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Nova Agência Nacional de Museus é vista com temor por gestores da área

Política

A principal reação do presidente Michel Temer à tragédia no Museu Nacional, consumido pelo fogo no domingo 2, foi a rápida criação da Agência Nacional de Museus (Abram), que irá incorporar o Instituto Brasileiro de Museus, do Ministério da Cultura, e terá, assim como o Sebrae, o status de serviço social autônomo. 

No anúncio da nova agência, Temer fez largos elogios à iniciativa privada, em especial aos bancos, cujas possíveis parcerias poderão ir do gerenciamento dos museus às contribuições para um fundo de preservação do patrimônio

A iniciativa, no entanto, foi recebida com temor pelos funcionários e ex-funcionários do Ibram. Segundo o secretário de Cultura de Minas Gerais e ex-presidente do Instituto Brasileiro de Museus, Angelo Oswaldo, a medida coloca em risco a política nacional de museus, levando em conta que a agência ‘ficará sujeita a interesses mercadológicos e particulares.” 

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“O Ibram não foi criado para administrar apenas os 27 museus no Ministério da Cultura, mas para gerir todo o campo museológico. O Brasil tem 3700 museus que precisam de orientação, apoio, formação. São diversos museus no interior, em locais que rigorosamente não ao mercado”, afirma Oswaldo. 

Para o ex-presidente do Ibram, o instituto, assim como o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), serve para que o Estado proteja o campo museológico, e que “tirá-los do MinC é fazer com que a gestão escape do interesse público.”

O secretário ressalta ainda que o gerenciamento de riscos dos museus sempre foi uma das principais pautas do Ibram. “Realizamos seminários, vistorias, formação de quadros dentro dos museus, porque esse sempre foi um assunto central. Impossível levar esse conhecimento adiante sem recursos, mas existe uma política de gestão de riscos consolidada. Nosso risco, agora, é perder essa política. Vejo a Abram com muita preocupação.”

À Agência Brasil, o museólogo Newton Soares, representante dos trabalhadores do Ibram, afirmou que as medidas tomadas pelo governo servirão para “sucatear cada vez mais uma política nacional de museus”, ao tirar os 27 museus da gestão do governo, transferindo-os para organizações de âmbito público privado.

“Tirar essa gestão de dentro do governo e passar para outras organizações é transformar os 27 museus do Ibram em um grande balcão de negócios. Fica-se refém da vontade do mercado. Não se tem autonomia para dizer quais as necessidades e para pautar as políticas públicas”, disse.

O também ex-presidente do Ibram José do Nascimento Júnior divulgou nas redes sociais um vídeo no qual critica as medidas que, segundo ele, na prática significam a privatização dos museus e dos acervos “de forma autoritária”.

“Termina o Ibram, termina a política nacional de museus, privatiza todos os museus federais, acaba com as políticas públicas na área de museus, com os pontos de memória, com todas as ações. A Agência é para criar as OS [Organizações Sociais], privatizar os museus de forma geral e tirar o Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro”.

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