“Militares governistas fazem malabarismo para justificar o injustificável”

Ex-bolsonarista, senador Alessandro Vieira vê 'esquizofrenia' em abraço presidencial no 'centrão'

Senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) - Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) - Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Política

Alessandro Vieira, de 45 anos, é gaúcho, mas se elegeu senador por Sergipe em 2018. Era do partido Rede, o de Marina Silva, a quem apoiou no primeiro turno da campanha presidencial, mas agora é do Cidadania, o ex-PPS. No segundo turno presidencial, declarou voto em Jair Bolsonaro, de quem se tornou um crítico severo.

Delegado da Polícia Civil, foi a pedido dele e dos deputados Tábata Amaral (PDT-SP) e Felipe Rigoni (PSB-ES) que o juiz Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), antecipou de 60 para 5 dias o prazo para Sérgio Moro depor no inquérito sobre ter sido ou não em causa própria que Bolsonaro trocou a chefia da Polícia Federal (PF). “Se você quer a verdade, tem que correr. A verdade vai se esvaindo com o tempo” diz.

Vieira propôs no Senado criar uma CPI para o caso “Moro x Bolsonaro”, mas sem sucesso até aqui. Bota a culpa em um grupo que acha que seria jogar mais lenha na fogueira em Brasília, e em um outro que não quer dar palanque ao ex-ministro, volta e meia citado como presidenciável em 2022.

Um dos líderes do bloco “Muda Senado”, onde sobram fãs da ideia de “Moro 2022”, Vieira acha que o ex-juiz não está preparado para tanto. Ele explica por quê na entrevista a seguir, na qual bate nos militares governistas e no abraço presidencial no “centrão”. E põe em dúvida o trabalho do procurador-geral da República, Augusto Aras, um indicado de Jair Bolsonaro.

CartaCapital: O presidente termina o mandato?

Alessandro Vieira: Se ele não mudar a conduta, acho que não. A conduta que ele tem adotado hoje, muito claramente, é de um presidente eleito que tenta criar um ambiente para um autogolpe. É muito clara a quantidade de confrontos, polêmicas desnecessárias, agressões institucionais… Indica realmente um presidente que está trabalhando com essa concepção de que, para implantar os projetos dele, ele não pode fazer isso dentro do ambiente democrático.

Essa postura é antissistêmica, e ele ganhou a eleição assim. Então o que o presidente está fazendo é normal dentro daquilo que ele se propôs, não?

AV: Uma coisa é você se colocar contra um sistema político que está posto, não fazer toma lá, dá cá, não aceitar que existam figuras que não podem ser investigadas, essa é a postura antissistema que foi vendida na campanha, e é uma postura inclusive com a qual eu concordo. Tenho absoluta certeza que no Brasil, especialmente no começo [de um governo], você tem total possibilidade de fazer tramitar projetos, implantar políticas sem necessidade de toma lá, dá cá.

O que você precisa, na verdade, é modular as expectativas do sistema político. Se o sistema político entende que não existem mais aqueles drenos de corrupção, aqueles valores absurdos e tudo mais, o que existe simplesmente são programas de governo e as emendas parlamentares, um parlamentar só é “vendido” se quer. Mas o governo faz o contrário, escolhe abraçar o sistema que era justamente o que criticava e condenava na campanha, e isso gera uma coisa no limite da esquizofrenia e profundamente lamentável.

Nessa hipótese de um autogolpe, como vê o papel dos militares? Acha que eles estão se comportando adequadamente, deveriam mudar? Esse fantasma dos militares colados no governo alimenta também a hipótese do autogolpe.

AV: Uma das coisas que a gente tem que fazer com urgência é na comunicação. A percepção que a gente tem através da imprensa confunde a figura dos ministros que são de origem militar com as Forças Armadas. Temos alguns militares da ativa que são ministros, e eu vejo isso como muito negativo. Não é papel de militar da ativa ser ministro, exercer função política, é uma anomalia.

