‘Não dá para esperar nada de Queiroga. O ministro da Saúde é o presidente’

Especialistas em Saúde ouvidos por CartaCapital não acreditam em guinada 'antinegacionista'; governo sinaliza a manutenção da tragédia

Marcelo Queiroga e Eduardo Pazuello. Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Marcelo Queiroga e Eduardo Pazuello. Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Política,Saúde

A mudança no Ministério da Saúde, com a saída do general Eduardo Pazuello e a entrada do cardiologista Marcelo Queiroga, mantém especialistas céticos ou igualmente pessimistas quanto ao futuro do combate à pandemia do novo coronavírus no Brasil.

Nesta terça-feira 16, em entrevista coletiva ao lado de Queiroga, Pazuello afirmou que a substituição não representa uma transição, já que o governo federal permanece o mesmo. Os indicativos de que não se espera uma guinada ‘antinegacionista’ na pasta, no entanto, se acumulam desde ontem, quando a troca foi anunciada.

No início desta terça, ao chegar para uma reunião em Brasília com Pazuello, Queiroga afirmou que “a política é do governo Bolsonaro, não do ministro da Saúde” e que o chefe da pasta apenas “executa a política do governo”.

Horas depois, o vice-presidente Hamilton Mourão se manifestou na mesma linha. Segundo ele, “a função do ministro quem define é o presidente da República”. Para o general, portanto, o presidente é “o responsável por tudo o que aconteça ou deixe de acontecer”.

Diante desse cenário, especialistas ouvidos por CartaCapital não confiam em uma mudança de postura capaz de tirar o Brasil desse dramático estágio. Nesta terça, o País bateu mais um recorde de mortes por Covid-19 em 24 horas: foram 2.340, levando o total a 281.626, segundo o Conselho Nacional de Secretários de Saúde. Já pelo levantamento do consórcio de veículos de imprensa, foram 2.798 mortes pela doença entre segunda e terça.

 

 

O médico infectologista Marcos Boulos, professor da Faculdade de Medicina da USP e membro do Centro de Contingência do Coronavírus do estado de São Paulo, diz não esperar “nada” do novo ministro da Saúde, que tende a ser “igual ao que estava”.

“Ele mesmo declarou que segue as ordens do presidente. Então, quem é o ministro da Saúde é o presidente, que não entende bulhufas de saúde. As pessoas, no governo, escolhem os ministros para serem experts no assunto que não conhecem. E, nesse caso específico, é uma piada”, afirmou, em entrevista ao programa Direto da Redação, transmitido pelo canal de CartaCapital no YouTube.

 

“Este País é o pior no controle da doença no mundo. Está sofrendo restrições da Organização Mundial da Saúde. Passou os Estados Unidos, que eram os piores até recentemente e só melhoraram com a mudança de presidente, que era negacionista como o atual presidente brasileiro”.

 

Boulos ainda afirmou que “a previsão, se continuar como está, é de chegar a agosto com 500 mil mortes no Brasil”. Ele lembrou que Marcelo Queiroga apoiou Jair Bolsonaro nas eleições de 2018 e fez parte do comitê de transição, “mostrando que vai seguir as ordens e provavelmente não fará nada diferente do que o Bolsonaro quer”.

Para o médico sanitarista Gonzalo Vecina, um dos fundadores da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Queiroga assume o posto de um ministro “que estava fazendo um desastre”. Vecina ponderou que o novo chefe da pasta é um médico reconhecido e que tem “jogo de cintura”.

“Ele já disse que não é mágico. Espero que, além de não ter varinha de condão, não tenha o rabo preso, e com isso consiga libertar o Ministério da Saúde de um monte de militares inúteis que estão lá e alguns indicados pelo Centrão que são muito incompetentes”, declarou, em contato com a reportagem. “Ele vai precisar de uma equipe mais competente. O ministério não se gerencia com um ministro, mas com um grupo estruturado de gestores. Boa parte desses gestores foram demitidos, expulsos do ministério neste governo”.

Segundo Daniel Dourado, médico e advogado sanitarista do Centro de Pesquisa em Direito Sanitário da USP, as primeiras manifestações de Marcelo Queiroga após a indicação mostram que o combinado “foi manter tudo como está”.

“O desafio principal agora na gestão do SUS é conseguir conquistar a confiança dos gestores. Os secretários estaduais e municipais de Saúde não têm confiança de que o Ministério da Saúde tem competência e interesse de tomar as medidas. O ministério precisa articular um monitoramento de casos nos estados e municípios para saber onde precisa ter lockdown e dar apoio institucional para isso acontecer. O que está acontecendo é um ‘cada um por si'”, afirmou.

Dourado também destacou o perfil de ministro que Bolsonaro parece buscar em Queiroga. “Ele vai querer alguém que continue não falando contra o tratamento precoce e que não fale que há necessidade de medidas de confinamento”.

“Eles têm usado a falácia de que não pode confinar todo mundo. Ninguém está falando de confinar o País inteiro de uma vez, mas esse monitoramento precisa ser bem feito. Caso de Portugal, que chegou a uma calamidade absoluta em janeiro, fez um confinamento rigoroso e hoje é o país com menor taxa de transmissão na Europa”, acrescentou Dourado. Ele também avaliou que, se Queiroga falhar, o País assistirá ao fortalecimento da iniciativa dos secretários estaduais de Saúde de criar um “comitê de crise paralelo”.

Avaliação semelhante é a de José David Urbaéz, diretor científico da Sociedade de Infectologia do Distrito Federal. De acordo com ele, não há qualquer indício que aponte para uma alteração de rumo no Ministério da Saúde.

“Os requisitos para ocupar esse cargo são seguir as crenças do presidente. Vimos o que aconteceu com [Luiz Henrique] Mandetta e [Nelson] Teich, que eram ministros ‘normais’, que queriam seguir normas técnicas, embasadas na Ciência. Não acredito que essa nova opção tenha mudança. Há preocupações, porque esse discurso de que o médico tem autonomia para prescrever drogas que não têm evidência científica já nos deixa muito preocupados. Acho que continuaremos com um Ministério da Saúde com perfil semelhante”.

 

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Editor do site de CartaCapital

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