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O elixir do poder

José Sarney busca atrair Lula para o palanque do MDB no estado, com a filha Roseana na disputa pelo Senado

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Patriarca. Aos 96 anos, o ex-presidente se movimenta em prol do clã familiar e exerce influência na sucessão estadual – Imagem: Agência Assembléia Legislativa do Maranhão
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Após um longo período afastado da política e dedicado às atividades da Academia Brasileira de Letras, da qual é titular da cadeira nº 38 desde 1980, o ex-presidente José Sarney voltou a exercer influência na sucessão estadual do Maranhão. Aos 96 anos, ele se movimenta para garantir a candidatura da filha, a ex-governadora e atual deputada federal Roseana Sarney, ao Senado na chapa liderada por Orleans Brandão, sobrinho do governador Carlos Brandão, todos filiados ao MDB. Mesmo após enfrentar mais de 20 procedimentos cirúrgicos para tratar diferentes tipos de câncer nos últimos anos e manter uma rotina que inclui sessões de quimioterapia, Roseana permanece ativa na vida política. Em maio, gravou inserções de rádio e televisão para seu partido e voltou a aparecer com porcentuais relevantes nas pesquisas eleitorais.

Sondagem do instituto ­Econométrica, divulgada em maio, aponta a ex-governadora com 15,3% das intenções de voto para o Senado, à frente dos demais pré-candidatos. Já uma pesquisa ­AtlasIntel, realizada no mesmo período, a coloca na quinta posição, com 6,3%. Em 19 de maio, Sarney recebeu em sua residência, em Brasília, integrantes da cúpula nacional e estadual do MDB para consolidar a candidatura da filha e discutir a estratégia eleitoral para 2026. Além de Carlos Brandão e Orleans Brandão, participaram do encontro lideranças como o presidente nacional da legenda, Baleia Rossi, e o senador Renan Calheiros, que manifestaram apoio ao nome de Roseana para a disputa.

Ao tentar viabilizar o retorno da filha ao Senado pelo palanque governista, Sarney se reaproxima de antigos adversários que ajudaram, inclusive, a quebrar o domínio de seu clã, que comandou por décadas a política maranhense. A hegemonia foi interrompida em 2014, com a eleição de Flávio Dino para o Palácio dos Leões, tendo Carlos Brandão como vice. Atualmente, Dino é ministro do Supremo Tribunal Federal e Brandão governa o Maranhão. Ambos estão, porém, rompidos politicamente.

“O sarneísmo é, sobretudo, uma gramática política oligárquica que, por mais de cinco décadas, conseguiu aglutinar diferentes famílias, correntes políticas e grupos de interesse sob um mesmo guarda-chuva, formando um sistema de poder tradicional e oligárquico”, observa Hesaú Rômulo, cientista político e professor da Universidade Federal do Norte do Tocantins.

Ao mexer no tabuleiro político, o “imortal” da ABL articula uma audiência com Lula, na qual pretende reafirmar o apoio à reeleição do presidente e apresentar Roseana como potencial aliada no Senado. Lula e Sarney mantêm uma relação de respeito e proximidade que transcende disputas partidárias. Em dezembro do ano passado, o presidente visitou Roseana durante sua internação no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.

Embora tenha gravado um vídeo em apoio ao vice-governador Felipe Camarão (PT) – rompido com Brandão e pré-candidato ao governo –, Lula enviou um recado explícito ao PT do Maranhão: não quer ataques à família Sarney. A tendência é de que o presidente mantenha uma atuação cautelosa no estado durante o primeiro turno das eleições, preservando interlocução com os principais grupos políticos locais. Apesar de o PT confirmar candidatura própria, Lula mantém canais abertos com os palanques de Orleans Brandão e Eduardo Braide (PSD), cujos aliados ao Senado também devem buscar vincular suas campanhas à reeleição presidencial.

O PT terá candidato próprio ao governo, mas o presidente quer manter portas abertas para alianças

“O presidente Lula sempre terá palanque no Maranhão. Acredito que sua reeleição é importante para o Brasil e tenho a missão de contribuir para que ele conquiste, no nosso estado, a maior votação de sua história. Acima de qualquer ­disputa local está o compromisso de continuar trabalhando pelo Maranhão e pelo Brasil”, ressalta Carlos Brandão. No início de junho, o presidente nacional do PT, Edinho Silva, esteve no Maranhão em uma tentativa de pacificar o partido em torno da candidatura de Camarão e declarou apoio à reeleição dos senadores Weverton Rocha (PDT) e Eliziane Gama (PSD), ambos aliados do campo lulista no estado. Ainda assim, evitou descartar futuras composições políticas: “Se outras lideranças quiserem apoiar o presidente Lula, é evidente que a nossa posição é ouvi-las. Não estamos fechando a porta para apoios”.

Orleans Brandão faz questão de enfatizar a sintonia com o governo federal. “Respeitamos todas as posições partidárias, mas nosso foco permanece o mesmo: trabalhar pela continuidade das transformações que o Maranhão vem vivendo, em parceria com o presidente Lula e o governo federal”, diz. Nas pesquisas para o governo do estado, Orleans aparece ora em segundo lugar, ora tecnicamente empatado com Braide, líder na maior parte dos levantamentos. Camarão ocupa a terceira posição, com índices que variam entre 4,6% e 14,4%, conforme o instituto consultado. O petista acredita, porém, que o apoio explícito de Lula poderá impulsionar seu desempenho.

“Com a declaração em vídeo do presidente Lula, que começou a circular há menos de três semanas no Maranhão, e a vinda de Edinho ao estado, isso vai se refletir nos próximos dias em todas as pesquisas eleitorais. Tenho plena convicção de que iremos ao segundo turno e venceremos as eleições”, afirma. Nos bastidores da política maranhense, o respaldo da direção nacional do PT e de Lula à candidatura de Camarão é interpretado como um aceno a Flávio Dino, principal fiador da candidatura do petista.

Entre os chamados “dinistas”, há expectativa de uma reviravolta na disputa caso avancem as investigações da Polícia Federal que envolvem Carlos Brandão e familiares, quatro delas sob relatoria de ­Dino no Supremo. Os casos incluem suposta compra de vagas no Tribunal de Contas do Estado e possível interferência política em julgamento no Superior Tribunal de Justiça relacionado a um caso de homicídio. Aliados de Brandão, por sua vez, acusam Dino de tentar influenciar o cenário político maranhense a partir da Corte. •

Publicado na edição n° 1417 de CartaCapital, em 17 de junho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O elixir do poder’

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