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Militares e policiais entram no front da política

Política

Diante da crise de representatividade no Brasil e dos pedidos frequentes de cidadãos por “intervenção militar”, o número de candidatos com trajetória nas Forças Armadas ou na polícia promete ser significativo nas eleições deste ano. 

Um levantamento realizado pelo general da reserva Roberto Peternelli e pelo major Fábio Huss mostra que 127 membros do exército já são candidatos às eleições. Segundo Peternelli, esse número ainda pode ser maior. A lista foi atualizada recentemente, mas outros nomes ainda podem ser agregados após o fim das convenções partidárias, no próximo dia 5 de agosto.

Não são apenas militares que flertam com a política, mas também policiais. O último nome a surgir como candidato das forças de segurança do Estado foi o da tenente-coronel da Polícia Militar Carla Danielle Basson, que passou a ocupar a vaga de vice na chapa de Paulo Skaf (MDB) para o governo de São Paulo. A candidatura será formalizada no próximo dia 28, durante a convenção partidária.

A quantidade de pré-candidatos militares levantada por Peternelli é 160% maior do que a de três meses atrás. De acordo com a listagem produzida, 36 dos 127 candidatos estão na ativa, ou seja, ainda pertencem a alguma força armada e poderão voltar a seus cargos se não forem eleitos. Apenas o Acre não tem nenhum candidato militar. O Rio de Janeiro, palco das discussões de segurança pública, está na frente com 21 candidatos. Em seguida vem o Distrito Federal (17), o Rio Grande do Sul (12) e o Mato Grosso do Sul (11).

O PSL de Jair Bolsonaro vem no topo da lista de filiações escolhidas, distante de todos os outros partidos com 72 candidatos até agora. Depois dele, aparecem PRP (8) e DEM (5). O resto dos candidatos está homogeneamente disperso em outros 18 partidos.

O general da reserva Hamilton Mourão afirmou, em fevereiro, que a onda de candidaturas de policiais e membros das forças armadas constituía uma frente organizada e que ele planejava coordená-la. Peternelli, candidato à deputado federal pelo PSL e amigo próximo de Mourão, integra a frente e diz ter ajudado em sua articulação. 

“Nós procuramos há mais ou menos um ano levantar nomes que poderiam contribuir para o bem comum da sociedade. Colocamos esses nomes dentro de cada estado e procuramos estimular essas pessoas a participarem das atividades políticas tendo em vista a importância delas. Dessas pessoas, algumas concordaram, a lista foi se ajustando. Outras pessoas cientes da lista me procuravam e informavam que eram candidatos”, explicou. 

Mourão declarou à imprensa que, se eleitos em número suficiente, a ideia é formar uma bancada militar com os candidatos no Congresso. Filiado ao PRTB, ele diz que não será candidato nessas eleições, embora ainda seja cotado como um possível vice de Bolsonaro. Além de cortejar Mourão, o presidenciável ainda tenta convencer o PRP a indicar o general da reserva Augusto Heleno como seu vice após o partido rejeitar o convite.

Mourão afirmou recentemente que usaria sua imagem para ajudar nas campanhas dos colegas. O general é apoiador de Bolsonaro e já defendeu publicamente Carlos Brilhante Ustra, reconhecido pela Justiça como torturador por conta de sua ação durante a ditadura militar. Em uma palestra promovida no ano passado pela maçonaria em Brasília, Mourão chegou a sinalizar uma possível intervenção das Forças Armadas caso as instituições “não resolvam o problema político”.

Novidade eleitoral
O boom de candidaturas é recente. Nas eleições de 2010, quase não houve candidatos militares significativos e, em 2014, o desempenho foi modesto. Segundo Peternelli, a crise de corrupção e o sucesso da candidatura de Bolsonaro também impulsionaram a participação política de seus pares. Em seu caso, o próprio candidato à presidência o convidou a migrar ao PSL. 

Para Fábia Berlatto, doutora em Sociologia, houve um crescimento dessas candidaturas a partir de 1998, com pico percentual de 5,1% em 2006. “Creditamos intuitivamente esse pico de 2006 à crise gerada pelos ataques do Primeiro Comando da Capital ocorridas naquele ano e que alcançaram diversos estados, mas isso não está comprovado”, afirma. 

A movimentação está, de fato, em sintonia com o aumento da atuação das Forças Armadas no País. O ano se iniciou com a pauta da segurança pública em alta, com rebeliões em presídios e a intervenção na segurança do Rio de Janeiro.  “O medo capitaliza os discursos da segurança pública. O engajamento dessa categoria na Câmara é pelo reforço ou ampliação de formas mais repressivas de controle social“, explica Fábia, citando os discursos que pregam o aumento da repressão e do encarceramento. 

