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Mulheres organizam ato feminista em favor das Diretas Já

Política

A ideia de fazer um ato por Diretas Já organizado e protagonizado por mulheres partiu da escritora e militante feminista Clara Averbuck. Motivada pela falta de representatividade de mulheres em atos políticos, numa quinta-feira, na sua casa, apenas dez dias antes da manifestação, teve a ideia de um ato feminista.

Com a ajuda de Camila Kfouri e de Juliana Borges, começou a encontrar mulheres que juntas se mobilizaram para criar um ato artístico e político que pudesse levantar a bandeira das eleições diretas e ao mesmo tempo dar visibilidade para as pautas feministas.

Nomeado de “Mulheres pela diretas e por direitos”, o ato foi concentrado no Largo do Arouche, no centro de São Paulo, a partir do meio dia, e contou com atrações musicais durante nove horas do domingo 11.

Nomes como Tássia Reis, As Bahias e a Cozinha Mineira, Ana Cañas, Mc Soffia, Flora Matos, Luana Hansen e o Slam das Minas fizeram parte do quadro de atrações.

A manifestação de cunho artístico usou a mesma estratégia do ato que ocorreu no domingo passado 4, nomeado de São Paulo Pelas Diretas Já, que usou a linguagem artística para atrair a população.

Clara Averbuck explica que o ato feminista tem a ideia de somar aos atos em favor das eleições diretas que ocorrem por todo o país, não competir.

Clara Averbuck

‘Depois que conseguirmos as eleições diretas, vamos seguir pedindo por direitos’ (Divulgação/Diretas Já)

“A arte é possivelmente a maior influenciadora e a maior propagadora de discurso que existe, então a gente põe artistas que tem um discurso político e ajudam a mobilizar as nossas causas e a conscientizar as pessoas”, fala a idealizadora ao explicar o uso comum da presença de classe artística como carro chefe das manifestações.

Por outro lado, enquanto os demais movimentos em favor das diretas não possuíam entidades políticas na organização, o ato das mulheres fazia um chamado em favor dos movimentos políticos feministas para que participassem da articulação.

Averbuck conta que apenas a bandeira das eleições diretas não é o suficiente para as mulheres, que têm os direitos sexuais, reprodutivos, das mulheres trans e travestis e das mulheres negras avançando tão lentamente.

“O ato é por diretas e direitos, porque depois que conseguirmos as eleições diretas, vamos seguir pedindo por direitos”, afirma.

Raque Virgínia

As Bahias e a Cozinha Mineira também fez parte do ato São Paulo pela Diretas Já, que ocorreu em São Paulo no domingo 4 (Divulgação/Diretas Já)

O ato resgatou ainda o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, que foi colocado pelas participantes e pelas organizadoras como “uma ação misógina”.

Endossado pelos gritos de Fora Temer, a idealizadora conta que o “golpe” não foi apenas contra as urnas e a democracia, mas também “contra as mulheres trabalhadoras no Brasil”.

“Eles querem que as mulheres sejam coadjuvantes, eles não querem que as sejam protagonistas da política e nem de nada, eles querem que a gente seja enfeite, mas a gente não é bibelô”, diz Averbuck.

A representatividade buscada pela organização foi alcançada pela presença de diversos grupos que trouxeram para o palco mulheres negras, lésbicas, e transexuais.

A vocalista trans Raquel Virgínia, que ao lado de Assucena compõe a banda As Bahias e a Cozinha Mineira, destaca a importância de falar sobre a diferença entre as pautas das mulheres cisgênero e transgênero num momento em que os direitos das mulheres estão sendo discutidos.

“Se estamos lutando pela dignidade das mulheres, não poderíamos deixar de ter as mulheres trans no movimento”, conta.

Virgínia ainda alertou sobre os dados alarmantes de “vida e sobrevida” a respeito da transexualidade. Enquanto a expectativa de vida das mulheres trans é de apenas 35 anos, a vocalista já tem 27. “Por esses dados eu acredito que a pauta das mulheres trans é uma pauta que tem que estar aqui, sendo colocada e debatida no mesmo patamar de igualdade”, reforça.

Na mesma linha, a rapper Preta Rara, que ficou conhecida após denunciar os abusos que sofria quando trabalhava como diarista, conta o que a levou usar o hip hop como uma forma de lutar contra as injustiças sociais que são cometidas diariamente contra as mulheres negras, que ela considera “a base da pirâmide social”.

Preta Rara

A rapper Preta Rara ficou conhecida pela hashtag #EuEmpregadaDoméstica, que denunciava abusos sofridos por domésticas (Divulgação/Diretas Já)

“Eu percebi que através do rap eu posso me posicionar de alguma forma, percebi que através da minha arte eu poderia falar sobre isso e representar outras mulheres”, falou a rapper ao explicar o que o levou a cantar no ato em favor das eleições diretas.

Tássia Reis, por outro lado, conta que topou participar do ato “muito mais pelas mulheres do que por outra coisa”.

Uma das últimas a subir no palco, a cantora explicou que embora a movimentação pelas eleições indiretas sejam demasiadamente importantes, mais importante ainda é a movimentação necessária para as mulheres sejam mantidas vivas.

“Independente de quem esteja comandando o Estado a gente é sempre preterida na sociedade”, desabafa, ao se referir às mulheres negras.

A presença de figuras políticas também foi um dos focos da manifestação que se reivindica política e feminista. Ana Estela Haddad, professora da Faculdade de Odontologia da USP e fundadora do São Paulo Carinhosa, ressalta a importância de lutar para além das diretas, mas para que os direitos conseguidos “a custo de muito sacrifício de vidas de pessoas, da juventude, de crianças de mulheres” sejam mantidos.

“Somos a maioria do país, mas quando falamos de perda de direitos, isso ainda recai sobre a vida das mulheres”, afirma.

Eleonora Menicucci, ex-ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres do governo Dilma, fez um percurso histórico em sua fala.

Perseguida pela Ditadura Militar, Menicucci afirma que aqueles que estão no poder são misóginos, mas que terão que “engolir a luta das mulheres”.Assim como Ana Estela Haddad, a ex-ministra lembrou que a população brasileira é composta em 52% por mulheres, além de destacar que esta parte “é a mãe da outra metade”.

Mc Soffia

Com apenas 13 anos, Mc Soffia foi ao ato acompanhada pela mãe (Divulgação/Diretas Já)

O ato foi finalizado com a apresentação da rapper MC Soffia, que com apenas 13 anos, se destaca na cena nacional política e artística. Sobre ser a mais nova artista a se apresentar, a rapper afirma que “não tem idade pra lutar”.

Diz conhecer o preconceito o machismo e o racismo, independente de quantos anos tem.

“Eu sempre vou estar aqui, independente de me apresentar ou não. Vou sempre estar vendo e participando das marchas contra os machistas e os racistas. Isso não tem idade”, afirma.

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