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Manobras impedem babalaô Ivanir dos Santos de tentar vaga de senador

Política

“Minha tese eu dedico a uma prostituta da Praça Onze, uma camponesa da cidade de Campos, que vem ao Rio nos anos 1950 como empregada doméstica e tem um filho com um baiano”, narra o babalaô Ivanir dos Santos.

“Ela fica sozinha e tem que se prostituir na zona do mangue para sustentar o filho, passando a ser conhecida como Sonia da Mauriti. Aos oito anos essa criança é raptada, vai para Funabem. Aos 14 anos, esse menino vai de novo à praça em um domingo de jogo no Maracanã e ao tentar encontrar a mãe descobre que ela morreu, a versão oficial é de que jogou álcool no próprio corpo e suicidou-se. Esse menino sou eu. Na fase adulta ele descobre que ela foi assassinada por um policial do esquadra da morte de Olaria e a partir desse momento já são quarenta anos de luta pelos direitos humanos, contra o racismo, o genocídio. Tudo tem a ver com essa história”.

A vida que se confunde com militância e a trajetória de atuação política e junto aos movimentos sociais faz o babalaô ser reconhecido em muitos cantos do Rio de Janeiro pelo protagonismo no combate ao racismo e em defesa dos direitos humanos. Morador da Mangueira, participou da implantação da primeira Secretaria de Direitos Humanos do estado, foi interlocutor da Anistia Internacional, além de professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e articulador do Centro de Articulação de Populações Marginalizadas.

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 A livre escolha de crença é outra pauta encampada pelo líder da Caminhada pela Liberdade Religiosa, evento que no ano passado em sua décima edição reuniu 100 mil pessoas e nesse ano contará com a presença do padre Fábio de Melo e do pastor e cantor Kleber Lucas, ao mesmo tempo em que preserva nos povos de terreiro sua essência. “Precisamos de gente como o Ivanir para defender nossa cultura. Temos que dar força a todos que trabalham do nosso lado,  senão a situação fica difícil. Ele acompanha nosso axé, realiza eventos na universidade, está ha muito tempo nessa resistência. O candomblé vem disso, dos negros, sangue e matriz da gente”,fala a ialorixá Livra de Oxum,moradora da região dos lagos.

As crescentes violências contra os terreiros, a queda de representação negra nos espaços de poder aumentavam a necessidade de uma candidatura estreitamente ligada a essas causas. Buscando uma campanha ao Senado, Ivanir apresentou seu projeto aos principais partidos de esquerda do Rio. Sem espaço, fez um movimento político arriscado ao encontrar no PPS a sigla que abrigaria uma vaga para seu nome, cuja configuração seria a de uma candidatura suprapartidária, para além do presente do partido marcado pelo apoio ao golpe e às reformas de Michel Temer.

“Com o Psol não houve conversa, mesmo eu tendo apoiando Marcelo Freixo na eleição para prefeitura em 2016. Um dirigente do PT foi conversar comigo, também dialoguei com o PCdoB, mas por questões partidárias não foi possível. O mesmo aconteceu com PSB e PDT, todo queriam que eu fosse deputado federal, devido à cláusula de barreira e ao fundo partidário. Eu falava em construir uma proposta para repercutir nacionalmente e uma candidatura ao Senado impactaria o país e seria vitorioso ao ser de centro esquerda, inclusive para ter mais chances de vencer”, afirma Iradir.

A presença significativa de pastores e bispos nos parlamentos e executivos, incluindo o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB), seria pelo menos diversificada com a presença de Ivanir na Casa.

O fato de a eleição possibilitar dois votos ao senado poderia favorecer o candomblecista ao contar com o chamado voto de opinião ou voto da causa, que no Rio de Janeiro já mostraram seu peso na eleição de outros senadores negros pelo campo progressista como Benedita da Silva (PT), Geraldo Cândido (PT) (suplente que assumiu quando a titular tornou-se vice-governadora) e,mais antigamente Abdias do Nascimento (PDT).