Berlatto é co-autora do estudo “Da polícia à política”, que analisou o perfil dos candidatos das forças repressivas do Estado à Câmara dos Deputados no período de 1998 a 2014. Mesmo reduzida a tal especificidade, as conclusões do estudo ajudam a compreender esse novo cenário.

A pesquisa mostrou que 70% dos candidatos das forças repressivas do Estado escolhem se candidatar por meio de partidos que defendem a plataforma do Estado mínimo e posições conservadoras no campo comportamental. No período analisado, em média 53% dos candidatos de partidos de direita faziam parte das forças repressivas. “Ainda que a identificação com partidos de direita não seja unânime, e varia entre grandes de direita e pequenos de direita, ela existe”, comenta.

Fábia aponta que, mais recentemente, o número destes candidatos em partidos de direita de grande porte tem diminuído, sendo que 1/3 dos candidatos desse grupo tem cada vez mais optado por pequenos partidos de direita. Além disso, o número dos candidatos-policiais em pequenos partidos fisiológicos, ou seja, que não têm uma ideologia bem clara, sofreu aumento: em 1998, eles constituíam de apenas 10% do total de concorrentes, já em 2014, esse percentual subiu para 22,5%. 

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Abordagem nas redes 
As filiações desse grupo a partidos pequenos e sem recursos, com pouco ou nenhum tempo de propaganda televisiva, fez surgir uma grande quantidade de perfis tentando a autopromoção. É principalmente por meio do Twitter e do Facebook que os candidatos tentam espalhar seus discursos personalistas e, muitas vezes, polêmicos. 

Bruno Bolognesi, cientista político e co-autor do estudo apresentado, ressalta que fazer polêmica é parte estratégica da campanha eleitoral para conseguir mais seguidores nas redes. “Eles têm que ser candidatos midiáticos, usar muito as redes sociais e aparecer na imprensa. São candidatos que contam com o seu cartão de visita, com nome e sobrenome”, afirma.

Apesar de Peternelli afirmar que a frente pretende “recuperar a ética e a moral da política” e defende o “bem comum da nação” e a “democracia”, o engajamento de muito candidatos na internet mostram o contrário. Desrespeito aos direitos humanos, exaltação do nacionalismo, patriotismo e ultraconservadorismo, defesa de medidas de segurança nada brandas, ‘compra’ de briga com internautas e comentários propositalmente controversos são táticas muito recorrentes. 

O general da reserva Paulo Chagas, que concorre ao governo do Distrito Federal pelo PRP, entra na lista desses ‘militares twitteiros’. Chagas tem 47 mil seguidores na conta diariamente atualizada. Em seus posts, ele elogia a Lava Jato e a greve dos caminhoneiros, afirma que a perseguição ocorrida na ditadura militar foi “uma maravilha para toda a gente de bem” e pede “tiroteio ao acampamento” montado em Curitiba contra a prisão do ex-presidente Lula.

 

Suas postagens de maior sucesso, entretanto, são os vídeos em que ele aparece ao lado de Bolsonaro. Neles, o candidato à presidência pede que seus admiradores deem um voto de confiança ao general.

 

De acordo com a pesquisadora, a maioria daqueles que resolvem se candidatar alcançaram alguma notoriedade pessoal em suas carreiras na corporação ou no exército. “Eles são donos de um projeto próprio e não ligados à história de um partido específico, seu apelo é mais personalista”, explica Fábia. 

Com uma candidatura tão individualizada e uma base dispersa, Bruno explica que os candidatos circulam por esses pequenos partidos de uma eleição para a outra, levando consigo seus eleitores. 

“Os partidos não têm capital e não tem estrutura para oferecer, são terra de ninguém, entra quem tiver votos pessoais”, explica Bruno. “Suas candidaturas são focadas na reputação pessoal, na capacidade do indivíduo de fazer voto. Não são ligadas a um programa partidário. Eles se autofinanciam. Tudo é livre.”

Para fazer sua imagem, eles recorrem a táticas como adotar nome de urna de “general”, “major”, “capitão”, promover financiamento coletivo e até fazer uso de bots – robôs programados para interagir, compartilhar e fazer volume de seguidores – nas redes sociais. Uma pesquisa do InternetLab mostrou que 35% do seguidores do Bolsonaro são bots, somando 400 mil perfis falsos. Apenas Marina Silva, da Rede, e Geraldo Alckmin, do PSDB, tem mais robôs como seguidores que o presidenciável do PSL.

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Estagiária de Jornalismo do site de CartaCapital

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