Política
O fator Michelle
Principal ativo do PL entre as mulheres, a ex-primeira-dama virou um problema para a campanha de Flávio Bolsonaro
Pré-candidato à Presidência pelo PL, Flávio Bolsonaro corre contra o tempo para reverter os estragos causados pela madrasta, Michelle Bolsonaro, em sua campanha. Além de expor divergências políticas, a ex-primeira-dama acusou o enteado de tratá-la de forma ríspida e desrespeitosa, o que pode ter minado os esforços do senador para reduzir a desvantagem em relação a Lula junto ao eleitorado feminino. Na quarta-feira 8, a pesquisa Ideia/Meio deu algumas pistas sobre o impacto da crise na disputa. De acordo com a sondagem, 58,7% dos brasileiros acompanharam ou ficaram sabendo da desavença familiar. Destes, dois terços acreditam no relato de Michelle ou avaliam que suas declarações são mais verdadeiras do que falsas.
Por ora, a confusão não chegou a influenciar a decisão de voto. O cenário permanece praticamente inalterado em relação à sondagem anterior, divulgada no fim de maio, o que não deixa de ser uma má notícia para quem está atrás no placar. Nas projeções de segundo turno, Lula figura com 45% das intenções de voto, enquanto Flávio marca 40%. “A principal diferença entre eles vem exatamente do gap de gênero. O voto feminino, se as eleições fossem hoje, seria fundamental para a reeleição do presidente”, observa Cila Schulman, CEO do Instituto Ideia.
Os números da pesquisa confirmam claramente essa percepção. Se apenas os homens pudessem votar, como sonha o influenciador Paulo Figueiredo, neto do ditador João Baptista Figueiredo e uma espécie de porta-voz do clã Bolsonaro nos EUA, Flávio estaria com 46,3%, 7 pontos porcentuais à frente de Lula (39,2%). São as mulheres que garantem a dianteira do líder petista. No eleitorado feminino, o presidente tem 50,4% das intenções de voto, mais de 16 pontos à frente do senador (34,2%).
Seis em cada dez brasileiros acreditam que a madrasta falou a verdade, indica a pesquisa Meio/Ideia
Figueiredo, por sinal, conseguiu a proeza de amplificar a crise ao afirmar que as mulheres votam mal, “principalmente as solteiras”, enquanto as casadas “tendem a acompanhar o voto do marido”. Diante da repercussão negativa, o blogueiro apelou à galhofa misógina: “Deixa eu me retratar: mulher não vota muito mal, mulher vota mal para c…”. Flávio demorou seis dias para criticar a declaração do aliado, rejeitada por 75% das brasileiras, segundo a pesquisa Ideia/Meio. O candidato não deveria se surpreender, portanto, com a recepção fria que teve, no início de julho, durante um café da manhã com lideranças conservadoras em Brasília. Michelle, que deixou o comando do PL Mulher e cogita desistir da candidatura ao Senado, não compareceu ao esvaziado encontro. Também se ausentaram as senadoras Damares Alves (Republicanos), Tereza Cristina (PP) e Margareth Buzetti (PP), além da governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP).
Dizer que as mulheres votam mal não parece ser uma estratégia inteligente para quem precisa reduzir uma desvantagem tão grande nesse segmento. Antes do Ideia, outros institutos de pesquisa, a exemplo do Datafolha e do Nexus, haviam apontado diferenças superiores a 18 pontos porcentuais entre Lula e Flávio nas intenções de voto entre as mulheres. Hoje, elas representam 52,8% dos eleitores aptos a votar, segundo o Tribunal Superior Eleitoral, e também comparecem às urnas em proporção maior que os homens – 80,20% contra 78,13%, em 2022.
“As pesquisas captam uma rejeição maior das mulheres ao bolsonarismo, especialmente pelo estilo agressivo de fazer política e pelas pautas de costumes, mas isso não representa, necessariamente, uma adesão ideológica”, pontua a cientista política Karolina Roeder, professora do Centro Universitário Internacional, no Paraná, e pesquisadora do Laboratório de Monitoramento e Avaliação de Políticas e Eleições da Uerj. “Um candidato que está quase 20 pontos atrás do adversário entre as mulheres precisa de vantagens improváveis entre os homens para compensar. Elas decidiram 2022 e tudo indica que decidirão 2026”, prevê.
Cisão. Pivô da crise no clã Bolsonaro, a vereadora Priscila Costa declarou apoio a Flávio. Tereza Cristina, Damares Alves e Celina Leão não compareceram ao encontro com mulheres promovido pelo candidato – Imagem: Carlos Moura/Agência Senado, Joel Rodrigues/GOVDF, Edilson Rodrigues/Agência Senado e Andressa Anholete
Apesar de declarar publicamente que se afastou da política para cuidar do marido presidiário, Michelle continua castigando a campanha do enteado. No início do mês, fez uma postagem nas redes sociais elogiando a Política Nacional de Educação Bilíngue de Surdos, programa lançado pelo governo Lula. As ofensivas das milícias bolsonaristas contra a ex-primeira-dama e suas aliadas, principalmente Damares Alves e Celina Leão, apenas atiçaram ainda mais a fogueira. Damares relatou ter sofrido ameaças de morte e até de estupro. Suspeita-se que as investidas tenham partido de um “gabinete do ódio” coordenado por lideranças bolsonaristas que vivem nos EUA.
