Política

assine e leia

O Brasil real

A decisão de descolonizar o Museu da Inconfidência causa terremoto político em Minas Gerais

O Brasil real
O Brasil real
Cultura negra. O museu recebeu a nova Sala Afro-Brasilidades e obras de Jeane Terra e Thais Helt convivendo com o acervo histórico – Imagem: iStockphoto, Redes Sociais Jeane Terra e Acervo Museu da Inconfidência de Ouro Preto/MG
Apoie Siga-nos no

O berço da Independência do Brasil está sendo mais uma vez alvo de um terremoto político. No centro histórico de Ouro Preto, o Museu da Inconfidência vive uma verdadeira revolução. Sua atual direção tem um objetivo: descolonizar a instituição, as exposições que abriga e, assim, ajudar o País a se reimaginar. As alas mais conservadoras protestaram e chegaram a denunciar na Justiça qualquer gesto dos curadores para modificar a forma como a história do Brasil é exposta ao público. Mas Alex Calheiros, professor de filosofia à frente da direção do museu desde 2023, garante que o projeto não vai se intimidar e que a disputa, no fundo, é um espelho das dores de refundação de um país.

O prédio já foi cadeia e é uma das joias da arquitetura do Brasil. Até agora, o que existia ali era uma exposição para a reafirmação da história colonial. Sua importância é incontestável, pois se trata de um memorial dos conjurados mineiros e da ideia de soberania brasileira, mas sempre a partir do ponto de vista de uma elite escravocrata, da aristocracia e dos grandes donos de terras. Quem percorre seus andares tem a sensação de que está voltando ao passado, não apenas pelas peças apresentadas, mas, principalmente, pela narrativa que é construída. Em uma das salas, por exemplo, a imagem da imperatriz Tereza Cristina é acompanhada por joias. No local da foto de seu marido, D. Pedro II, livros.

Imagem: Acervo Museu da Inconfidência de Ouro Preto/MG

Ao expor um pelourinho – um instrumento de tortura e punição de escravizados –, o tom do texto que acompanha o objeto beira a exaltação de sua função. “Troncos são instrumentos de captura, contenção e aviltamento”, diz o material na parede da sala. E continua com precisão técnica: “Presentes nas casas de purgar dos engenhos coloniais, eram mais frequentes os de madeira retangular, abertos em duas metades, com orifícios maiores para o pescoço e menores para os pulsos e tornozelos, fechados na extremidade com cadeado”. O material chega a flertar com a legitimação da tortura: “Aplicado como punição aos que tentavam subverter a ordem, tornou-se instrumento corretivo utilizado para atingir o imaginário coletivo”.

A própria escravidão parece ser relativizada. “A região das Minas seria lugar de pungente capítulo da história da humanidade, vivido por um povo que chegou a promover insurreições e se estabelecer em quilombos, mas acabou se firmando como um dos pilares na formação da cultura brasileira, por ter sabido, com tolerância também, interagir com seus algozes”, declara o material que acompanha as peças do museu. “Sua contribuição aparece nas formas de convivência social, na manifestação da religiosidade, nas artes, na alimentação, na miscigenação.” Esse é um dos fatores que Calheiros está mudando. Segundo ele, parecia não existir a compreensão à incoerência que é mostrar instrumentos de tortura e, ao mesmo tempo, falar de tolerância. Para ele, houve um esforço para neutralizar disputas e violência numa região que contou com mais de 300 conflitos.

Os textos que flertam com a legitimação da tortura e da escravidão serão reescritos

Em setembro, um trabalho será iniciado com a comunidade local e diferentes movimentos para reescrever os textos que vão acompanhar as peças do museu. Os textos antigos, porém, serão mantidos, justamente para que se entenda o percurso no relato da história. O plano de Calheiros é ousado e já começou a ser implementado. Um dos primeiros gestos foi mudar objetos de lugar, dentro do próprio museu. Assim, os instrumentos de tortura saíram de Sala do Trabalho e da Mineração e agora ocupam a Sala da Origem, espaço que era reservado a contar como a civilização europeia se instalou na região. As correntes, agora, estão ao lado da imagem da Santíssima Trindade, dos reis e dos itens da burocracia colonizadora. “Colocamos ali para mostrar que não seria possível o estabelecimento dessa civilização sem a escravidão”, explica.  Na Sala do Império, por exemplo, um brasão da República foi instaurado. Tradicionalmente, o museu apresentava um percurso incoerente. Ainda que seja um memorial da inconfidência, ele reitera a narrativa colonial. “O museu não aponta o que os inconfidentes buscavam, que era um futuro republicano para o Brasil”, disse Calheiros. “É um local que carrega essa contradição. Sendo um memorial de história anticolonial, ele reitera os valores coloniais”, constatou.

