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Messias, dosimetria e vitórias de Pirro
Quais os efeitos das derrotas ‘históricas’ do governo?
A cereja da “rebelião” de Davi Alcolumbre, presidente do Senado, foi instalada nesta quinta-feira 30 no topo do bolo. O Congresso derrubou os vetos do presidente Lula à dosimetria, essa forma de anistia disfarçada aos golpistas fracassados sob o comando de Jair Bolsonaro. Também é possível prever as manchetes da mídia, por óbvias. A derrota “histórica” concretizada na rejeição a Jorge Messias a uma cadeira no Supremo Tribunal Federal, a primeira em mais de 100 anos, expõe, claro, a fragilidade da articulação política do governo Lula, mas igualmente escancara a soberba de Alcolumbre e da oposição bolsonarista. O que parece e é retratado como uma humilhação retumbante daqui a pouco pode não passar de uma vitória de Pirro, só outro episódio da degradação política e institucional do Brasil que tem no Congresso o seu símbolo mais escancarado.
Boa parte dos comentaristas políticos mistura, de forma consciente ou irracional, desejo, torcida, com análise. Após a derrota de Messias, uma indicação mal digerida pelo Senado não por eventuais erros ou virtudes, mas pela birra de Alcolumbre, obcecado em demonstrar seu poder e negociar a própria reeleição ao comando da Casa em 2027, a turma de sempre se apressou em martelar o último prego no caixão eleitoral do presidente Lula. Tudo, lê-se e ouve-se por aí, estaria definitivamente perdido, o petista tornou-se um “pato manco”, uma liderança à espera de um fim de mandato melancólico. Faltam seis meses até os brasileiros irem às urnas. Pelo histórico, é razoável afirmar que a maioria da população, a esta altura, interpretará os acontecimentos como mais um barraco, ao estilo BBB, da elite política brasileira, à qual desprezam. A oposição, claro, aproveita o momento, mas sabe que a festa não durará até outubro. Vão se esbaldar enquanto ela durar.
Quanto ao governo, talvez seja o caso de esperar o resultado das eleições. Caso reeleito, Lula terá força redobrada para indicar um novo nome ao Supremo. Se o fizer antes, corre o risco de uma nova derrota. Em um quarto mandato, o último, o petista estaria diante da oportunidade de contrariar o estilo conciliador na relação com o comando do Congresso. Alcolumbre não é nem aliado nem confiável. Um certo grau de confronto, como aquele ensaiado no movimento “Congresso inimigo do povo”, não lhe faria mal.
Por fim: a rejeição a Messias reativou uma avaliação equivocada. Segundo essa tese, a indicação de uma mulher, negra de preferência, teria enfrentado menos resistência. Ampliar a presença feminina no Supremo é uma pauta essencial, mas qualquer outro indicado que não atendesse à vontade de Alcolumbre seria derrotado. No desejo imperial do presidente do Senado, o candidato, com ou sem saia, branco ou preto, evangélico, católico ou ateu, só teria aval caso se chamasse Rodrigo Pacheco.
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