Política

‘Máquina de engajamento eleitoral’: associação denuncia projeto de 52 dias da Universal

Batizada como ‘Desafio de Neemias’, a campanha termina no dia do primeiro turno das eleições

‘Máquina de engajamento eleitoral’: associação denuncia projeto de 52 dias da Universal
‘Máquina de engajamento eleitoral’: associação denuncia projeto de 52 dias da Universal
O bispo Edir Macedo, chefe da Igreja Universal. Foto: Reprodução/Redes Sociais
Apoie Siga-nos no

A 52 dias do primeiro turno das eleições, a Igreja Universal do Reino de Deus lançou uma iniciativa de timing sugestivo: o chamado “Desafio de Neemias”.

A ideia é incentivar os fiéis a “cercarem a sua fé” e os seus valores, construindo um muro, com “um tijolo por dia”. A referência é Neemias, judeu exilado que se tornou governador de Judá e que, de acordo com a narrativa divulgada pela Universal, reconstruiu em 52 dias os muros de Jerusalém, garantindo “a independência daquele povo”. O bispo Edir Macedo encabeça a iniciativa.

Na prática, o desafio é bem mais terreno. Durante 52 dias, fiéis, obreiros e simpatizantes são mobilizados em uma rotina diária de vídeos, notícias, reflexões e tarefas definidas pelas lideranças da igreja. A plataforma também estimula o cadastramento de participantes e reúne informações sobre os fiéis, seus templos e sua localização.

Essa coincidência de calendário está no centro de uma representação apresentada à Procuradoria Regional Eleitoral de São Paulo pela Associação Movimento Brasil Laico, após reportagem publicada pelo ICL Notícias. A entidade sustenta que a campanha teria sido estrategicamente desenhada para durar 52 dias e terminar exatamente no primeiro turno das eleições. Com base em evidências – que incluem relatos de ex-pastores – o texto aponta que a iniciativa ultrapassa os limites da liberdade de culto, configurando, em tese, abuso de poder econômico e político, uso de fontes vedadas de financiamento e irregularidades no tratamento de dados sensíveis dos fiéis.

Como o projeto funciona

No site oficial da campanha – que solicita identificação facial, uma senha e informações sobre qual templo, bairro, cidade e estado o fiel pertence –, os pastores são cobrados a cadastrar o maior número de membros, com inscrição mínima de 52 pessoas por cada membro. Há dez dias, havia 154 mil pessoas cadastradas.

No período até a eleição, os obreiros (auxiliares de pastor), fiéis e simpatizantes receberão diariamente um vídeo com reflexões, além de notícias e orientações de seus líderes espirituais sobre temas de interesse político que fortalecem o discurso religioso conservador. Entre esses temas, estão supostas perseguições políticas a evangélicos por regimes políticos de esquerda e o debate sobre a aprovação de leis que envolvem família, sexualidade e outras pautas morais.

No espaço destinado às notícias, há textos jornalísticos com títulos como: “Perseguição cresce: 380 milhões de cristãos sob perseguição no mundo”, “Onda de ataques e vandalismo a igrejas preocupa fiéis em várias cidades”, “PL da misoginia gera preocupação no Congresso Nacional”, e “Câmara avança em projetos que isentam sermões e pregações da lei do Racismo”, entre outros. Os seguidores receberão uma tarefa diária, a ser determinada pelos líderes da igreja.

“O que verificamos é a conversão de uma estrutura monumental de comunicação e organização religiosa em uma máquina de engajamento eleitoral”, explica Leandro Patrício da Silva, diretor-presidente da associação. Para ele, o mapeamento de eleitores mediante coleta de dados biométricos e de preferência política sob pretexto de ‘jornada de fé’ coloca em risco a liberdade do voto e a própria laicidade do Estado.

A denúncia pede apuração de abuso de poder econômico, político e religioso; arrecadação por fonte vedada; propaganda eleitoral em templos e bens de uso comum; coação e ofensa à liberdade do voto e ao Estado laico; e tratamento irregular de dados pessoais sensíveis com finalidade eleitoral.

O Movimento Brasil Laico solicita que a Procuradoria Regional Eleitoral de São Paulo oficie a Igreja Universal do Reino de Deus, ao Partido Republicanos e aos candidatos identificados para prestarem esclarecimentos, assegurado o contraditório. Além disso, solicitam perícia técnica para verificar a coleta e o cruzamento de dados biométricos, religiosos e de preferência eleitoral, comunicando os fatos à Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD).

Partido (e igreja) divididos

O Republicanos, partido ligado à igreja, decidiu pela neutralidade na corrida presidencial. A Universal deve adotar a mesma posição, apoiando pontualmente candidatos a governador e a senador nos estados.

No Rio de Janeiro, por exemplo, a tendência da igreja era apoiar Douglas Ruas, do PL. No entanto, o responsável pela Universal no estado, o bispo Honorilton Gonçalves, ex-vice-presidente da TV Record, teve um encontro na semana passada com o candidato a governador Eduardo Paes, do PSD, e agora a igreja deve apoiar o ex-prefeito do Rio.

Em Goiás, a Universal apoia a candidatura ao Senado do atual deputado do PL Gustavo Gayer. A maioria dos candidatos do Republicanos ao governo e ao Senado é identificada com o campo conservador e tende também a fechar alianças políticas com outros políticos à direita.

O bispo Renato Cardoso, genro de Edir Macedo – casado com a primogênita do fundador da Universal, Cristiane Cardoso –, é um duro crítico da esquerda. Na campanha presidencial de 2022, Cardoso, atualmente o segundo homem na hierarquia da Universal, disse que é “incompatível ser cristão e votar em partidos de esquerda”, apesar de a Universal ter apoiado os dois primeiros mandatos de Lula no Palácio do Planalto e os dois de Dilma Rousseff, entre 2003 e 2014, até o impeachment da então presidente.

Conforme reportagem de Gilberto Nascimento, também ao ICL Notícias, em fevereiro, a igreja enviou a fiéis um link, repassado após os cultos em todo o país, para colher dados dos potenciais eleitores e suas preferências políticas na eleição de outubro, a fim de identificar a intenção de votos dos fiéis.

ENTENDA MAIS SOBRE: , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

2026 já começou

Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.

A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.

Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.

Assine ou contribua com o quanto puder.

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo