Política

Opinião

Michel Temer, o presidente surreal

por Fábio Terra — publicado 09/06/2017 04h00, última modificação 09/06/2017 11h15
A melhor forma de entender o apego do peemedebista ao cargo é fazer um restrospecto de todos os esforços feitos para chegar à presidência
Beto Barata/PR/Fotos Públicas
O presidente Michel Temer

Em seu surrealismo, Temer se coloca como um messias, cuja missão é, em suas próprias palavras, 'colocar o Brasil nos trilhos'

“Quem não quer ser lobo, não lhe vista a pele”, diz o adágio popular. Logo, quem quer ser, que a vista.

Michel Temer sabe disso muito bem. Assim, a melhor forma de entender a resistência do peemedebista em renunciar ao cargo de presidente é olhar para todos os esforços que ele fez para chegar ao cargo.

O primeiro sinal da vontade de Temer de ser presidente foi o lançamento, em outubro de 2015, do "Ponte para o Futuro", um programa de governo do PMDB que, naquela época, ainda fazia parte do governo Dilma Rousseff.

Pouco depois, ‘vazou’ uma carta em que ele chorava suas mágoas com a presidenta petista. Surrealmente, Temer se disse surpreso com a carta ter vindo a público enquanto que, surpresos, nos perguntávamos: se ele tinha medo do ‘vazamento’ da carta, por que não falou com Dilma pessoalmente? Não trabalhariam os dois no mesmo Palácio do Planalto? Não teria ele, o telefone dela? O Jaburu não fica ao lado do Alvorada?

Depois, o desejo Temer pela presidência expressou-se pelo partido por ele presidido (e pelo qual ele foi eleito à vice-presidência) ter saído, em 29 de março de 2016, do governo para o qual foi eleito. Embora o PMDB deixasse, então, de ser governo, Temer permaneceu na vice-presidência do governo do qual saiu.

Obsessivo, em 7 de abril de 2016, portanto, antes do julgamento do impeachment de Dilma na Câmara, ocorreu um novo ‘vazamento’: um áudio de Temer dizendo à nação que se sentia preparado para ser presidente, mesmo ainda existindo uma presidente no cargo.

Em guerra com o governo com o qual foi eleito, mas do qual saiu, Temer pregava a pacificação e reunificação do país, querendo o cargo de presidente por meio de algo tão pacífico e unificador como um processo de impeachment.

Temer alcançou seu sonho interinamente em 12 de maio de 2016 e, em definitivo, em 31 de agosto de 2016, quando o Senado ratificou o impeachment de Dilma.

Porém, permaneceu o caráter surreal de tudo o que envolveu sua chegada ao cargo.

Em seus seis primeiros meses de governo (interino e definitivo, portanto) Temer perdeu seis ministros. Dos seus cinco assessores especiais, quatro não estão mais com ele e destes, dois estão presos. Claro, é impossível esquecer que ele é o primeiro presidente de nossa história a ser investigado pelo STF por conta do ‘encontro gravado’ entre o presidente e Joesley Batista, em maio de 2017.

Sejamos todos surreais e finjamos que houve edições no áudio gravado por Joesley: ainda assim, o presidente não o ouviu dizendo que havia comprado juiz e procurador da república? Não percebeu que ele queria atrapalhar a Operação Lava Jato? Não o notou dizendo que pagava propina a Cunha? Achou mesmo que era uma ajuda à uma família despossuída? Como não sugeriu a Joesley ajudar os milhões de brasileiros que passam fome? Onde estariam os ouvidos, e o bom coração, de Temer?

A não correção dos erros no presente é a porta aberta para sua recorrência no futuro.

O que acontece no Brasil é surreal. Já o era com Dilma e assumiu contornos dramáticos com o nosso presidente surreal.

Embora saibamos que Temer quer se proteger com a prerrogativa do foro privilegiado, entremos na onda do governo surreal que nos lidera. Assim, perceberemos que, em seu surrealismo, Temer se coloca como um messias, que crê ser o obstinado portador da missão de, em suas próprias palavras, “colocar o Brasil nos trilhos”.

Uma dica bíblica cabe-nos, então: “Vigiai-vos dos falsos profetas que se chegam a vós em pele de ovelha, mas que por dentro são lobos vorazes”.

*Fábio Terra é professor do Instituto de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Uberlândia.