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Os tropeços eleitorais do bolsonarismo em seu berço político

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Bordas. Paes intensifica a campanha no interior, em busca da vitória no primeiro turno – Imagem: Pablo Porciúncula/AFP
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Berço do bolsonarismo, o Rio de Janeiro pode ser a pedra a afundar de vez a candidatura de Flávio Bolsonaro nas eleições deste ano. Longe da vantagem obtida pelo pai em 2018 e 2022, o filho “zero um” assiste impotente ao esfacelamento da chapa que havia sonhado para disputar o controle do estado. O deputado estadual Douglas Ruas, candidato a governador, estagnado nas pesquisas e sem um arco de alianças, viu-se obrigado a anunciar uma chapa “puro-sangue” na terça-feira 4.

O último capítulo da debandada aconteceu na reta final das convenções partidárias. Ex-prefeito de Belford Roxo e até então pré-candidato ao Senado na chapa de Ruas, o deputado estadual Márcio ­Canella, do União Brasil, anunciou que tentará renovar o mandato na Assembleia fluminense. Não sem razão. Há um mês, Canella foi detido durante a Operação Unha e Carne, da Polícia Federal, após ser flagrado com um fuzil ilegal. Quem vai tentar a sorte em seu lugar será Carlos Jordy, amigo de Flávio, em dobradinha com Carlos Portinho – nesta eleição estão em jogo duas vagas de senador.

Para o campo bolsonarista, a desistência de Canella significa a perda de um importante aliado na região metropolitana, na qual Lula tem crescido, segundo pesquisas internas do PT. Pior, a prisão do deputado foi a senha para o União Brasil e o PP decidirem repetir no Rio a orientação de neutralidade anunciada pela cúpula nacional da federação. Confirmada pelo líder do PP fluminense, Doutor Luizinho, a “neutralidade” tem como uma de suas consequências a diminuição pela metade do tempo de propaganda eleitoral de Ruas na tevê, que passará de quatro para dois minutos.

A chapa de apoio a Flávio Bolsonaro no estado se esfarelou

O golpe de misericórdia na aliança havia sido dado, no entanto, pelo ex-prefeito de Nova Iguaçu Rogério Lisboa, do PP, cotado como candidato a vice na chapa de Ruas. Lisboa não só pulou do barco, como deve anunciar nas próximas semanas “apoio pessoal” a Eduardo Paes, do PSD. O ex-prefeito do Rio, apoiado por Lula e por um arco de alianças com nove partidos, tem grandes chances de vencer no primeiro turno. A vice de Ruas será a vereadora por Niterói Fernanda Louback, ex-miss Rio de Janeiro, amiga de Michelle Bolsonaro e um dos expoentes do “PL Mulher”.

Em meio à debandada, a chapa de Ruas, ainda sem os nomes de Louback e Jordy, foi oficialmente lançada no fim de julho em um evento esvaziado que teve como representante do clã a ex-verea­dora Rogéria Bolsonaro, mãe de Flávio, suplente ao Senado. Talvez para evitar associar sua imagem à ruína da chapa que montou e anunciou como ideal no começo do ano, o “zero um” participou do evento por teleconferência. “Precisamos nos mobilizar. Não podemos permitir que se crie um bunker do PT no Rio de Janeiro”, afirmou a distância.

Míngua. Ruas queria assumir o mandato tampão do estado. Não conseguiu – Imagem: Alex Ramos/Alerj

Outro partido aliado dos governos de Jair Bolsonaro e Cláudio Castro que mudou de estratégia é o Republicanos. Liberado para concorrer graças a uma liminar do STF, o ex-governador Anthony Garotinho foi oficializado como candidato do partido e marcou presença logo de saída ao aparecer com 10% das intenções de voto na mais recente pesquisa Quaest, mesmo índice de Ruas. Foi a primeira pesquisa com o nome de Garotinho, candidato pela quarta vez, e a expectativa tanto no PL quanto no campo PT-PSD é de que o candidato do Republicanos possa crescer ainda mais. Segundo a pesquisa, Paes lidera com 38% e chega a 42% em um cenário sem o ex-governador. Ruas, mesmo sem Garotinho, não passa de 11%.

