Mensagens de blogueiro bolsonarista mostram como funcionavam ataques coordenados

Nas conversas em posse da CPI, Bernardo Kuster diz que as ordens partiam do ‘GDO’, sigla para Gabinete do Ódio

 Foto: Reprodução/Mídia Social

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Política

Mensagens em poder da CPI da Covid mostram detalhes de como funcionavam os ataques aos opositores de Jair Bolsonaro coordenados pelo grupo conhecido como Gabinete do Ódio. As conversas mostram que ordens chegavam a blogueiros via WhatsApp e eram espalhadas aos pares via grupos. Ações seriam coordenadas diretamente por assessores do presidente, como Filipe G. Martins e Tércio Arnaud.

“Recebi ordens do GDO [sigla para Gabinete do Ódio] para levantar forte a tag #DoriaPiorQueLula. Bora lá no Twitter”, escreveu em um grupo de WhatsApp o blogueiro bolsonarista Bernardo Küster em abril de 2020. A ação de ataque ao governador João Doria (PSDB-SP) foi então apoiada pelos integrantes do grupo. As conversas foram divulgadas pelo jornal O Globo.

A menção ao grupo nas conversas não é a única. Em outras conversas, Küster questiona o assessor do presidente para assuntos internacionais, Filipe G. Martins, sobre a presença de um ‘gordinho de óculos’ em uma entrevista gravada por ele com Jair Bolsonaro em dezembro de 2019. A resposta de Martins menciona nominalmente o grupo, ainda que de forma irônica.

“O Tércio. Membro original do gabinete do ódio”, responde Martins se referindo a Tércio Arnaud, assessor especial da Presidência.

As mensagens indicam ainda que Jair Bolsonaro era de fato aconselhado pelo grupo a tomar determinadas ações. A atuação fica evidente uma troca de mensagens entre Küster e outro assessor diretor do ex-capitão, Mateus Diniz.

Na conversa também de dezembro de 2019, o blogueiro sugere que Bolsonaro grave um vídeo com uma mensagem natalina de ‘esperança’ aos brasileiros. A resposta recebida novamente demonstra a participação do grupo na comunicação do presidente.

“O Gabinete do Ódio Ltda. Já pensou nisso hahaha”, escreve Diniz.

Em outro diálogo, o blogueiro ainda pede orientações ao assessor parlamentar da deputada bolsonarista Caroline de Toni (PSL-SC) sobre um ataque que planejam realizar contra a deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), ex-aliada.

Ele questiona o assessor se poderia ‘vazar’ uma informação que obtiveram contra a parlamentar. A informação seria parte dos documentos sigilosos juntados na CPMI das Fake News, das quais o assessor tinha acesso.

“Falei com o adv [advogado] do gabinete do Edu, e ele disse que vai tentar outro caminho […] Se isso vier a público agora, a Joice vai solicitar ao pessoal lá quem acessou [o sistema]. Vai foder o cara lá e a mim tbm [sic], que contei”, orienta o assessor.

Segundo a reportagem, o ‘Edu’ a quem o assessor faz menção na mensagem seria o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente. Na ocasião, Joice e Eduardo tinham rompido a aliança e a parlamentar acabou por virar alvo dos bolsonaristas.

O mesmo assessor também confirma a existência do gabinete do ódio e da participação dos assessores do presidente no grupo responsável pelos ataques. No diálogo em que as confirmações ocorrem, o blogueiro bolsonarista é avisado que será convocado pela CPMI para depor após a divulgação de uma reportagem que relata sua participação no GDO.

“Absurdo mesmo. O pessoal do Gabinete do Ódio tbm [sic] foi assim. Filipe G. Martins também foi convocado com base nessa reportagem lixo”, destaca o funcionário da deputada a Küster.

Questionado pelo jornal carioca a respeito do conteúdo das conversas, o blogueiro nega a existência do grupo, afirma que nunca recebeu ordens de ninguém para atacar opositores e alega que as menções ao Gabinete do Ódio eram ‘uma brincadeira’. Martins preferiu não se pronunciar e Arnaud não foi encontrado.

“Eu digo isso, ‘ordens do GDO’, mas na verdade não tem ordem de ninguém. Nunca recebi ordem do Carluxo [referência ao vereador Carlos Bolsonaro, apontando como chefe do grupo] nem de ninguém. É uma coisa espontânea, uma brincadeira. Se o GDO de fato existisse, ninguém saberia”, justificou o blogueiro, que não revelou quais eram as informações que pretendia ‘vazar’ sobre Joice Hasselmann.

 

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