Política
O figurino final
Campanha à reeleição terá Lula contra os poderosos e o “sistema”, foco na soberania nacional e promessa de um robusto legado
A menos que um tsunami chacoalhe o Brasil em 2026, a economia terá crescido mais no atual governo do que naqueles iniciados em 2015 (Dilma 2/Temer) e 2019 (Bolsonaro). A inflação em quatro anos será a menor na era do Plano Real. O desemprego está no patamar mais baixo e o salário é recorde. São motivos para Lula começar animado e confiante o ano de sua última batalha eleitoral da vida, o da despedida das urnas. Conquistar um quarto mandato, raríssimo em nações presidencialistas, será um tira-teima. O octogenário presidente coleciona três vitórias e três derrotas. As linhas mestras de seu figurino na campanha estão praticamente definidas. Ele será retratado como um governante que enfrenta os poderosos e o “sistema”, em nome do povão e da diminuição da pornográfica desigualdade social brasileira. O chefe de uma nação soberana que não abre mão do leme nem diante das pressões da maior potência militar e econômica do mundo. Um líder político que lutará para deixar uma herança histórica, tal qual Getúlio Vargas, o pai da industrialização nacional.
Lula quer legar uma mudança estruturante, que possa ser ensinada nas escolas e nos livros como algo marcante na vida do País e dos brasileiros. Ele encomendou a integrantes do governo e do PT que estudem certos assuntos e preparem um cardápio de legados potenciais e de promessas eleitorais. Temas que interessam ao presidente, conforme um de seus articuladores políticos, são a diminuição da jornada de trabalho, a exploração de terras-raras, o combate ao aquecimento global, o desenvolvimento da Inteligência Artificial e a industrialização. É possível que tudo seja embalado em um pacote único para ser exibido como sua herança, mas falta saber o nome do pacote. “Como dar um salto de qualidade” no País e no dia a dia da população é um pensamento que não larga o líder petista, como demonstrado uma semana antes do Natal, em um misto de café da manhã e entrevista com jornalistas no Palácio do Planalto.
Naquela ocasião, Lula disse: “O País está pronto e a economia está pronta para o fim da escala 6 por 1”. Encurtar o expediente do trabalhador desponta em estágio adiantado como promessa de campanha e um legado possível. O pronunciamento presidencial natalino na tevê proclamou: nenhum direito é mais urgente hoje do que o direito ao tempo. “Não é justo que uma pessoa seja obrigada a trabalhar duro durante seis dias e que tenha apenas um dia para descansar o corpo e a cabeça, passear com a família, cuidar da casa e se divertir, e acompanhar de perto o crescimento dos filhos”, afirmou o petista. Lula cogita mandar ao Congresso uma proposta de jornada menor. Torce para que sindicalistas cheguem a um acordo entre si sobre qual seria a melhor, para então pautar o debate com empresários em um órgão vinculado ao Planalto, o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social.
O tarifaço de Trump foi um presente, ajudou a melhorar a popularidade do presidente
Juristas do PT acham possível reduzir a jornada sem precisar alterar a Constituição. Mexer no texto constitucional é mais difícil, e os parlamentares são sempre, digamos, sensíveis às causas patronais – muitos são, eles próprios, empresários. Uma lei ordinária requer menos votos de deputados e senadores para virar realidade. “O governo está decidido a colocar isso como prioridade, queremos pautar e votar ainda em 2026”, diz o deputado Lindbergh Farias, do Rio, líder do PT na Câmara. “Lula está no melhor momento dele, um momento de muita coragem pessoal, querendo fazer coisas para a História, está mais ousado.” Ministro do Desenvolvimento Agrário e deputado pelo PT paulista, Paulo Teixeira avalia que a redução da jornada é uma proposta capaz de empolgar a juventude, que pelas pesquisas não está no grupo de maior aprovação a Lula. Deu certo na disputa municipal de 2024 com um candidato a vereador na cidade do Rio de Janeiro, o ex-balconista Rick Azevedo, campeão de votos do PSOL no estado.
O projeto do PT para o País e as ideias do partido para o programa de Lula na eleição serão delineados em abril, no 8º Congresso Nacional do partido. Um servidor público a par dos estudos encomendados por Lula aposta em uma plataforma “bem progressista” do futuro candidato à reeleição. Por exemplo, melhora na qualidade de vida e da mobilidade nas grandes cidades, eliminação do déficit habitacional e soberania digital.