Prefeitos do interior se aproximam de Eduardo Paes, o favorito

De olho na vitória no primeiro turno, Paes iniciou uma ofensiva sobre as prefeituras do interior que fez abrir novas rachaduras no piso bolsonarista. Com o auxílio de aliados de peso como os petistas Washington Quaquá, prefeito de Maricá, e André Ceciliano, ex-presidente da Assembleia, além do ex-prefeito de Duque de Caxias Washington Reis, do MDB, que indicou sua irmã Jane­ como candidata a vice na chapa do PSD ao governo, Paes intensificou a agenda pelo estado. Progressivamente, vai acabando com a lua de mel entre o PL bolsonarista e as prefeituras do interior, relação regada pelos generosos investimentos propiciados pela venda da Companhia Estadual de Águas e Esgotos nos tempos de Cláudio Castro. O esforço de Paes tem dado resultado. Dos 51 prefeitos eleitos por PL, PP e União Brasil há dois anos, apenas 12 confirmaram apoio a Ruas. O movimento de abandono, que inclui algumas trocas de partido, é facilitado pelo fato de o PL não comandar mais a máquina estadual­ desde a renúncia de Castro, em maio.

A movimentação em direção a Paes deve fortalecer Lula, diz Ceciliano. “Essa aproximação é natural. Rodamos todo o estado e percebemos que há entre os prefeitos do interior um sentimento muito grande de reconhecimento ao governo federal pela ajuda na construção de moradias, creches e escolas”, revela. A saída do PL do Palácio Guanabara, diz o petista, deixou o campo livre para as articulações. “Nestas eleições, o bolsonarismo está tendo muita dificuldade em nível estadual. No Rio, a diferença a favor de Bolsonaro nas últimas eleições foi de 1,3 milhão de votos. Desta vez, Lula vai ganhar”, prevê.

Veterano. Garotinho entra pela quarta vez na disputa eleitoral e conta com o recall – Imagem: Carlos Moura/Agência Senado

Para a cientista política Mayra Goulart­, o PL cooptou o apoio de muitos prefeitos graças aos recursos oriundos da privatização da Cedae, mas também em virtude do fundo eleitoral. “Pelo crescimento e projeção obtidos com a chegada de Bolsonaro, o PL conseguiu trazer para suas fileiras uma série de elites políticas locais que controlam territórios eleitoralmente e até mesmo economicamente.” Com a eventual derrota de Flávio e Ruas em outubro e o afastamento de Bolsonaro da esfera política, diz a diretora do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, o bolsonarismo perderá espaço em pequenos e médios municípios. “Nos públicos mais politizados, sobretudo na capital, no voto de opinião, o bolsonarismo tem uma força expressiva porque mobiliza o sentimento conservador e o pânico moral ou relativo à segurança pública. Mas essa força não é a mesma no que diz respeito ao voto mais tradicional, interiorizado, de um eleitor menos politizado.”

A troca de partidos pelos prefeitos confirma essa tendência. “Com a expectativa de vitória de Paes e recuo eleitoral do PL, as lideranças locais tendem a migrar para outros partidos, como União Brasil ou PP, que são tradicionais e muito fortes no interior.” Goular­t lembra que “quanto menos quadros, menos acesso ao fundo partidário”, o que pode deslocar no futuro próximo o foco da extrema-direita fluminense. “Essa ascendência que o PL conquistou com Bolsonaro pode ser volátil, caso a força política que organiza o antipetismo migre para outro partido.”

Prefeitos do interior se aproximam de Eduardo Paes, o favorito

Professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Janeiro, Luiz Eduardo Motta aponta um desgaste geral do bolsonarismo. “Esse setor permanece ainda presente no cenário político brasileiro, mas tem vivenciado uma forte contradição interna, a exemplo da implosão pública da família Bolsonaro, com Flávio de um lado e Michelle do outro. Há também contradições da extrema-direita em termos morais. Seu discurso de combate à corrupção caiu por terra com vários escândalos sucessivos nos níveis comportamental e de administração pública”, explica. A situação, diz Motta, contribui para a migração de eleitores. “No Rio, a chamada direita tradicional poderá voltar a ocupar, sobretudo no Legislativo, o espaço que perdeu para a extrema-direita nos últimos anos.” Outro problema do bolsonarismo no Rio, afirma, é a falta de peso de suas atuais lideranças. “Se vivêssemos um cenário como o de 2018, talvez Ruas pudesse surpreender, como fez Wilson Witzel, que emergiu na carona do bolsonarismo. Mas não parece ser o caso.” •

Publicado na edição n° 1425 de CartaCapital, em 12 de agosto de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Nem no covil’

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