Economia
O que está em jogo na primeira agenda internacional de Lula em 2026
Viagem ao Panamá combina integração regional e resposta ao novo cenário geopolítico marcado pela pressão de Donald Trump
O presidente Lula (PT) embarcou nesta terça-feira 27 para o Panamá em sua primeira agenda internacional de 2026. A viagem marca o início de um ano diplomático que tende a ser influenciado por Donald Trump na Presidência dos Estados Unidos e pela necessidade de reposicionamento da América Latina diante de um ambiente global mais instável.
No centro da agenda está a participação de Lula no Fórum Econômico Internacional da América Latina e Caribe, organizado pelo CAF, o banco de desenvolvimento da região. O evento, realizado em 28 e 29 de janeiro, busca se consolidar como um espaço permanente de debate econômico e político regional, funcionando como uma espécie de “Davos latino-americano”. O Brasil é o convidado de honra, e Lula discursará logo após o presidente panamenho, José Raúl Mulino, na sessão de abertura.
A viagem também tem objetivos econômicos concretos. Lula deve assinar um Acordo de Cooperação e Facilitação de Investimentos com o Panamá, que estabelece regras para a proteção e o estímulo a investimentos bilaterais. O país é atualmente o sétimo maior destino de investimentos brasileiros no exterior, com um estoque de cerca de 9,5 bilhões de dólares. A expectativa do governo é facilitar a circulação de capital produtivo entre os dois países.
Outro ponto estratégico da viagem é a logística. O Panamá é considerado pelo Itamaraty um hub fundamental para o comércio regional. O Brasil figura entre os principais usuários do Canal do Panamá, por onde passam aproximadamente sete milhões de toneladas de exportações brasileiras por ano. Lula também deve visitar o canal, em um gesto relevante no momento em que o tema voltou ao centro do debate internacional após declarações de Trump sobre o controle da via.
No plano regional, o fórum reunirá líderes de diferentes espectros políticos, incluindo presidentes eleitos de países como Bolívia, Equador, Chile e Jamaica. Para Lula, o encontro serve como oportunidade de diálogo com novos governos de perfil conservador e de defesa da integração latino-americana em um contexto de pressões externas e questionamentos ao sistema multilateral de regras.
Questões sensíveis como a situação da Venezuela, o avanço do crime organizado e os impactos da instabilidade política sobre investimentos devem aparecer nas conversas paralelas, ainda que não dominem a agenda oficial. A avaliação do Itamaraty é que esses temas atravessam o debate econômico e de segurança regional, especialmente diante do discurso dos Estados Unidos sobre intervenções e combate ao tráfico.
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