Esta última é tida pela Agência Brasileira de Inteligência como um fator de risco ao Brasil no ano. São cinco as ameaças identificadas pela Abin, quatro ligadas à tecnologia. Uma é a repetição da descrença de 2022 sobre o processo eleitoral, um fenômeno com o dedo de big techs, que deram longo alcance à lorota bolsonarista sobre fraude. As demais são ataques cibernéticos por Inteligências Artificiais autônomas, transição para criptografia pós-quântica e dependência tecnológica. É no capítulo “dependência tecnológica” que se concentra o alerta da agência sobre “soberania digital”. Não basta aprovar leis regulatórias. É necessário montar infraestruturas nacionais próprias, como nuvens para armazenar dados. Do contrário, o Brasil estará sempre à mercê de empresas estrangeiras.
Os ministros Wellington Lima e Silva, Sidônio Palmeira e Guilherme Boulos são peças-chave na estratégia da campanha à reeleição – Imagem: Ricardo Stuckert/PR, Valter Campanato/Agência Brasil e Tomaz Silva/Agência Brasil
Em fevereiro, Lula fará uma visita oficial à Índia e aproveitará para ir a um seminário sobre IA. Na última viagem à China, em maio do ano passado, ficou impressionado com a tecnologia de ponta por lá, com o silêncio relativo da populosíssima Pequim, graças à frota de carros elétricos. Estes não emitem sons explosivos, pois seus motores não usam gasolina.
Há outra “soberania” que certamente Lula levará para a campanha: a nacional. A bandeira caiu-lhe no colo graças a Donald Trump. O “tarifaço” nas exportações brasileiras e a tentativa do norte-americano de intimidar o Judiciário local para salvar Jair Bolsonaro da cadeia ajudaram a melhorar a popularidade do presidente. A resistência ao ataque à soberania foi explorada nos festejos do 7 de Setembro no ano passado. A consultoria global Eurasia acha que Trump recuou parcialmente do “tarifaço” e das sanções por perceber que, no fim das contas, tinha beneficiado Lula.
Um colaborador presidencial concorda com a avaliação da Eurasia, mas acrescenta: o passo atrás da Casa Branca também ajudou Lula. Para ele, a eleição será marcada como nunca pela política externa. A absurda intervenção dos EUA na Venezuela por causa do petróleo e a cobiça de Trump pela Groenlândia de olho em terras-raras, aqueles minerais valiosos em tempos de transição energética, alimentam as análises lulistas. Os eleitores serão colocados diante da seguinte escolha, na visão do colaborador: querem um governo autônomo ou dócil com Washington?
“A economia está pronta para o fim da escala 6×1”, afirma Lula, que decidiu encampar a proposta
Lula está em lua de mel com Trump e não irá chamá-lo para a briga, ao menos enquanto a “química” entre ambos durar. Não citou o norte-americano nos comentários públicos sobre a Venezuela. Nos bastidores, admite ir aos EUA encontrá-lo ainda no primeiro trimestre, caso a situação diplomática permita. Tem esperanças de tirar do papel uma cooperação entre os dois países no combate ao crime organizado e ao tráfico de drogas, proposta feita a Trump em dezembro, em um telefonema. O que não significa ser ingênuo sobre o que interessa a Washington em outubro.
“A meca da extrema-direita são os EUA. E o Brasil será a grande eleição para a extrema-direita em 2026”, comenta aquele colaborador. Avaliações internas no Planalto dizem que Trump pode até não atuar pessoalmente contra Lula, mas os extremistas que o apoiam sim, via fundações, think tanks e big techs. Não é à toa que a Abin elenca “interferência externa” na eleição como um risco ao País.
Edinho Silva, presidente do PT e provável coordenador do comitê político da reeleição, acredita que uma vitória de Lula terá importância para a democracia no Ocidente em geral e na América do Sul, em particular. O motivo? Conter o avanço da extrema-direita. Em várias partes do mundo, os cidadãos exercem o direito ao voto, mas sentem que suas vidas continuam as mesmas, na visão de Edinho, daí o apelo eleitoral cada vez maior dos extremistas. A concentração de renda é um problema que “o mundo hoje não tem coragem de enfrentar”, comenta o petista, mas Lula, sim, vide a vigência desde o dia 1º de janeiro do fim do Imposto de Renda sobre salários de até 5 mil por mês e do aumento da taxação dos milionários.
A Faria Lima é o verdadeiro “sistema” a ser desafiado, enfatizam os lulistas – Imagem: iStockphoto
Botar o rico no Imposto de Renda e tirar o “Leão” de cima dos assalariados que ganham menos foram promessas de Lula na campanha de 2022. A luta do governo para aprová-las em 2025 ajudou o ministro da Comunicação Social, Sidônio Palmeira, a construir a imagem de um presidente que tem “lado” e “peita o sistema”, expressões usadas pelo publicitário dia 11 em um artigo publicado na Folha de S.Paulo. Essa imagem será levada à campanha da reeleição, da qual Sidônio será o “marqueteiro”, como também foi em 2022.
Na chegada ao Planalto, há exatamente um ano, Sidônio e sua equipe acreditam ter encontrado a comunicação governamental incapaz de mostrar que Lula tinha “lado”. O objetivo principal do trabalho de lá para cá tem sido mostrar o “lado” do presidente. “A direita não tem razão, mas ideologia. Faltava isso ao governo. Demarcar território ideológico gera adesão”, diz um dos estrategistas palacianos. O fato de o presidente ter sido “forjado na luta de classes”, prossegue o estrategista, facilitou as coisas. Lula abraçou, e Sidônio o influenciou nisso, além de idealizar o tratamento publicitário, propostas como Luz do Povo e Gás do Povo, de energia elétrica e botijão gratuitos para a baixa renda, e CNH do Brasil, que barateia a obtenção da carteira de motorista.
Sidônio tem feito sua parte para tentar recolocar no devido lugar o “sistema” que Lula “peita”. Essa bandeira, tradicionalmente na mão das esquerdas, foi tomada pela extrema-direita no Brasil e no mundo nos últimos tempos. Guilherme Boulos, o secretário-geral da Presidência, teorizou a respeito no livro Pra Onde Vai a Esquerda? (Ed. ContraCorrente), de 2025. “Não há nada mais sistêmico do que a direita. Eles sempre foram os porta-vozes das grandes corporações de bilionários e os representantes políticos mais aguerridos de seus interesses. Por isso, para apresentar sua luta como antissistema, a extrema-direita fez uma operação ideológica – que não deixa de ter sua genialidade – de modificar o conceito de sistema”, observa. “Deslocaram a definição do poder econômico para o poder político e as tendências culturais”, para “as instituições e os defensores da democracia.”
Perder votações no congresso pode ser bom para Lula, caso as “ruas” achem justa a posição derrotada
O campo progressista tem condições de desfazer a operação ideológica, segundo Boulos, e explicar aos cidadãos que, no capitalismo, o “sistema” são os bilionários, bancos, fundos, big techs e corporações gigantes. Basta apelar “à realidade”. Em setembro passado, Sidônio participou de uma audiência pública na Câmara dos Deputados e foi indagado pelo petista gaúcho Bohn Gass sobre como enfrentar a propaganda da extrema-direita de que Jair Bolsonaro é “o cara antissistema, enquanto nós somos do sistema”. Resposta: “A gente tem lado, e a bandeira antissistema é antissistema dos poderosos. É 99,9% contra 0,1% (…) É inadmissível, num País como este, que uma pessoa que compra uma moto para trabalhar pague imposto, e a pessoa que compra um jato não pague”.
Os embates do governo com o Congresso no ano passado fizeram parte do plano de posicionar Lula na trincheira de combatente do “sistema” e dos poderosos. Foi assim na aprovação, contra certa má vontade parlamentar e do tal “mercado”, do novo Imposto de Renda. Idem em polêmicas sobre blindagem de congressista fora da lei, aumento do número de deputados, anistia ou alívio de penas para golpistas. No primeiro biênio de Lula, o Planalto evitava trombar com deputados e senadores. Mudou de atitude em 2025, com a chegada de Sidônio à comunicação, de Gleisi Hoffmann à coordenação política e de Lindbergh à liderança petista na Câmara. Um trio entrosado, que acredita que perder votação pode ser bom para Lula, caso “as ruas” entendam que a posição derrotada era a justa.