Para Luciana Santana, cientista política e professora da Universidade Federal de Alagoas, a tendência é de que a campanha de Flávio Bolsonaro continue minguando entre as mulheres, sobretudo entre as indecisas. “Mesmo que ele escolha uma mulher para compor a chapa como vice, o desgaste é enorme. Depois de todos esses episódios envolvendo tanto o próprio Flávio quanto aliados, será muito difícil reverter essa percepção”, diz. Já Débora Thomé, cientista política e professora do IDP, acredita que o impacto será limitado, considerando o engajamento das bolsonaristas mais fiéis. “A ideologia antecede a forma como uma mulher decide votar. Quem é conservadora dificilmente deixará de apoiar um candidato desse campo por causa dos episódios ou migrará para a esquerda”, afirma.
Uma pesquisa qualitativa realizada no fim de junho pelo Monitor do Debate Público, projeto do Laboratório de Estudos da Mídia e da Esfera Pública da Uerj, analisou a reação de diferentes perfis ao vídeo de Michelle. O estudo ouviu 45 eleitores – entre bolsonaristas convictos e moderados, lulistas, lulistas descontentes e indecisos de perfil progressista e conservador –, das quais 24 eram mulheres. Embora a maioria tenha considerado legítima a decisão da ex-primeira-dama de tornar pública a divergência, muitos entrevistados classificaram o episódio como um “drama calculado”. Os depoimentos revelam, contudo, nuances importantes. Uma secretária de Mato Grosso, bolsonarista moderada, afirmou que a briga entre madrasta e enteado “não muda completamente minha opinião sobre o Flávio Bolsonaro, mas faz com que eu veja a situação com mais atenção e cautela”. Já uma enfermeira goiana, bolsonarista convicta, avaliou que “esse desabafo dela foi superimpulsivo e só serviu para criar uma divisão desnecessária no grupo”.
“O risco para o bolsonarismo não é uma debandada imediata do eleitorado feminino, mas algo mais sutil e potencialmente corrosivo. Episódios como o de Paulo Figueiredo podem transformar o gênero em uma chave de leitura eleitoral, que hoje ainda não é tão determinante. Michelle é o principal ativo desse campo para dialogar com esse público. Atacá-la é um tiro no pé”, avalia o cientista político João Feres Júnior, coordenador do Monitor do Debate Público. Para ele, as eleitoras indecisas seguem em disputa. “É um público sensível ao tratamento dado a Michelle. Cada sinalização de misoginia no entorno de Flávio empurra essas eleitoras não necessariamente para a esquerda, mas para longe do palanque dele.”
No eleitorado feminino, Lula lidera com mais de 16 pontos de vantagem em relação a Flávio
Pivô do desentendimento relatado por Michelle em seu vídeo, a vereadora de Fortaleza Priscila Costa, ao contrário de Damares Alves e Celina Leão, não apenas compareceu ao evento com Flávio Bolsonaro como aceitou o convite para ser a interlocutora da campanha junto às mulheres conservadoras. Isso mesmo depois de ter sido preterida na disputa pela vaga de senadora no Ceará pelo PL – que indicou Alcides Fernandes, pai do deputado federal André Fernandes, para compor a chapa de Ciro Gomes – e de ter sido impedida de assumir a presidência do PL Mulher após a renúncia de Michelle ao cargo. Priscila era vice-presidente do núcleo feminino, que o presidente do partido, Valdemar Costa Neto, decidiu extinguir.
Na avaliação do cientista político Fábio Vasconcelos, professor da Uerj e da PUC Rio, a crise escancara uma dificuldade histórica do PL em dividir espaços de poder. “O PL tem dificuldades para aceitar mulheres em posições de comando. Se Michelle foi responsável por atrair mais filiadas para o partido, era natural que também reivindicasse espaço nas decisões. Aparentemente, esse foi o impasse. Para o PL, Michelle é importante até o ponto de ampliar a presença feminina na legenda, mas não necessariamente de exercer influência no comando. Nesse momento, prevaleceu o peso das lideranças masculinas, que não abrem mão desse espaço”, afirma.
O pesquisador é autor de um estudo sobre a evolução das filiações ao PL entre 2022 e 2026, período que inclui a passagem de Michelle pelo comando da ala feminina da legenda. Segundo o levantamento, a ex-primeira-dama foi responsável pela filiação de 65 mil mulheres, um crescimento de quase 20% nesse grupo. Ainda assim, a participação feminina no partido caiu de 45% para 43%, porque a entrada de homens foi ainda maior: 122 mil novas filiações, o equivalente a um crescimento de 29% na ala masculina. Ou seja, embora Michelle tenha ampliado a presença de mulheres no PL, o movimento não foi suficiente para alterar a predominância masculina na estrutura de poder de uma legenda marcada pelo machismo.
Apesar da crise, Vasconcelos não acredita em debandada expressiva do eleitorado conservador feminino. Para ele, o maior prejuízo é político e organizacional. “Ao perder uma liderança como Michelle, fica mais difícil mobilizar um segmento que já representava um desafio para o partido.” •
Publicado na edição n° 1421 de CartaCapital, em 15 de julho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O fator Michelle’
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