Política
Medicina ancestral
Projeto pioneiro no Ceará transforma saberes indígenas em fitoterápicos distribuídos pelo SUS
O que, durante séculos, foi transmitido de geração em geração pelos povos indígenas agora recebe reconhecimento científico e se torna política pública de saúde. No Ceará, plantas medicinais tradicionalmente utilizadas pelos povos originários serão transformadas em medicamentos fitoterápicos e distribuídas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em unidades básicas instaladas nos territórios indígenas. A iniciativa integra o projeto “Interculturalidade e Farmácias Vivas”, desenvolvido pela Secretaria Estadual da Saúde, em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC) e o Ministério da Saúde, por meio do Distrito Sanitário Especial Indígena.
Ao todo, serão produzidos dez fitoterápicos a partir de espécies cultivadas pela própria comunidade. Após o plantio, a coleta e o processamento, elas darão origem a xaropes para doenças respiratórias, pomadas e géis para problemas de pele, além de tinturas e sachês voltados ao cuidado em saúde mental. Pioneiro no Brasil, o projeto tem início em territórios indígenas, onde foram implantados quatro hortos e selecionados bolsistas responsáveis pelo plantio, cultivo e coleta das espécies medicinais.
Embora já dominem saberes tradicionais sobre o uso dessas espécies, os bolsistas passaram por capacitação técnica, que integrou conhecimentos científicos e práticas de cultivo voltadas à produção de fitoterápicos. Após a colheita, o material é encaminhado ao laboratório farmacêutico do Estado, onde é processado e transformado em medicamentos.
Dos quatro hortos implantados, três já estão em estágio avançado de produção. “Apenas um ainda não realizou colheita porque enfrentamos problemas relacionados ao solo e à adubação. Como fica em uma região litorânea, o terreno é mais arenoso e exige um manejo diferenciado. As espécies precisaram ser replantadas. Nos outros três, a colheita acontece de forma gradual. É um trabalho contínuo”, explica Edvan Tremembé, assessor de Controle Social do Distrito Sanitário Especial Indígena do Ceará e responsável pela coordenação dos cultivos. Além do trabalho agrícola, os bolsistas atuam como multiplicadores de conhecimento nas aldeias, promovendo atividades educativas com jovens e em escolas locais para fortalecer a valorização das plantas medicinais e dos saberes tradicionais.
A previsão é que os fitoterápicos comecem a ser distribuídos pelo SUS entre o fim deste ano e o início do próximo. Até lá, os profissionais de saúde que atuam nas aldeias também passarão por capacitação para prescrever os medicamentos e orientar os pacientes sobre seu uso correto.
“A meta é produzir 75 mil unidades de fitoterápicos com a participação direta dos povos indígenas para abastecer os 17 municípios cearenses com aldeias. Queremos ampliar o acesso seguro a esses medicamentos e incentivar seu uso racional entre os pacientes”, afirma a farmacêutica Ana Georgina Oliveira, da Coordenadoria de Políticas de Assistência Farmacêutica e Tecnologias em Saúde da Secretaria da Saúde do Ceará.
Os medicamentos serão distribuídos nos 17 municípios cearenses com aldeias demarcadas
O projeto beneficiará cerca de 30 mil indígenas aldeados no Ceará. Entre as espécies cultivadas estão chambá, babosa, capim-santo, hortelã e alecrim-pimenta, plantadas nas comunidades Tapeba, Tremembé da Barra do Mundaú, Tabajara/Calabaça e Pitaguary. Todas passaram por identificação botânica, catalogação e validação científica realizadas pela UFC, processo que garante a eficácia e a segurança terapêutica dos fitoterápicos.
Para a pesquisadora Mary Anne Medeiros, coordenadora do Horto de Plantas Medicinais Professor Francisco José de Abreu Matos, vinculado à UFC, a iniciativa representa uma aproximação entre o conhecimento científico e as práticas tradicionais: “A academia, quando se encontra com os saberes dos indígenas, se fortalece não apenas pelo contato com quem utiliza essas plantas medicinais, mas também pelo contexto cultural em que esse conhecimento está inserido. Nesse encontro, todos saem fortalecidos: a academia e a comunidade”.
“Esses saberes milenares já eram transmitidos pelos cuidadores dentro dos territórios. Agora, com o projeto, esse conhecimento passa a ser valorizado e se transforma em medicamento, ampliando o acesso ao cuidado e fortalecendo o subsistema de saúde indígena”, completa Tremembé, do Dsei Ceará. O líder indígena acrescenta que os medicamentos terão rótulos com informações sobre a origem das espécies e as etnias responsáveis pelo cultivo. “É um reconhecimento muito importante para o nosso povo, porque essas plantas fazem parte das nossas vidas desde sempre.”
Para Rufina Ribeiro, agente indígena de cultivo da comunidade Pitaguary, a iniciativa representa o resgate da ancestralidade dos povos originários. “A gente vivia dessas plantas, não tinha acesso a medicamentos convencionais. Sempre fizemos nossos próprios remédios. E, agora, ver que nossa vivência está sendo valorizada só confirma nossas tradições.”
Voltado inicialmente para atender a população indígena do Ceará, o projeto “Interculturalidade e Farmácias Vivas” deve ser replicado em comunidades tradicionais de outros estados e, futuramente, pode beneficiar a população em geral. “A princípio, nosso foco são os povos originários do Ceará, mas esperamos que essa experiência abra caminhos e seja levada a outros lugares. Quem sabe, no futuro, ela possa se transformar em uma política pública nacional, com financiamento permanente para as ‘farmácias vivas’ em todo o País”, prevê Ana Oliveira. •
Publicado na edição n° 1424 de CartaCapital, em 05 de agosto de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Medicina ancestral’
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