Mas tem vários outros que foram já para reserva, e aí tem que começar a tirar essa coisa de “o general Braga” [ministro da Casa Civil], “o general Heleno” [ministro do GSI]. Não: são ministros, ministros políticos, submetidos às regras civis. A gente vê generais fazendo malabarismos para justificar o injustificável. Fazendo contas de padaria para tentar dizer que o Brasil não está enfrentando uma pandemia, são afrontas à lógica e à realidade que causam problemas severos.

O senhor é policial, o que diria que vai ser determinante na evolução do inquérito no Supremo sobre as alegações de Sérgio Moro a respeito das motivações presidenciais para a troca na diretoria da PF?

AV: Você tem uma cronologia de fatos que, reunidos, apontam para uma efetiva intenção de interferência. Desde a própria fala do presidente em entrevistas até o conteúdo desse vídeo [de uma reunião ministerial de 22 de abril, divulgado pelo Supremo]. O problema desse tipo de investigação é que ele está muito limitado à opinião de uma pessoa, que é o procurador[-geral da República] Augusto Aras.

Ele tem o domínio pleno sobre a possibilidade de fazer ou não a denúncia [criminal contra o presidente], e a gente não tem a convicção total de que essa opinião dele, essa escolha dele vai se dar apenas com base nos autos, por conta do próprio processo de escolha [de Aras para o cargo, fora da lista tríplice eleita pela categoria] pelo qual ele passou.

O Senado, que afinal é quem sabatina e aprova um indicado para procurador-geral, não poderia tomar alguma providência?

AV: Não existe nenhum recall, ele [procurador-geral] realmente tem uma autonomia total, é do nosso sistema, tem que ser assim mesmo.

Ele fez menção, em uma petição ao Supremo, a “palanques eleitorais”, em referência à divulgação na íntegra do vídeo e, claro, à hipótese de Sérgio Moro ser candidato em 2022. Ele era contra divulgar o vídeo na íntegra.

AV: É… Inclusive é profundamente lamentável, diligências pedidas pelo procurador-geral não devem se ater a aspectos políticos, apenas a jurídicos. A gente está vendo agora justamente um desses momentos [referência à revelação de que Flavio Bolsonaro teve informação privilegiada de um delegado da PF em 2018, que teria contado também que uma ação de rua seria adiada]: você tem a confirmação pelo relator da [Operação] Furna da Onça [no TRF2, Abel Gomes] de que eles optaram por retardar a ação policial e a ordem da Justiça para não interferir no processo eleitoral [de 2018].

Não cabe esse juízo de valor para juiz, promotor, delegado. O crime tem que ser interrompido, tem que ser cessado o mais rápido possível. E a publicidade é ampla, essa é a regra do processo penal. A publicidade é ampla.

E o senhor, defende que Moro seja candidato em 2022?

AV: Não, acho que isso é uma escolha absolutamente pessoal. A informação que eu tenho é de que ele não vai se filiar a partido. Há toda uma construção nas coisas. Se ele decidir pegar esse caminho, vai escolher um partido, se filiar, ser submetido a todo esse processo público de crítica, de análise, de propostas, e a gente vai ver lá no final o que isso gera. É uma figura que tem uma exposição nacional muito grande, bastante respeitado, mas isso não corresponde a uma candidatura ou mesmo a uma qualificação de exercer o cargo.

Você tem que mostrar uma série de coisas. A gente precisa ter uma campanha que avalie propostas, avalie histórico e capacidade gerencial dos candidatos. Você tem que tentar fugir um pouco das figuras de salvadores da pátria. O Brasil não precisa de salvadores da pátria, essa coisa de buscar mitos não deu muito certo na nossa história.

O bloco “Muda Senado”, do qual o senhor faz parte, eu sempre tive a impressão de que o horizonte dele era uma candidatura do Moro.