Outro passo foi o de abrir o museu para a história da população negra, que chegou a representar 90% dos habitantes de Vila Rica. “Hoje, 70% de Ouro Preto se declara não branca. Mas é um fator que não aparecia no museu”, diz o diretor. Para dar legitimidade a essa mudança, o diretor conseguiu que o Museu da Inconfidência fosse reconhecido pela Unesco como lugar de memória sensível no âmbito da Rota dos Povos Escravizados, usando como base o argumento de Tomás Antônio Gonzaga nas Cartas Chilenas, que abordam o absurdo de o prédio ser construído sobre ossos e sangue dos pobres. “Ou seja, dos negros”, enfatiza Calheiros, que inaugurou a Sala Afro-Brasilidades, com a Coleção Tadeu Bandeira, e incorporou ao acervo imagens de São Benedito com o Menino Jesus e do Rei Mago Baltazar, ao lado das obras contemporâneas de Jeane Terra e Thais Helt. Ao optar por trazer arte contemporânea para dentro do museu, Calheiros quer, no fundo, instalar uma pergunta: quem é que define o que é arte?

Mas talvez uma das manobras mais contundentes da atual direção do Museu da Inconfidência esteja no debate sobre gênero. Se, por décadas, o Panteão dos Inconfidentes apenas acolhia os restos mortais de homens, a decisão foi a de colocar e representar também Hipólita Jacinta e Bárbara Heliodora no local, cerca de 230 anos depois dos acontecimentos que abalaram a monarquia. Hipólita foi a única mulher a se envolver efetivamente na luta. Fazendeira, escreveu e enviou a carta dando a notícia da prisão de Tiradentes e orientando que os conjurados começassem o levante militar. Ela ganhou em 2023 uma lápide no Panteão, pois o destino do seu corpo é desconhecido. Já Bárbara Heliodora, poeta cuja casa serviu de base para os encontros dos inconfidentes, teve seus restos transferidos em 21 de abril de 2024.

Gênero. O Panteão dos Inconfidentes agora também guarda as heroínas – Imagem: Redes Sociais/Samory P. Santos

O próximo passo é promover um debate sobre os povos indígenas em Minas Gerais e, para isso, o museu convidou lideranças e comunidades locais para a conversa e a transformação. Não é por acaso que Alex Calheiros esteve, ao longo dos últimos anos, sob intenso ataque de monarquistas, bolsonaristas e conservadores. Na verdade, os problemas começaram antes mesmo de ele ter assumido o cargo. Apesar de ter sido o escolhido para dirigir o museu, ele foi vetado no Gabinete de Segurança Institucional, na época comandado pelo general Heleno. Dois anos depois, quando ele, finalmente, assumiu, os ataques foram intensificados, principalmente quando passou a questionar a narrativa do museu.

A onda de fúria se levantou contra o diretor do museu, com denúncias à OAB e ao Ministério Público

Em uma das exposições, com a presença de movimentos sociais, uma onda de fúria se levantou contra ele. Denúncias foram apresentadas ao Ministério Público, à OAB e à imprensa. Até mesmo entidades judaicas entraram com queixas, depois que os ataques de Israel em Gaza entraram na Sala da Inconfidência em uma referência às lutas anticoloniais. Calheiros, porém, afirma que tudo que está fazendo estava no plano que ele apresentou quando se candidatou ao posto e que a população local acolheu sua visão. Os números, de fato, mostram uma explosão na quantidade de visitações. Antes da pandemia, o local recebia em torno de 190 mil por ano. Agora, são 350 mil e, a cada mês, registra-se novo recorde. O diretor vê a rea­ção inicial sem surpresa. “É uma metáfora do País, inconcluso, que não consegue romper esse ciclo autoritário e se realizar como República”, estima. Para ele, o que o episódio em Ouro Preto revela é que é doloroso falar do que ocorreu. “Talvez seja um processo natural de cura de um trauma nacional.” Sua avaliação é que, se muitas questões estão sendo colocadas ao museu e ao Brasil, outras tantas serão colocadas no futuro. Para ele, o museu precisa sempre mudar para ouvir as demandas da sociedade. “Refundar o museu é nossa contribuição para refundar o País. Estamos vivendo uma disputa pela memória, e isso é positivo. Temos de nos posicionar, assumindo os conflitos que podem gerar. Não temos medo”, diz.  Isso tudo, para ele, é parte de “reimaginar o Brasil”.  •

Publicado na edição n° 1427 de CartaCapital, em 26 de agosto de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O Brasil real’

ENTENDA MAIS SOBRE: , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.

O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.

Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.

Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.

Quero apoiar

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo