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Mais Mises, menos direitos

por Carlos Juliano Barros — publicado 13/04/2016 05h07, última modificação 19/04/2016 12h09
Para Mises, economista que é referência para manifestantes anti-Dilma, a causa do desemprego é o alto custo do trabalho para o capital
Mises

O economista austríaco Ludwig von Mises

Um dos souvenirs prediletos dos manifestantes contrários ao governo de Dilma Rousseff, nas ruas ou nas redes sociais, contém um lema tão pedante quanto enigmático para a maioria da população: a camiseta “Mais Mises, Menos Marx”.

O barbudo comunista é figurinha mais do que carimbada. Mas quem foi Mises, afinal? O que ele tem a ver com o Fla-Flu ideológico em eterna prorrogação desde as eleições de 2014? E, principalmente, que influência suas ideias podem exercer sobre o nebuloso futuro que aguarda o Brasil?

A lembrança da camiseta de Mises (nascido Ludwig von Mises em 1881, na Áustria) me veio à cabeça durante a leitura do ótimo A Nova Razão do Mundo – Ensaio sobre a Sociedade Neoliberal, de Pierre Dardot e Christian Laval, infelizmente ainda não traduzido para o português. No livro, os autores embarcam no túnel do tempo até o Colóquio Lippmann, realizado em 1938, em Paris – uma espécie de Big Bang do neoliberalismo.

Naquele longínquo ano, Mises dividiu com seus colegas uma análise sobre o mercado de trabalho que parece feita sob encomenda para o atual noticiário econômico da grande mídia brasileira, refém dos economistas de bancos e consultores ligados ao mercado financeiro: “o desemprego, como fenômeno massivo e duradouro, é o resultado da política que tem por objetivo manter os salários em um nível superior ao que seria possível nas condições de mercado”.

Em outras palavras, para Mises – assim como para seus asseclas contemporâneos – o xis da questão do desemprego é o alto custo do trabalho para o capital, inflacionado sobretudo por legislações protetivas.

Assim, neste momento de recessão econômica temperada pelo aumento do contingente de pessoas sem ocupação, a narrativa neoliberal tupiniquim promete enxugar os gastos, sanar as contas públicas e reconquistar a confiança do mercado através da flexibilização das leis trabalhistas e do afrouxamento da já precária rede de proteção oferecida pelo Estado, através dos programas sociais. 

Em tempo: Mises e companhia limitada constituem a referência teórica que, na década de 1980, fez a britânica Margaret Thatcher e o americano Ronald Reagan sepultarem o Estado de Bem Estar Social nos países de primeiro mundo. Na Europa, o neoliberalismo sucedeu os chamados “Trinta Gloriosos” – período de três décadas de robusto crescimento econômico com justiça social e distribuição de renda após o término da Segunda Guerra Mundial.

Provavelmente, os “Trinta Gloriosos” representam o período de maior equilíbrio de forças entre capital e trabalho na história da humanidade. Sindicatos fortes e Estado atuante na proteção de direitos trabalhistas e na taxação dos mais ricos explicam essa equação.

Porém, desde o advento do neoliberalismo, a desigualdade na Europa tem crescido violentamente e se aproxima dos níveis da Belle Époque, no fim do século XIX, como o best seller Thomas Piketty não nos deixa esquecer.

Nos Estados Unidos, a concentração de renda atinge níveis escandalosos – apenas 10% da população concentram metade de toda a riqueza nacional. A maior economia do mundo é movida por um contingente cada vez mais expressivo de trabalhadores chamados de “temps” (temporários):  uma massa mal remunerada e precarizada, abandonada à negociação direta com seus empregadores e sem qualquer tipo de proteção por parte do Estado.

Por aqui, a moda Mises está começando a pegar. O libera-geral das terceirizações é só o prólogo do filme de terror que aguarda os trabalhadores brasileiros. No afã de se cacifar perante o mercado para o cargo de presidente, o ainda vice Michel Temer já acena com uma pesada reforma trabalhista. Nessa toada, os brasileiros da base da pirâmide social já podem preparar a camiseta: “Mais Mises, menos direitos”. 

Em vez de "Mais Mises, Menos Marx", já podem preparar a camiseta “Mais Mises, Menos Direitos”

 *Carlos Juliano Barros é jornalista, mestre em Geografia Humana e documentarista. Diretor dos documentários #Eu_JeanWyllys, Carne Osso - O Trabalho em Frigoríficos e Jaci - Sete Pecados de Uma Obra Amazônica