A escolha do novo ministro da Justiça deve ser entendida pela ótica do enfrentamento aos poderosos. Wellington César Lima e Silva é promotor de carreira, atuou muito tempo na Bahia. Foi ministro por dez dias, no abreviado segundo mandato de Dilma Rousseff, indicado pelo mesmo grupo político que agora bancou sua nomeação, o PT baiano do senador Jaques Wagner e dos ministros Rui Costa (Casa Civil) e Jorge Messias (Advocacia-Geral da União). A prioridade dele é manter a mira no alto crime organizado e nas finanças dessa turma. Esperam-se operações da Polícia Federal como a Carbono Oculto, que atingiu conexões do PCC na Faria Lima, e a Compliance Zero, contra “a maior fraude bancária” da história brasileira, como definiu o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ao comentar o escândalo do Banco Master. “O crime não está só na favela, está no andar de cima e é de colarinho branco também”, ressalta Lindbergh.
Tarcísio de Freitas teme trocar a reeleição ao governo paulista pela aventura presidencial. O sobrenome faz Flávio Bolsonaro despontar nas pesquisas, mas também afasta os eleitores independentes – Imagem: Ezequiel Afonso/GOVSP e Evaristo Sá/AFP
A construção da imagem de um presidente que defende o “povão” e enfrenta os “poderosos” empurrava o lulismo, no fim do ano passado, a preferir Tarcísio de Freitas, o governador de São Paulo, como o rival principal nas urnas. Ao menos até a entrada de Flávio Bolsonaro em cena. Com Tarcísio no páreo, “não vai ter um empresário sequer apoiando o presidente”, comenta um ministro. Para um dos articuladores políticos do Planalto, “Tarcísio se encaixa melhor” como anti-Lula, diante daquilo que tem sido preparado para a campanha à reeleição. Em entrevista a CartaCapital em dezembro, Boulos falou do script. “O candidato da direita e do sistema será Tarcísio de Freitas, é o candidato da Faria Lima, dos bancos, das fintechs, das bets, do bolsonarismo.”
De quebra, Tarcísio como presidenciável daria esperanças ao PT de vencer a eleição para governador de São Paulo com um nome próprio (Haddad deixará a Fazenda até o fim de janeiro) ou em uma coligação (o pessebista Geraldo Alckmin, vice de Lula, é o preferido, só falta combinar com o próprio). “O Tarcísio vai raciocinar até o último momento se vai se licenciar do governo para tentar a Presidência e arriscar o que hoje é a fortaleza deles (da oposição)”, afirma Paulo Teixeira. Por “fortaleza”, entenda-se o maior eleitorado nacional, 22% do total. José Dirceu, o ex-ministro de Lula que concorrerá a deputado, está convencido de que o desempenho petista em São Paulo foi decisivo para o triunfo do presidente em 2022. Tanto Lula quanto Haddad ganharam na capital – o ministro, que disputou contra Tarcísio, venceu inclusive na Grande São Paulo.
O governador não abandonará o Palácio dos Bandeirantes para aventurar-se na corrida presidencial. É o que garante um assessor do círculo íntimo de Tarcísio. Mudará de ideia apenas na hipótese de Bolsonaro pedir que concorra. Ele aposta que ninguém baterá Lula. A primeira pesquisa do ano feita por um dos institutos mais conhecidos, o Quaest, aponta um cenário complicado para o direitismo. Flávio tem mais voto do que qualquer anti-Lula, graças ao sobrenome. Mas o sobrenome pesa negativamente entre eleitores que se declaram independentes. De modo geral, o brasileiro tem mais medo de uma volta do bolsonarismo ao poder do que da continuidade de Lula, apesar de a avaliação negativa do presidente e seu governo superar a positiva.
A tática petista na eleição será definida em abril, no 8º Congresso do partido. Vai variar conforme aquele que seja visto como o competidor principal. A polarização política é um dado da realidade, é certo que qualquer oponente de Lula terá votação parruda. “Mas o adversário interessa muito pouco”, avalia Edinho Silva. “O que interessa é a situação em que o governo vai chegar.” Uma campanha, comentou Lula no café-entrevista de dezembro, é sempre “tensa”, “nervosa” e a política na atualidade “está muito enraivecida”. O que não o impediu de vaticinar: “Nós vamos ganhar”. •
Publicado na edição n° 1396 de CartaCapital, em 21 de janeiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O figurino final’
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