE CARTACAPITAL, EM 25 DE NOVEMBRO DE 2021.

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