Marielle Franco vira referência para candidatos a vereador em São Paulo

Pautas que marcaram a carreira da política assassinada em 2018 se tornam compromissos nas eleições municipais

A ex-vereadora Marielle Franco. Foto: Instituto Marielle Franco

A ex-vereadora Marielle Franco. Foto: Instituto Marielle Franco

Política

As bandeiras defendidas por Marielle Franco, assassinada em 2018 junto com o seu motorista Anderson Gomes, viraram compromissos de mais de 50 candidaturas aos cargos de prefeito e vereador em São Paulo.

 

 

Unidos em torno da Agenda Marielle Franco, iniciativa que reuniu 753 nomes em todo o País, os candidatos afirmam que pretendem levar adiante o legado da ex-vereadora.

Ao todo, são sete as pautas principais que envolvem justiça racial e econômica, defesa da vida, gênero, sexualidade, saúde pública, cultura, esporte e lazer. O documento também pontua quais devem ser as práticas adotadas pelos que aderem à agenda.

O movimento, lançado durante a campanha eleitoral pelo instituto que leva o nome de Marielle, é suprapartidário. Na capital paulista, conta com candidatos a vereador pelo PT, PSB, PCdoB, PDT, Rede, UP, PMB e PSOL. Dos nomes que disputam a Prefeitura, somente o de Guilherme Boulos (PSOL) aparece na lista.

A maioria das 52 assinaturas dos candidatos de São Paulo é formada por mulheres, negras e periférias. É o caso de Tamires Sampaio (PT), que concorre a uma cadeira na Câmara Municipal. Para ela, há problemas estruturais que Marielle enfrentou no Rio de Janeiro que se repetem na capital paulista.

“O assassinato dela foi um processo que amedrontou muita gente. É como se fosse um recado: ‘Vocês mulheres pretas não devem estar na política, não devem estar no poder e não podem enfrentar milicianos e genocidas’. Aqui em São Paulo, só duas mulheres negras foram eleitas vereadoras e isso mostra o quanto ainda falta. A decisão de me candidatar foi tomada na perspectiva de enfrentamento ao racismo”, diz em conversa com CartaCapital.

 

‘Marielle é uma grande referência para mim’, diz Tamires. Foto: Guilherme Fahl

 

No documento que oficializou o lançamento da agenda, o Instituto Marielle Franco diz que o objetivo é “reforçar que fazer política deve ir além da proposição de projetos de lei”. O texto também fala em “potencializar as inúmeras sementes que disputam esse espaço tão hostil e violento que é a política institucional, em especial, para mulheres negras”.

Na zona leste de São Paulo, a candidata a vereadora pelo PDT Letícia Gabriella se considera uma dessas sementes.

“A morte de Marielle me fez perceber que nossas histórias são muito parecidas. Ela é exemplo de luta, de força e de voz ativa. Minha candidatura é o oposto do que se vê na política atual. Eu, como ela, sou uma jovem preta da periferia que luta para que possamos ter maior representatividade nos espaços de poderes”, diz.

Para a definição dos compromissos que aparecem na agenda, os organizadores dizem que o processo se deu em 4 etapas: assistir aos discursos de Marielle, entrevistar algumas das assessoras, estudar as justificativas de projetos de lei e sistematizar as observações. O prazo para as inscrições encerrou-se em 18 de outubro.

 

Para Letícia, ‘política deve ser feita de forma representativa e plural’. Foto: Jé Versátil

 

Candidato a vereador pelo PSB, Gabriel Oliveira também enxerga a ex-vereadora como uma referência para a sua vida pública.

“Todo mundo que vem de lutas antirraciais tem Marielle como referência daquilo que gostaríamos de ver no poder público e nos espaços de poder. Infelizmente, perdemos uma pessoa que lutava por aquilo que a gente acredita. Não só pessoalmente, mas coletivamente. Ela conseguiu ganhar espaço e dar voz a muitas pessoas excluídas. Quando se perde alguém com potencial tão grande de influenciar outras pessoas, é uma perda social muito grande para quem acredita no que ela defendia”, afirma.

 

Inclusão dos LGBTQI+, defesa da vida dos jovens negros, educação e cultura são os eixos que ligam o candidato às pautas de Marielle. Foto: Leone Ferreira

 

Marielle foi assassinada no dia 14 de março de 2018 em um crime que não foi esclarecido. Nesta semana, o Ministério Público do Rio de Janeiro pediu à Justiça que o sargento reformado da PM Ronnie Lessa e o ex-soldado Élcio Vieira de Queiroz, principais suspeitos da execução, fiquem em presídios diferentes.

Para Tamires, “fizeram com uma perspectiva de amedontrar, mas acabou virando um combustível”.

 

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