AV: Você tem ali uma série de parlamentares com perfis bastante diversos. Eu creio que os parlamentares do Podemos têm uma vinculação maior com essa ideia, porque é um partido que já fez inclusive convites [para Moro se filiar] mas, ao mesmo tempo, tem um presidenciável, o senador Álvaro Dias [do Paraná]. Já o Cidadania, o partido ao qual eu sou filiado, não demonstrou essa mesma percepção.

Eu, particularmente, acho que é um cara que parte de alguns requisitos, a capacitação intelectual, tem coragem, uma vida honesta até onde a gente conhece, mas tem que tentar mostrar o que quer fazer pelo Brasil na educação, na infraestrutura, na saúde, qual é a sua visão fiscal, tributária. Não é simples assim. Quem pensava na solução meramente fiscal, liberal, como [o ministro da Economia] Paulo Guedes, vai ter que repensar os planos porque o mundo onde ele construiu essas soluções não existe mais.

Ainda sobre o Moro, havia uma dúvida sobre o quanto que ele agregava de popularidade ao governo. E pelas pesquisas que saíram desde a demissão dele, aparentemente o presidente não perdeu nada. Por que acha que é assim?

AV: O presidente foi eleito sem a companhia do Sergio Moro. O Sergio Moro aparece nessa equação depois. Eu acho que eles se mantiveram ao longo dessa caminhada como personagens relativamente autônomos, e por conta disso você não percebe uma grande redução [no ibope do governo]. O Bolsonaro continua com um tripé: a perna da questão ética, já praticamente abandonada e fragilizada, mas ainda está no discurso; esse conservadorismo histérico, de redes sociais, e uma coisa autoritária, aquele discurso mais populista.

Isso tem ressonância no Brasil, tem no mundo todo e tem no Brasil. Então, acho que esse indicador de um terço ou 25% pelo menos de eleitorado, ele [Bolsonaro] vai continuar tendo por bastante tempo, até que você tenha outras lideranças que assumam essas bandeiras.

O que o senhor diria que é o mais importante das alegações do Paulo Marinho sobre a informação privilegiada obtida por Flavio Bolsonaro de um delegado da PF sobre a Operação Furna da Onça?

AV: Sob o ponto de vista de produção de prova, você tem de aguardar o que ele tem em mãos. Se conseguir provar que antes da operação já existiam contatos, reuniões e movimentações tratando da defesa do [ex-PM Fabricio] Queiroz e do próprio Flavio Bolsonaro, você tem a comprovação do vazamento. Porque, cronologicamente, seria impossível você estar falando sobre isso antes da operação, se a operação é sigilosa.

Existem vários indicativos de que essa operação vazou. Vários. É muito importante que ele apresente toda essa informação que tem. E, tão importante quanto, que ele avance na revelação de como foi feito o financiamento de toda a estrutura de fake news, disparos de WhatsApp em massa, que nunca chegaram a ser declaradas na prestação de contas e que tiveram uma influência muito grande na eleição.

Paulo Marinho já esteve na CPI das Fake News, da qual o senhor, aliás, faz parte, e o depoimento dele ali não foi substantivo. Ele poderia ser chamado de novo?

AV: Certamente. Me parece que ele ganhou uma disposição nova de revelar fatos. Ninguém tem direito de ser inocente nesse processo, me parece que a fala dele neste momento, desta forma, atende a um interesse político dele ou de terceiros [Marinho elegeu-se suplente de Flavio, mas agora é do PSDB e soldado do governador tucano de São Paulo e presidenciável João Doria Jr]. Mas, apesar disso, os fatos são relevantes juridicamente, então você precisa ter o máximo de informação para que esses fatos possam ser analisados e gerar as repercussões e eventuais responsabilizações. O presidente da CPI, o senador Angelo Coronel [do PSD da Bahia] já pediu inúmeras vezes alternativas pra fazer a CPI tramitar mesmo no sistema remoto, mas infelizmente o senador Davi Alcolumbre não tem permitido que isso aconteça.

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Repórter correspondente da revista CartaCapital em Brasília

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