Entrevistas
Márcio França aguarda Lula
Convicto da permanência de Alckmin na vice, o ministro se coloca como opção para enfrentar Tarcísio no maior colégio eleitoral do Brasil
Entre as muitas dúvidas que permeiam as eleições de outubro, Márcio França tem uma convicção: Geraldo Alckmin, seu companheiro de PSB, será novamente o vice de Lula (PT), que buscará o quarto mandato.
Permanece, contudo, um ponto de interrogação sobre uma disputa que França conhece bem: pelo governo de São Paulo. Em 2018, perdeu por pouco para o então tucano João Doria, por 51,7% a 48,3%. Agora, é um dos cotados para representar Lula na corrida ao Bandeirantes, embora a lista de potenciais candidatos seja tão extensa quanto incerta.
Fernando Haddad (PT) continua a dizer que não será candidato, embora seja uma opção natural para Lula: foi prefeito da capital e é um dos auxiliares de maior confiança do presidente. Pesam contra o ministro da Fazenda, por outro lado, as derrotas de 2016 (na cidade de São Paulo), 2018 (Presidência) e 2022 (governo paulista).
Com poucas chances de convencer Haddad ou Alckmin a entrar na disputa, passou a ganhar corpo uma alternativa até recentemente considerada improvável: Simone Tebet. Para que esse plano avance, no entanto, a ministra do Planejamento teria de cumprir um roteiro complexo: transferir o domicílio eleitoral de Mato Grosso do Sul, deixar o MDB (alinhado à reeleição de Tarcísio de Freitas) e se filiar a um partido da base lulista. O PSB já formalizou o convite. A resposta, porém ainda não veio.
“Todas as hipóteses estão na mesa para a decisão do presidente, que é quem lidera”, disse França em conversa com CartaCapital. Ele próprio deixará o ministério até abril, prazo final de desincompatibilização para quem pretende disputar as eleições.
França não esconde que se vê como um candidato natural ao governo paulista. “Fui governador, tenho uma carreira de 40 anos, não tem por que não ser”, resume.
Nos bastidores, auxiliares do governo avaliam que Haddad, se decidir entrar na corrida eleitoral, pode preferir o Senado. Isso abriria espaço para Lula apoiar um nome de outra legenda, como França ou Tebet.
Entre os que defendem a aposta no ministro, há quem mencione o fato de Simone Tebet não ser de São Paulo — uma crítica que muitos lulistas fizeram a Tarcísio em 2022.
“É legítimo se ela estiver disposta a mudar de estado. Naturalmente, a condução desse processo todo tem de ser feita pelo presidente”, contemporiza França. “Estamos em um governo só.”
A favor de Tebet pesa a possibilidade de atrair setores historicamente resistentes ao PT, como o agronegócio. Em 2022, ela terminou a disputa presidencial em terceiro lugar, com 4,16% dos votos. Em São Paulo, foi além: 6,34%, o equivalente a 1,6 milhão de eleitores.
O cuidado na construção do palanque no maior colégio eleitoral do Brasil não é trivial. Há quatro anos, Lula perdeu para Jair Bolsonaro (PL) no estado por 55% a 45%, mas amealhou 11,5 milhões de votos, uma contribuição decisiva para seu triunfo nacional.
A diferença pró-Bolsonaro foi de cerca de 2,7 milhões. “Uma coisa é perder aqui por dois milhões. Outra é perder por seis ou sete milhões. Aí não há onde compensar”, alerta França.
Questionado sobre suas prioridades, o ministro diz que a principal missão do PSB é garantir Alckmin na vice. A decisão, afirma, é estratégica não apenas para Lula, mas para o partido, que busca eleger uma bancada robusta e manter relevância.
“A presença do Alckmin é essencial para a reeleição”, diz. Mudar a chapa só faria sentido em um cenário extraordinário — como uma adesão formal, já no primeiro turno, de partidos como MDB ou PSD. Fora isso, avalia, poderia passar um sinal errado. “Como aconteceu com o Doria.”
A referência não é casual. Alçado à política por Alckmin, Doria rompeu com o padrinho, tentou viabilizar uma candidatura presidencial em 2018 e, diante do fracasso do ex-governador, aderiu a Bolsonaro. Nascia o BolsoDoria — depois desfeito na pandemia, quando o então governador virou símbolo da defesa da vacina, em oposição ao negacionismo presidencial.
O que indicam as pesquisas
Na mais recente pesquisa Real Time Big Data, divulgada em dezembro, França apareceu com 15% das intenções de voto, em segundo lugar, atrás de Tarcísio, que liderou com 50%. Erika Hilton (PSOL) surgiu com 11%, tecnicamente empatada com o pessebista.
Alckmin foi quem mostrou melhor desempenho contra o governador, mas ainda assim ficou 19 pontos atrás. Nas próximas semanas, Lula deve receber pesquisas internas para calibrar sua decisão sobre São Paulo.
Além de definir o candidato ao governo, o Planalto precisará montar uma chapa competitiva para o Senado. Com Eduardo Bolsonaro praticamente fora do jogo, o otimismo cresce entre governistas. O xadrez é complexo, o calendário é curto — e, como quase sempre, a decisão final ficará nas mãos de Lula.
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.
O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.
Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.
Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.
Leia também
No RS, Lula diz que 2026 será ‘ano da comparação’ e critica Trump: ‘quer governar por rede social’
Por Wendal Carmo
Trump foi do bolsonarismo à amizade com Lula no primeiro ano
Por Deutsche Welle
Camilo Santana cogita deixar o MEC para ajudar nas campanhas de Lula e Elmano
Por CartaCapital



