Política
Michelle ignora campanha de Flávio Bolsonaro e frustra estratégia para atrair eleitorado feminino
Ex-primeira-dama deixa de fazer aceno enfático à candidatura do enteado durante evento em Brasília e diz que o apoiará ‘no momento certo’
A tentativa da pré-campanha à Presidência da República de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de aproximar sua imagem do eleitorado feminino esbarrou, mais uma vez, na resistência de Michelle Bolsonaro (PL). Nos bastidores do lançamento da pré-candidatura do deputado distrital Thiago Manzoni (PL-DF) à Câmara dos Deputados, realizado na noite de terça-feira 9, em Brasília, integrantes da equipe do senador esperavam que a ex-primeira-dama fizesse uma manifestação explícita de apoio ao projeto presidencial do filho mais velho de Jair Bolsonaro (PL). O gesto, porém, não veio.
Segundo relatos de pessoas ligadas à campanha, Michelle foi procurada para fazer um aceno contundente à candidatura durante sua participação no evento. No discurso, entretanto, ela evitou referências diretas ao projeto eleitoral de Flávio. A única sinalização ocorreu depois, ao conversar com jornalistas, quando afirmou que apoiará o senador “no momento certo”.
A declaração não foi suficiente para dissipar o desconforto entre setores da pré-campanha. Para aliados de Flávio, esse “momento certo” já teria chegado. A avaliação é de que a candidatura atravessa uma fase que exige demonstrações públicas de unidade do grupo bolsonarista.
O “climão” ficou ainda mais evidente depois que a atual governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), disse em discurso que Michelle poderia concorrer ao Palácio do Planalto. “Michelle, você poderia alçar voos altíssimos, como presidente do Brasil, você sabe, mas no DF uma cadeira de Senado será sua”, afirmou.
A preocupação da campanha de Flávio foi reforçada pela pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta quarta-feira 10, que apontou uma queda do desempenho do senador em uma eventual disputa direta contra o presidente Lula (PT). Segundo o levantamento, Lula aparece com 44% das intenções de voto no segundo turno, contra 38% do bolsonarista. Nos levantamentos anteriores da mesma empresa, divulgados entre março e maio, os dois apareciam em situação de empate técnico. A pesquisa está registrada sob o número BR-07661/2026.
Nos bastidores, integrantes da campanha também citam os desdobramentos do caso envolvendo a relação de Flávio com o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. O episódio ganhou visibilidade após a divulgação de áudios nos quais o senador aparece cobrando dinheiro para financiar o filme Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro. Pesquisa divulgada pela Quaest mostrou que a maioria dos entrevistados considera que Flávio errou ao buscar esse financiamento.
Diante disso, a equipe do senador tenta reforçar sinais de renovação e ampliar pontes com segmentos do eleitorado que tradicionalmente apresentam maior resistência ao bolsonarismo. Uma das estratégias passa pela valorização de lideranças femininas.
Nos últimos dias, Flávio indicou preferência por mulheres, tanto para ocupar a vice-presidência quanto para comandar a área econômica em um eventual governo. Entre os nomes que circulam com mais força está o da ex-ministra da Agricultura e senadora Tereza Cristina (PP-MS) para a composição da chapa presidencial.
Na área econômica, a economista Daniella Marques desponta como principal referência do projeto. Ex-presidente da Caixa Econômica Federal e integrante da equipe econômica do governo Jair Bolsonaro, ela vem participando de agendas e discussões ligadas à elaboração do programa de governo. Internamente, alguns aliados já a descrevem como o “Posto Ipiranga” de Flávio, em referência ao papel desempenhado por Paulo Guedes na campanha presidencial de 2018.
Apesar disso, interlocutores do senador avaliam que a montagem desse desenho ganha força apenas se houver, ao menos simbolicamente, a participação de Michelle. A leitura é que uma demonstração pública de sintonia da ex-primeira-dama ajudaria a legitimar as escolhas e reforçaria a mensagem direcionada ao eleitorado feminino.
Por isso, mais do que uma declaração formal de apoio, a campanha busca a “anuência” de Michelle. Até agora, porém, a ex-primeira-dama tem repetido que sua prioridade continua sendo a recuperação de Jair Bolsonaro, deixando para um momento posterior um engajamento direto na disputa presidencial.
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