Política
O filho pródigo
Depois de breve afastamento, Moro volta aos braços do bolsonarismo para disputar o governo estadual
Após uma ruidosa ruptura em 2020, alimentada pela acusação de que Jair Bolsonaro trocou o comando da Polícia Federal para proteger o filho primogênito das investigações das “rachadinhas”, o ex-juiz Sergio Moro reatou relações com o clã. Na terça-feira 24, Moro reapareceu sorridente, de mãos dadas com o mesmo Flávio Bolsonaro que esteve no epicentro da crise que o levou a abandonar o Ministério da Justiça – gesto que sugere que certas divergências, mesmo as mais constrangedoras, podem ser revistas à luz das conveniências políticas. Agora filiado ao PL, Moro retorna ao grupo que um dia acusou de cometer “estelionato eleitoral” e de trair o combate à corrupção, desta vez como candidato ao governo do Paraná.
“Política se faz com pessoas de palavra, me sinto respaldado dentro do PL”, discursou Moro, sem disfarçar o ressentimento com seu antigo partido, o União Brasil. O presidente da legenda, Antônio Rueda, havia prometido apoiá-lo na disputa pelo Palácio Iguaçu, mas não moveu uma palha após aliados da federação com o PP vetarem o nome. Ainda sem palanque no estado, Flávio Bolsonaro não hesitou em oferecer ao senador abrigo no PL. Não seria a primeira vez que o ex-magistrado atuaria como cabo eleitoral para a família – mesmo de toga, fez campanha escancarada em favor do chefe do clã em 2018. “O Paraná não vai faltar ao seu projeto presidencial”, prometeu Moro, com sua habitual subserviência.
Como nos tempos da Lava Jato, Moro fará dobradinha com Deltan Dallagnol, pré-candidato do PL ao Senado. O ex-procurador da República teve o mandato de deputado federal cassado em 2023 pelo Tribunal Superior Eleitoral por burlar as regras da Lei da Ficha Limpa, mas conseguiu escapar da inelegibilidade. A chapa “puro-sangue” se completa com Filipe Barros, que se notabilizou na Câmara por apresentar projetos em favor do Banco Master. Em 2024, o deputado propôs ampliar o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para até 1 milhão de reais por investidor, medida semelhante à emenda do senador Ciro Nogueira (PP), efusivamente celebrada pelo banqueiro Daniel Vorcaro, segundo mensagens interceptadas pela Polícia Federal. Agora, Barros pretende disputar uma vaga no Senado, completando o dream team da República de Curitiba.
O “respaldo” dos colegas do novo partido não é tão sólido quanto Moro imagina. Até então presidente do diretório estadual do PL, o deputado federal Fernando Giacobo anunciou desfiliação e conclamou prefeitos à debandada. Ele diz que continua apoiando Flávio Bolsonaro, mas trabalhará para eleger, no estado, o sucessor escolhido por Ratinho Júnior.
O ex-juiz fará dobradinha com Deltan Dallagnol, deputado cassado e agora candidato ao Senado pelo PL
Seja como for, a pré-candidatura de Moro precipitou o fim da aventura presidencial do governador paranaense. Embora ostente uma gestão bem avaliada, Ratinho Jr. permanece um ilustre desconhecido na maior parte do País e jamais alcançou dois dígitos nas intenções de voto. Após Bolsonaro lançar o próprio filho, seus números encolheram ainda mais. A chamada “terceira via”, encarnada por governadores bolsonaristas preteridos, existe apenas na imaginação de quem confunde torcida com análise política.
Na segunda-feira 23, o governador anunciou que desistiu de concorrer ao Palácio do Planalto e permanecerá no Palácio Iguaçu até o fim do mandato. Dos três “presidenciáveis do PSD”, restaram Ronaldo Caiado (Goiás) e Eduardo Leite (RS), com porcentuais ainda mais inexpressivos. Ratinho Jr. disse que pretende eleger um sucessor, objetivo ameaçado não apenas pela movimentação de Moro, mas também por fissuras em sua própria base. A saída do ex-prefeito de Curitiba Rafael Greca do PSD para o MDB é emblemática: além de deixar o partido, lançou-se pré-candidato ao governo estadual, fragmentando ainda mais o campo político que orbitava em torno de sua liderança.
A movimentação escancara a incapacidade do grupo governista de manter coesão em momento decisivo. Sinais de desgaste se acumulam. Outras lideranças do PSD, como o deputado Alexandre Cury, presidente da Assembleia Legislativa, já avaliam trocar de legenda. Nesse cenário, a dificuldade de consolidar um sucessor competitivo salta aos olhos. O nome preferido do governador, o secretário das Cidades Guto Silva, ainda não se firmou como candidatura viável, patinando na casa dos 7% nas pesquisas mais recentes.
Na oposição, a força crítica deve vir de Requião Filho (PDT), que, apoiado por PT, PCdoB e PV, concentra ataques às privatizações e à gestão de Ratinho Jr. em áreas como educação e meio ambiente. Até agora, essas críticas tiveram alcance limitado diante da concentração da mídia paranaense – controlada em grande parte pela família do governador – e da máquina estatal, que moldam o debate e silenciam temas incômodos. Com o início do horário eleitoral gratuito, o campo progressista espera furar esse cerco, levando suas denúncias e propostas diretamente ao eleitorado.
A principal ameaça continua sendo Sergio Moro. Apesar de já enfrentar rebelião de aliados, ele elegeu-se senador pelo Paraná com 33,5% dos votos válidos em 2022, lidera pesquisas para o governo estadual e conta com o prestígio do bolsonarismo na República de Curitiba – no segundo turno presidencial, 55,26% dos paranaenses votaram em Bolsonaro.
Para Emerson Cervi, professor de Ciência Política da UFPR, a aliança do ex-juiz com figuras que antes criticava – entre elas Valdemar Costa Neto, presidente do PL, outrora apontado como “mensaleiro” – pode afastar parte do eleitorado que o apoiou por convicção ética, mas o efeito é limitado. “Moro tem mais a ganhar com a adesão do núcleo fiel do bolsonarismo”, sugere Cervi. O especialista adverte, porém, que não bastará repetir, no plano estadual, o discurso nacional contra o PT ou Lula. Ao mirar a corrupção, inevitavelmente terá de criticar o próprio governo Ratinho Jr., elevando tensões e riscos eleitorais.
Para a oposição, outro fator que pode ter pesado na desistência do governador é o escândalo do Banco Master. O deputado estadual Arilson Chiorato (PT) lembra que o Fundo Bordeaux, controlado por Nelson Tanure, arrematou a estatal Copel Telecom por 2,39 bilhões na B3, em 2020. A Polícia Federal suspeita que Tanure tenha atuado como “sócio oculto” do banqueiro Daniel Vorcaro, preso em março na terceira fase da Operação Compliance Zero. “Uma eventual delação de Vorcaro poderia gerar problemas de grande impacto”, conjectura Chiorato. O desfecho segue incerto e o segundo turno promete fortes emoções e possíveis reviravoltas. •
Publicado na edição n° 1406 de CartaCapital, em 01 de abril de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O filho pródigo’
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