Na CPI, Araújo diz ser contrário à divulgação de fake news; veja mentiras compartilhadas pelo ex-chanceler

Compõem a lista informação falsa sore o STF, recusa em admitir ataques à China e falsa alegação sobre vacinas indianas

Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado

Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado

Política

O ex-chanceler Ernesto Araújo negou em depoimento à CPI da Covid nesta terça-feira 18 ter endossado a propagação de fake news sobre a pandemia. Questionado pela senadora Leila Barros (PSB-DF), o bolsonarista afirmou que, “evidentemente”, não é “a favor da disseminação de nenhuma notícia falsa”.

A prática do ex-chefe do Itamaraty, entretanto, o contradiz. Há registro de oportunidades em que Araújo mentiu sobre o comportamento do governo de Jair Bolsonaro e a respeito das próprias descobertas sobre a Covid-19.

 

 

Um desses registros data de março deste ano, quando Araújo ainda ocupava o comando do Ministério das Relações Exteriores. Ele foi às redes sociais e, em inglês, repetiu uma das fake news mais publicadas por bolsonaristas: a de que o Supremo Tribunal Federal teria ‘impedido’ Jair Bolsonaro de atuar no combate à propagação do novo coronavírus, delegando todo o poder para adotar medidas restritivas aos estados.

A postagem de Araújo começava com “A CNN entende tudo errado sobre o Brasil e a Covid.
Aqui estão os fatos”. Na sequência, ele escreveu: “Após uma decisão da Suprema Corte de abril de 2020, os governadores dos estados – não o presidente – têm, na prática, toda a autoridade para estabelecer/gerenciar todas as medidas de distanciamento social”.

Ao contrário do que afirma Araújo, porém, o STF não proibiu Bolsonaro de tomar atitudes no enfrentamento à pandemia. A Corte julgou, no início da crise sanitária, três ações em que reafirmou que governadores e prefeitos também têm autonomia para montar planos locais de ação, incluindo o fechamento de comércio.

Foi o que reafirmou o ministro Gilmar Mendes ao responder diretamente ao então chanceler pelas redes sociais. “NOTÍCIA FALSA! A verdade é que o Supremo Tribunal Federal decidiu que as administrações federal, estaduais e municipais têm competência para adotar medidas de distanciamento social. Todos os níveis de governo são responsáveis pelo desastre que enfrentamos”, rebateu o magistrado, também em inglês.

 

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Na própria oitiva desta terça, Ernesto Araújo insistiu em declarações inverídicas. Afirmou, por exemplo, que jamais promoveu “nenhum atrito com a China, seja antes, seja durante a pandemia”.

Em abril de 2020, no entanto, o chanceler optou por uma das mais belicistas declarações sobre os chineses, ao publicar em seu blog um artigo intitulado “Chegou o Comunavírus”, no qual mencionou um “vírus ideológico” e declarou que o coronavírus “nos faz despertar novamente para o pesadelo comunista”.

Outra mentira contada por Araújo na CPI envolve mais um membro da lista de alvos preferenciais do bolsonarismo: a Organização Mundial da Saúde. “A OMS, em certo momento, disse que o vírus não era transmissível entre humanos. Isso está documentado, se me permite citar algumas datas. Em 23 de janeiro, depois, em 4 de fevereiro, a OMS disse, sim, é transmissível entre humanos”, declarou o ex-chanceler.

No meio de 2020, começaram a circular posts nas redes sociais com a falsa alegação sobre a OMS insinuada por Araújo. O órgão nunca informou que a Covid-19 não seria transmitida entre humanos. Ao contrário. À época, a notícia falsa era acompanhada de um vídeo em que Maria Van Kerkhove, especialista da OMS, afirmava que, “pelos dados que temos, ainda parece raro que uma pessoa assintomática [o vírus] transmita para um secundário”.

Ernesto Araújo mentiu também ao citar o suposto acerto do governo Bolsonaro nas relações com a Índia. “Graças à qualidade das nossas relações com a Índia, fomos o primeiro país do mundo a receber vacinas exportadas por aquele país”. Não é verdade. Nepal, Bangladesh, Butão e Maldivas receberam lotes de imunizantes indianos antes do Brasil.

 

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Editor do site de CartaCapital

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