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O que diria Jesus Cristo?

Extremistas religiosos ofendem e perseguem um professor universitário por causa do subtítulo de uma tese

O que diria Jesus Cristo?
O que diria Jesus Cristo?
Ameaças. Vitor Cei (abaixo) mudou a rotina em nome da segurança. “Estou sendo acusado de fazer doutrinação. Nada mais longe da verdade” – Imagem: Marcio Vaccari e Acervo Pessoal
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Depois de cumprir as etapas acadêmicas e administrativas, o professor e doutor em Estudos Literários Vitor Cei assinou, na tarde da segunda-feira 7, o termo de outorga da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo, última etapa formal do processo para realizar o estágio técnico-científico na Universidade NOVA de Lisboa, em Portugal, com o estudo intitulado “O trabalho surdo da destruição: pessimismo cristão e niilismo nos primeiros romances de Machado de Assis à luz do cristofascismo bolsonarista”.

Antes de cumprir os trâmites previstos em lei, o projeto acabou, no entanto, no centro de uma controvérsia. A pesquisa, que analisará os primeiros romances do maior escritor brasileiro à luz da manipulação religiosa atual, tornou-se alvo de críticas de parlamentares bolsonaristas, ataques nas redes sociais e críticas ao uso de recursos públicos. A repercussão do projeto extrapolou o título da pesquisa e levou ao centro da discussão a autonomia universitária, a liberdade de pesquisa e os limites da atuação política sobre estudos científicos aprovados por critérios técnicos. Para Cei, a reação começou, porém, antes de o conteúdo do trabalho ser conhecido. Segundo ele, a maioria das críticas concentrou-se no título do projeto, ignorando o percurso acadêmico que antecedeu a aprovação. O estudo investiga como conceitos da filosofia e da crítica literária podem contribuir para compreender fenômenos políticos e religiosos contemporâneos. O objeto são os quatro primeiros romances de Machado de Assis: Ressurreição, A Mão e a Luva, Helena e Iaiá Garcia.

Embora tenha ganhado repercussão, o conceito de “cristofascismo” integra o debate acadêmico desde os anos 1970. Criado pela teóloga alemã Dorothee ­Sölle, o termo é utilizado por pesquisadores para analisar relações entre religião e autoritarismo. Em entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos, o teólogo Fábio Py afirma que o uso do conceito visa entender a aproximação entre setores do cristianismo e movimentos políticos de extrema-direita no Brasil. A hipótese é que o fenômeno político-religioso denominado “cristofascismo bolsonarista” possa ser compreendido à luz do pessimismo cristão e da descristianização, entendida como a perda da centralidade do cristianismo como referência ética e cultural na sociedade moderna.

Com o intuito de dirimir a polêmica, o pesquisador pretende substituir a expressão por “cristétricofascismo bolsonarista”. “Considerando que Jesus Cristo não deveria ter relação alguma com o ódio fascista, substituirei pelo conceito que elaboro a partir do neologismo ‘cristétrico’, de Waldo Motta. Assim, separo o joio do trigo: cristãos verdadeiros não são fascistas sombrios”, diz Cei. O projeto, acrescenta, dá continuidade a uma linha de pesquisa iniciada há mais de dez anos. Em 2015, ele defendeu, na Universidade Federal de Minas Gerais, a tese que originou o livro A Voluptuosidade do Nada: Niilismo e Galhofa em Machado de Assis. Mais recentemente, publicou Metafísica de Carrasco.

A expressão “cristofascismo bolsonarista” levou um deputado federal a propor uma apuração do caso

O estágio em Portugal, afirma, não foi concedido de forma automática. A proposta foi aprovada em edital público da Fapes, que selecionou pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento com base em critérios técnicos. E também foi aceita pela Universidade NOVA após cerca de dois meses de análise, período no qual foram avaliados o currículo do pesquisador, a consistência da proposta e a viabilidade acadêmica. Cei rejeita as acusações de uso ideológico de recursos públicos. “Estou sendo acusado de fazer doutrinação. Nada mais longe da verdade. Tenho colegas e alunos de diferentes orientações políticas e religiosas. Na aprovação de um projeto, os critérios são apenas técnicos.”

Entre os críticos está o deputado federal Evair de Melo, vice-líder da oposição ao governo. Para ele, o problema é o uso de dinheiro do contribuinte para financiar estudos que partem de uma conclusão ideológica pronta. “Universidade pública deve produzir conhecimento com rigor, pluralidade e relevância para a sociedade. Quando há dúvida sobre isso, é dever do Parlamento fiscalizar.”

Não se trata de impedir a pesquisa, afirma o deputado, mas de fiscalizar o uso dos recursos públicos: “Vou utilizar os instrumentos que a Câmara dos Deputados oferece para cobrar transparência e esclarecimentos. Autonomia universitária não significa ausência de controle. Toda instituição pública deve prestar contas à sociedade, especialmente quando utiliza dinheiro do cidadão.”

O professor foi atendido pela assessoria jurídica da Associação de Docentes da Ufes e recebeu orientação sobre as medidas cabíveis, entre elas a preservação de provas e o registro de Boletim de Ocorrência em razão das ameaças, que configuram crime, e das ofensas recebidas. A situação levou o docente a rever a rotina por questões de segurança. Para a Adufes, o caso integra um cenário de crescente pressão sobre universidades públicas e pesquisadores, especialmente nas ciências humanas.

A Ufes informou que o caso seguiu os trâmites previstos para qualquer docente da instituição, com aprovação nas instâncias colegiadas e encaminhamento à Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas. A universidade ressaltou que a licença para capacitação é um direito previsto em lei. Destacou ainda que a autonomia universitária, a liberdade de pesquisa e a liberdade de expressão são princípios assegurados pela Constituição e pilares do funcionamento das universidades públicas.

O estágio está mantido. Cei prepara as malas para embarcar para Portugal, onde terá 90 dias para desenvolver a pesquisa. A repercussão do caso, acredita, ultrapassa sua trajetória pessoal. “Não sou o primeiro nem serei o último professor a sofrer perseguição de grupos autoritários.”

O caso recoloca em debate um princípio da atividade científica: pesquisas podem ser criticadas e contestadas, mas sua avaliação deve ocorrer com base em critérios acadêmicos e institucionais, sem que pesquisadores sejam alvo de intimidação ou ameaças em razão do objeto de seus estudos. •

Publicado na edição n° 1423 de CartaCapital, em 29 de julho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O que diria Jesus Cristo?’

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