Apesar da potencialidade e da agenda que agregava ao campo conservador, o babalaô foi surpreendido por arranjos dos caciques nos bastidores. A ampla coalizão que pode manter o MDB no poder ao eleger e Eduardo Paes pelo Democratas para o governo oficializou o vereador e ex-prefeito do Rio, César Maia (DEM) e Aspásia Camargo (PSDB) como postulantes, enquanto o PPS herdava o cargo de vice-governador, assumido por Comte Bittencourt.

“O PPS sempre defendeu a candidatura de Ivanir dos Santos para o Senado, tendo o levado, inclusive, a participar das convenções nacional do PPS e PSDB, em Brasília, o colocando em conversa com Geraldo Alckmin. O partido reforça que sempre acreditou no trabalho e na importância de Ivanir e que ele seria um nome de peso para representar o Rio. Mas, essa decisão não poderia caber única e exclusivamente ao PPS”, diz nota oficial da sigla.

Depois de reunir-se com o papa, quando esse visitou o Rio, Ivanir teve de dividir a convenção do PPS com as companhias de Roberto Freire, presidente nacional do partido, e de Geraldo Alckmin (PSDB), candidato à presidência, que prometeram interceder pela manutenção da candidatura.

babalawo e papa

Foto: xxxx

Mesmo com a posição, o interesse dos dirigentes regionais falou mais alto, trazendo como possível resultado o benefício a César Maia, personagem da política tradicional que ao colocar-se como o favorito da aliança pode concentrar recursos e atenção ao seu nome diante do anúncio de última hora de Aspásia Camargo.

“O PPS e o PSDB decidiram sobre vice e senador, as razões só eles podem dizer. Não fui chamado a opinar.  Só fui comunicado”, esquivou-se o vereador.

Apesar da surpresa com o conchavo, a reação diante da negação da candidatura foi imediata e por diferentes setores.  “Ivanir tem uma vida de superação em nossa luta do povo negro,das mulheres e de qualquer oprimido desse sistema racista. Vamos unir nossas forças e não permitir que tal coisa aconteça sem que haja uma manifestação contundente de nossa parte. Minha solidariedade e respeito ao companheiro militante”, escreveu a deputada federal Benedita Da Silva.

“O movimento negro está sangrando. Rejeitar Ivanir, que nos representa em todos os sentidos foi um golpe baixo e uma afronta ao movimento em defesa da igualdade, contra a opressão e todas as formas de racismo no Rio de Janeiro”, criticou a Deputada estadual Enfermeira Rejane (PCdoB).

Integrantes da academia fizeram questão de se expressar. “Uma parte da elite branca brasileira não suporta cada vez que seus privilégios são ameaçados. Parece que o silenciamento sistemático da vozes como a sua faz parte da agenda cotidiana do mundo político em nosso  país. Lamentavelmente perdemos todos. Perde a comunidade negra, o Rio, o Brasil e a democracia na sua representatividade étnica”, contextualiza o professor José Geraldo da Rocha.

Caso a situação não se altere até o dia 15, data oficial do registro das candidaturas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pela esquerda permanecem na disputa entre os nomes mais viáveis  o senador e candidato à reeleição Lindbergh Farias (PT) e o deputado federal Chico Alencar (Psol) – que concorreu a prefeito com Ivanir de vice à prefeitura do rio, em 1996, pelo PT. Pela direita, Flávio Bolsonaro (PSL), Arolde de Oliveira (PSD), fundador da maior gravadora gospel do estado, e o senador Eduardo Lopes (PRB) ambicionam a eleição dupla de representantes ligados às elites econômicas, religiosas e militares.

“Calculou-se uma coisa, mas esqueceu-se que o segmento tem voz. Ninguém chuta cachorro morto. Se a minha candidatura não tivesse potencial, não seria cerceada. O gesto cria um problema nacional e no estado para Eduardo Paes pois não há uma explicação ainda mais no momento em que se pede renovação. Esse é um gesto pequeno da política, um arranjo que vai  contra o que a sociedade quer. Minha candidatura é antifascista, é boa para o Brasil pela agenda que representa. As forças mais intolerantes religiosas tem presença no Rio, incluindo o prefeito Crivella, que tem demonstrado preconceito com a cultura afro. Mas mesmo quando eles pensam que estão nos fazendo o mal, saímos fortalecidos . É o que o ensinam os orixás”, finaliza Santos.

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