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Marielle, Bolsonaro e a importância do repúdio à violência na política

Política

Menos de um mês após a facada quase fatal sofrida por Jair Bolsonaro, candidatos de seu partido, o PSL, agrediram a memória de outra liderança política vítima da violência desproporcional que assola o País. 

Rasgaram uma homenagem à vereadora do PSOL Marielle Franco, assassinada em março deste ano, que ganhou de seus saudosos simpatizantes uma adesivo que simula uma placa com seu nome. O tributo foi estampado na Cinelândia, no Rio de Janeiro, em cima da chapa oficial do logradouro, a praça Floriano. 

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Após a repercussão, um dos responsáveis, Daniel Silveira, candidato à deputado federal pelo PSL, afirmou em seu perfil no Facebook que a foto foi retirada de contexto. “De certo que a morte da conhecida vereadora deve ser investigada e os autores punidos, no entanto, não deve servir de desculpas para depredação do patrimônio público”. 

Em um estado que vive uma intervenção federal na segurança pública capitaneada pelas Forças Armadas, certamente a suposta “depredação do patrimônio público” deveria ser alvo das autoridades, se tão grave fosse. Com a proximidade das eleições, de que serve partir ao meio uma saudade alheia sob o pretexto de exercer uma fiscalização que nem os militares ou policiais na cidade julgaram necessária? 

Outro argumento do candidato a deputado é que Marielle é apenas um dos 60 mil mortos e vítimas da violência por ano no País. Pensaria o mesmo de Bolsonaro, se também tivesse engrossado a tenebrosa estatística? Como se sentiria se seu candidato fosse homenageado por ter resistido à facada e alguém da “esquerda” violasse um tributo ao seu presidenciável?

Não houve candidato à Presidência do campo progressista que não tenha repudiado a violência sofrida por Bolsonaro. Guilherme Boulos, do PSOL, Ciro Gomes, do PDT, e seu provável adversário no segundo turno, Fernando Haddad, do PT, condenaram prontamente o atentado. Não se escudaram na ideologia para descumprir seu dever enquanto homens públicos em uma democracia. 

Não cabe relembrar todas as vezes que Bolsonaro prometeu combater violência com mais violência. O candidato sempre demonstrou pouco apreço pelas agressões sofridas por seu adversários. No caso de Marielle, ficou em silêncio. Sobre os tiros à caravana de Lula pela região Sul do País, sugeriu que foi obra de petistas. 

Ao ser vítima da facada, o candidato bem poderia ter uma epifania. Enquanto muitos de seus críticos duvidavam da agressão com base em teorias conspiratórias, ele passou por cirurgias e teve momentos de instabilidade clínica. Para que duvidar da violência sofrida por um adversário? Não é melhor repudiá-la, antes de sugerir uma versão mirabolante e sem provas ou mesmo negar uma palavra de conforto para não incomodar seus apoiadores?

É estranho imaginar um presidente em silêncio sobre a morte de uma parlamentar, não importa de que legenda. Michel Temer é adversário político de Marielle, mas classificou seu assassinato ainda não esclarecido como uma “extrema covardia”. É o mínimo que se espera de alguém que aspire ao mais alto posto da República. 

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