“No mínimo, imprudente”, diz Calero sobre ex-assessor de Geddel no Iphan

Condenado por pressionar o então ministro da Cultura para que o Iphan liberasse prédio de luxo, político terá ex-assessor chefe de gabinete

Foto: Wikimedia Commons

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Política

O Ministério do Turismo nomeou chefe de gabinete do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional um ex-assessor de Geddel Vieira Lima, condenado por tentar interferir no funcionamento da entidade. A nomeação de Marco Antônio Ferreira Delgado foi assinada pelo ministro Marcelo Álvaro Antônio e publicada nesta quinta 28.

Delgado ocupava cargo de confiança quando Geddel, então ministro-chefe da Secretaria de Governo, foi acusado de pressionar Marcelo Calero (Cidadania), então ministro da Cultura, por um parecer favorável do Iphan na construção do edifício de luxo La Vue, em Salvador, onde comprou apartamento.

Há dois meses, o caso culminou em condenação por improbidade administrativa. O ex-ministro nega as acusações. Geddel já havia sido condenado a 14 anos de prisão após a descoberta de bunker com 51 milhões de reais em propina, e hoje cumpre pena na capital baiana.

O Iphan passa por turbulência desde a exoneração da presidente Kátia Bógea, no fim do ano passado, sob pressão de empresários bolsonaristas. A nomeação de Delgado chocou servidores, que têm protestado contra o aparelhamento e a nomeação de dirigentes sem qualificação técnica. Em entrevista a CartaCapital, a ex-presidente criticou a contratação. “O chefe de gabinete tem acesso a todas as portarias e documentos, é uma posição bastante importante se o intuito é alterar os procedimentos.”

A trajetória de Delgado na Esplanada está ligada ao MDB. O assessor era próximo da ex-deputada paulista Bel Mesquita (MDB), secretaria Nacional de Políticas de Turismo entre 2011 e 2012. Naquele mesmo ano, Delgado foi admitido no Ministério do Turismo, chegando a chefiar o gabinete da Secretaria Nacional de Programas de Desenvolvimento da pasta. Permaneceu no ministério até 2013.

No ano seguinte, foi nomeado assessor na Secretaria de Aviação Civil, à época sob a chefia de Moreira Franco. Saiu em maio de 2016, para o gabinete de Geddel. Continuou na Secretaria de Governo até 2018, mesmo após a queda do ex-ministro.

Depois de cooptar boa parte do Centrão, o governo Bolsonaro tem acenado ao MDB para garantir margem folgada contra o impeachment. Interlocutores ouvidos por CartaCapital sustentam, contudo, que a indicação ao Iphan não partiu da legenda.

Cinco meses depois da demissão de Kátia Bógea, foi nomeada Larissa Rodrigues Peixoto Dutra. Formada em Turismo e Hotelaria e funcionária do Ministério do Turismo, ela é casada com um agente da PF que fez segurança de Bolsonaro em 2018. Ontem, o Ministério Público Federal pediu que a Justiça anule sua nomeação. Para os procuradores, ela não possui o “perfil profissional ou formação acadêmica compatível com o cargo” exigido pela lei. A ação foi apresentada por Marcelo Calero.

CartaCapital, o ex-ministro da Cultura disse não conhecer o ex-assessor, mas considera “no mínimo imprudente” ter alguém ligado ao Geddel atuando num cargo de chefia dentro do Iphan. “Cada mudança nas normas internas e exigências de obras é analisada por meio de um parecer próprio, pode ser que haja uma flexibilização dessas normas, detalhes que acabam servindo mais ao interesse privado.”

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Repórter da revista CartaCapital

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