Política
O lado do juiz
Esperança da oposição, o ministro André Mendonça expande os negócios do Iter, seu instituto de ensino
Juiz dos inquéritos sobre as falcatruas do finado Banco Master e os descontos indevidos nos pagamentos a aposentados, André Mendonça tornou-se o mais popular ministro do Supremo Tribunal Federal, segundo pesquisa recente. Um veterano analista desse tipo de levantamento diverte-se diante da pretensão de se medir o ibope de togados supremos em um país onde 60% dizem não gostar nem se informar sobre política. Pretensões à parte, Mendonça é de fato querido em um certo grupo de brasileiros. Coleciona amigos na oposição a Lula, até ganha medalhas e dinheiro graças a essas relações. E estas aproveitam os laços para tentar proteger-se de escândalos e tramar contra o governo.
Um dia após a Páscoa, Mendonça, “terrivelmente evangélico” conforme aquele que o colocou no STF, Jair Bolsonaro, recebeu um “colar de honra” na Assembleia Legislativa de São Paulo. A homenagem havia sido proposta por outro crente, o deputado estadual Oseias de Madureira, do PL do capitão. Na plateia da solenidade estavam o governador Tarcísio de Freitas e o prefeito da capital, Ricardo Nunes. Mendonça é uma “esperança no deserto”, declarou Freitas, modo metafórico de dizer que só ele se salva no Supremo. A Corte, como se sabe, é tida pela oposição como inimiga.
O magistrado entrou no STF em dezembro de 2021 e, segundo um colega de Corte, é o “mais ideológico” do tribunal. Em outubro de 2023, montou um instituto para fazer negócios na área educacional, o Iter. Em manifestações públicas, como no dia do “colar” e um evento da OAB do Rio de Janeiro em março, disse que advogados e operadores do Direito não deveriam ter o dinheiro como objetivo de vida, enriquecer seria consequência de carreiras bem-sucedidas. Mendonça é formado em Direito, além de teólogo diplomado. No caso dele, Freitas e Nunes contribuíram para aquela consequência citada pelo juiz. A colaboração mais graúda até agora vem, no entanto, de um prefeito enrolado no escândalo do Master. Esse capítulo fica para mais tarde. De volta a Freitas e Nunes.
A empresa do magistrado registra impressionantes avanços a partir de 2024
Em setembro de 2024, a Casa Militar do governador contratou um curso de três dias oferecido pelo Iter sobre a Lei de Licitações. Acordo firmado sem licitação, aliás, com base em regras de inexigibilidade de concorrência. Valor: 9.720 reais. Freitas é amigo de Wagner do Rosário, ministro da Controladoria-Geral da União nos governos Michel Temer e Bolsonaro. Mendonça foi assessor especial de Rosário na CGU no tempo de Temer. O então chefe trabalhou para sua nomeação à Advocacia-Geral da União do capitão. E foi na AGU que o pastor presbiteriano caiu nas graças de Bolsonaro. A propósito, Freitas não largou Rosário na estrada. Botou-o em seu secretariado e, depois, no Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, onde está hoje.
O contrato do Iter com o estado de São Paulo foi modesto, de importância mais simbólica e curricular. O time de Nunes, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Trabalho, comprou o mesmo curso e igualmente pagou pouco: 3.168 reais. Dali um ano, a cifra seria mais gorda. A Secretaria de Gestão paulistana desembolsou 380 mil reais por um curso do Iter de três meses sobre governança, gestão estratégica e fiscalização em contratações públicas. Mais uma vez, sem concorrência.
O Iter passou por reformulações em 2024 para expandir-se enquanto negócio, conforme informações da Junta Comercial do Estado de São Paulo. Permitiu-se atuar como holding, com participações acionárias em outras empresas. E deixou de ser uma sociedade limitada para se tornar uma por ações. Mendonça e a esposa abriram mão de 22,5% do capital e dividiram o bolo com quatro sócios. Dois trabalham com o juiz no STF: Rodrigo Hauer, chefe de gabinete do magistrado, função também exercida quando Mendonça era ministro da Justiça, e Tercio Tokano, assessor do gabinete e concursado da AGU, a exemplo de Mendonça. Cada um tem 5% da companhia. É o porcentual de Danilo Dupas, comandante, na era Bolsonaro, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, órgão responsável pelo Enem. Dupas deixou o Inep quando Victor Godoy assumiu a pasta da Educação no último ano do capitão no poder.
Vorcaro. O ex-banqueiro negocia delação premiada e a oposição, metida até o pescoço no esquema, busca formas de jogar o escândalo no colo de Lula – Imagem: Redes Sociais
Godoy completa o quarteto de sócios de Mendonça, com 7,5% do Iter. É servidor de carreira da CGU. Na Controladoria, há uma bolsa de apostas sobre quem seria o ministro em caso de vitória de Flávio Bolsonaro na eleição. Godoy figura na lista. Ele toca o dia a dia do instituto de Mendonça, na condição de presidente com mandato até setembro de 2027. É quem costuma assinar os contratos. O instituto celebrou 54 parcerias com órgãos públicos até o mês passado, conforme o Portal Nacional de Contratações Públicas, no valor somado de 4,7 milhões de reais.
