Política

Governo acuado

Manifestações pelo País pedem o afastamento de Temer e Diretas Já

por Redação* — publicado 21/05/2017 21h12, última modificação 21/05/2017 23h01
Nove em cada dez brasileiros desejam a antecipação de eleições diretas, segundo diferentes pesquisas. Os atos de hoje reforçam clamor popular
Nelson Almeida/AFP
Protesto Paulista

Em São Paulo, manifestantes pedem a saída de Temer e a antecipação de eleições

Milhares de brasileiros ocuparam as ruas das principais capitais do País, neste domingo 21, para pedir o afastamento do presidente Michel Temer e a antecipação de eleições diretas. Convocados às pressas por movimentos sociais e sindicais, os atos não tiveram a mesma adesão registrada em protestos anteriores contra as reformas trabalhista e da Previdência. Ainda assim, reforçaram o desejo popular de decidir sobre o próprio destino, em sintonia com as pesquisas de opinião que captaram amplo apoio à bandeira das Diretas Já caso o peemedebista deixe o cargo.

Em São Paulo, a chuva não deu trégua e muitos manifestantes tiveram de buscar refúgio nas marquises de prédios da Avenida Paulista. Os organizadores estimam que ao menos 15 mil paulistanos participaram do ato em frente ao Masp, o terceiro desde a divulgação da gravação de uma conversa entre Temer e o empresário Joesley Batista, controlador da JBS, na qual o presidente teria negociado a compra do silêncio do deputado cassado Eduardo Cunha (PMDB).

São Paulo
Apesar da chuva, 15 mil manifestantes compareceram ao protesto na Avenida Paulista (Paulo Pinto/AGPT)
Secretário-geral da Força Sindical, João Carlos Gonçalves, o Juruna, afirmou que o ato na Paulista é apenas uma preparação para a marcha convocada pelas centrais sindicais em Brasília. “A chuva atrapalhou um pouco hoje, mas teremos ao menos 100 mil trabalhadores na próxima quarta-feira”, prevê. “Somente a Força levará 20 mil à capital federal”.

 

Em comunicado conjunto divulgado na quinta-feira 18, as centrais sindicais exigem que as reformas propostas pelo governo Temer sejam retiradas imediatamente da pauta no Congresso, além de enfatizar que a superação da crise “passa por realizar, no mais curto espaço de tempo exigido pela Constituição, eleições gerais e democráticas”.

A maior aglomeração popular aconteceu na capital de Minas Gerais, estado do ex-presidenciável tucano Aécio Neves, afastado do Senado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) após revelação de um áudio no qual pede 2 milhões de reais a Joesley. Os manifestantes se reuniram na Praça da Liberdade e seguiram em passeata até a Praça Sete de Setembro, no centro de Belo Horizonte. A Polícia Militar não divulgou estimativa de público, mas os organizadores confirmaram a presença de 50 mil pessoas. Além de Belo Horizonte, ocorreram atos menores nas cidades mineiras de Juiz de Fora e Uberlândia.

Belo Horizonte
A maior aglomeração popular ocorreu em Belo Horizonte: 50 mil participantes (Frente Brasil Popular)

No Rio de Janeiro, os atos contra Temer se dividiram. Cerca de cem manifestantes desfilaram pelas areias da praia de Copacabana, na altura do hotel Copacabana Palace. Organizado pelo Movimento Unificado dos Servidores Públicos do Estado, o protesto também pediu a renúncia do governador do Rio, Luiz Fernando Pezão (PMDB).

Outro grupo, um pouco mais volumoso, caminhou até a casa do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM), primeiro na linha sucessória em caso de saída de Temer. Cabe a ele acolher ou rejeitar os pedidos de impeachment contra Temer protocolados pela oposição, bem como a peça acusatória que a Ordem dos Advogados do Brasil decidiu apresentar ao Congresso nos próximos dias.

Em Brasília, um grupo de cerca de 250 pessoas, segundo estimativa da Polícia Militar do Distrito Federal, se reuniu em frente à Biblioteca Nacional, no início da Esplanada dos Ministérios. Boa parte dos manifestantes eram sindicalistas. Também estavam presentes militantes de partidos e de movimentos, como o Levante Popular da Juventude.

Em Curitiba, a chuva também atrapalhou a manifestação, que reuniu cerca de 250 pessoas no centro da cidade. Em Salvador e Fortaleza, passeatas atraíram milhares de manifestantes. Também ocorreram volumosos atos em capitais como Belém, Campo Grande, Goiânia, Manaus, São Luís e Natal.

Rio de Janeiro
No Rio, um ruidoso grupo decidiu protestar em frente à casa de Rodrigo Maia (Yasuoshi Chiba/AFP)

"Os movimentos não podem vacilar um só instante. Temos de tomar as ruas do Brasil para exigir a renúncia imediata do Temer e a convocação de novas eleições", afirmou Guilherme Boulos, do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), em entrevista a CartaCapital. "Estamos em uma crise política sem precedentes no País e ela exige uma solução democrática capaz de nos tirar dessa encruzilhada. Há duas alternativas: essa crise vai ser resolvida por vias autoritárias ou por meio da devolução da soberania do voto popular."

Uma recente pesquisa do instituto Vox Populi, encomendada pela Central Única dos Trabalhadores, revela que 78% da população deseja a cassação de Temer pelo Tribunal Superior Eleitoral, no processo que investiga ilegalidades nas contas da chapa Dilma-Temer. E 90% gostaria de poder substituí-lo em eleições diretas, e não pelo Parlamento, como prevê a norma constitucional. Esse mesmo levantamento indica que apenas 5% da população considera o desempenho de Temer bom ou ótimo.

Os pesquisadores do Vox Populi consultaram 2 mil brasileiros com mais de 16 anos, de todos os estados e do Distrito Federal, residentes em 118 municípios, entre 6 e 10 de abril. Antes, portanto, do maremoto político causado pelas delações da JBS, com potencial para desgastar ainda mais a imagem de Temer. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais.

De acordo com pesquisa Datafolha divulgada no fim de abril, a avaliação positiva de Temer é de 9%. A maioria deseja a cassação do seu mandato. Para 85%, o Congresso deveria aprovar uma mudança constitucional para permitir eleições diretas já. A sondagem foi realizada nos dias 26 e 27 de abril de 2017, com 2.781 entrevistados em 172 municípios, e tem uma margem de erro de 2 pontos porcentuais, para mais ou para menos.

Ainda não foram divulgadas pesquisas após a deflagração da crise causada pelas delações da JBS, que resultaram no indiciamento do presidente por corrupção passiva, organização criminosa e obstrução da Justiça. O inquérito foi autorizado pelo ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal, na última quinta-feira 18.

* Com informações da agência Deutsche Welle.