O maior dos acordos equivale a 25% do total. É de 1,228 milhão de reais. Foi celebrado em julho de 2025 com o Consórcio Intermunicipal da Região Oeste Metropolitana de São Paulo, com validade de um ano. Cabe ao Iter oferecer cursos e palestras sobre direito e administração pública na escola de governo do Cioeste. Pelo consórcio, quem assinou foi seu presidente, Guto Issa, do PSD, prefeito de São Roque, um dos 14 municípios da associação. Em 2024, o Instituto de Previdência Social dos Servidores Municipais de São Roque aplicou 93 milhões de reais em letras financeiras do Master, um tipo de título que não tinha cobertura do Fundo Garantidor de Crédito. Entre as prefeituras brasileiras, só Maceió injetou quantia maior no banco: 97 milhões.
Naquele 2024, a instituição financeira sofreu um “agravamento do risco de liquidez”, pois “passou a não conseguir rolar a totalidade dos vencimentos das captações”. É o que dizia o Banco Central em um relatório de outubro de 2025. No mês anterior, o BC tinha liquidado o Master, enquanto a Polícia Federal prendia pela primeira vez o dono, Daniel Vorcaro. Em razão da liquidação, quem havia investido em papéis do Master cobertos pelo FGC recuperou até 250 mil. Quem tinha aplicado acima dessa cifra ou em títulos sem lastro no fundo tomou prejuízo. Foi o caso do São Roque Prev. Em janeiro deste ano, um morador da cidade moveu uma ação popular contra a entidade previdenciária, seus gestores, o Master, Vorcaro e o prefeito. O processo corre na 1ª Vara Cível da cidade. Issa tem dito que não possuía ingerência sobre a instituição.
Sóstenes Cavalcante e Rogério Marinho se gabam das “dobradinhas” com o ministro
CartaCapital questionou Mendonça, via assessoria de imprensa do Supremo, sobre a situação de relatar o inquérito do Master e ser sócio de um instituto financiado por uma prefeitura (o Cioeste é bancado com verba dos associados) que participou da operação para salvar o banco. Não houve resposta. Também não houve resposta sobre duas, digamos, amizades alardeadas por congressistas bolsonaristas que agem para proteger a oposição e empurrar para o governo os abacaxis dos escândalos do Master e do INSS. Um dos parlamentares é Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara dos Deputados. O outro é Rogério Marinho, líder do partido no Senado.
Em novembro do ano passado, Cavalcante tomou café da manhã com um interlocutor a quem contou a estratégia da oposição na CPI do INSS. O deputado, evangélico como Mendonça, comentou que era o melhor amigo do juiz em Brasília e que os planos oposicionistas estavam combinados com o togado. A ideia era arrastar a família de Lula para o centro do escândalo. O alvo inicial era a primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja. Logo apareceria um alvo melhor: Fábio Luís da Silva, filho mais velho de Lula. Em dezembro, a bancada da oposição na CPI tentou aprovar a convocação do primogênito do presidente para depor. No início de 2026, Fábio teve os sigilos bancário e fiscal quebrados pela comissão e por Mendonça, neste caso a pedido da Polícia Federal.
Cerca de três meses antes da quebra, o ministro havia empregado em seu gabinete um delegado federal de sua confiança. Thiago Marcantonio Ferreira havia integrado a equipe de Mendonça no Ministério da Justiça. Por ter ocupado cargos de confiança no tempo de Bolsonaro, Ferreira possuía informações valiosas no início do governo Lula. O atual chefe da PF, Andrei Rodrigues, teria tentado fazer um acordo com ele, diz um delegado. Um bom cargo na corporação em troca de informações sobre Bolsonaro. O delegado não topou e acabou escanteado. Resultado: enxerga em Rodrigues um desafeto.
Relações. Issa, prefeito de São Roque, jogou pela janela a aposentadoria de servidores públicos e contratou a “escolinha” de Mendonça. Nogueira conta com a gratidão do juiz – Imagem: Redes Sociais e Edilson Rodrigues/Agência Senado
Marinho, por sua vez, alardeia em almoços em Brasília que conversa com Mendonça sobre o caso Master e a possível delação de Vorcaro. Sinal de que a oposição faz o que pode para direcionar ao governo Lula eventuais acusações. Ciro Nogueira, colega de Senado, ex-ministro de Bolsonaro e fã do governador paulista, tem motivo para se preocupar com a delação. Na hora do aperto do Master, em 2024, propôs no Congresso mudar a Constituição para ampliar o limite do FGC a 1 milhão de reais, maneira de dar fôlego ao finado banco. Segundo uma autoridade em Brasília, a PF sondou Mendonça sobre a situação de Nogueira. O ministro teria dito ser preciso separar lobby de “corrupção”. O senador deve ter respirado aliviado.
Nogueira foi importante na nomeação de Mendonça para o Supremo. Bolsonaro o escalou na Casa Civil no fim de julho de 2021 e, no início de agosto, mandou ao Senado a indicação de Mendonça para o STF. O indicado ficou quase quatro meses na chuva, antes de ter a sabatina marcada pela Comissão de Constituição e Justiça, comandada à época por Davi Alcolumbre, atual presidente da Casa. Como ministro, Nogueira atuou para contornar a resistência de Alcolumbre. Este faz agora jogo duro com outro escolhido para o Supremo: Jorge Messias, o ministro da AGU de Lula. Messias também é evangélico e conta com o apoio de Mendonça. Até prestigiou a cerimônia de entrega do “colar” ao ministro na Assembleia Legislativa paulista. Mendonça, não se pode negar, está na crista da onda. •
Publicado na edição n° 1408 de CartaCapital, em 15 de abril de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O lado do juiz’
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