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Investigação

Lula: "Quem nasceu no Nordeste e não morreu até cinco anos não tem medo de cara feia"

por Redação — publicado 14/03/2017 12h32
Em depoimento à Justiça Federal do DF, ex-presidente afirma que sofre perseguição e nega envolvimento na tentativa de comprar o silêncio de Cerveró
Lula em evento da Contag em Brasília, na segunda-feira 13
Lula

Lula em evento da Contag em Brasília, na segunda-feira 13

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva prestou depoimento nesta terça-feira 14 à Justiça Federal no Distrito Federal e negou as acusações de que tentou comprar o silêncio do ex-diretor da área Internacional da Petrobras Nestor Cerveró. Na oitiva, Lula rechaçou também acusações contra seu partido, o PT, desafiou os investigadores a provarem que ele se envolveu em casos de corrupção e reafirmou ser vítima de uma perseguição.

Lula foi a Brasília prestar depoimento ao juiz Ricardo Augusto Soares Leite, que em julho de 2017 transformou o ex-presidente em réu em um inquérito surgido a partir de um desdobramento da Operação Lava Jato.

Lula, o ex-senador Delcidio do Amaral (ex-PT, hoje sem partido), seu antigo chefe de gabinete, Diogo Ferreira, o banqueiro André Esteves, o advogado Edson Ribeiro, o pecuarista José Carlos Bumlai e o filho dele, Maurício Bumlai, também são arrolados como réus, acusados de obstrução da Justiça por conta da suposta tentativa de comprar o silêncio de Cerveró, um dos delatores centrais da Lava Jato.

Lula foi incluído na ação por conta da delação de Delcídio do Amaral, que disse em seu acordo de delação premiada que tentou comprar o silêncio de Cerveró seguindo ordens de Lula. Preso em novembro de 2015, Delcídio foi flagrado em áudio dando recomendações ao ex-diretor da Petrobras a respeito de como fugir do País, e se prontificando a auxiliá-lo na empreitada.

Inicialmente, Lula foi denunciado pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot. O caso foi, no entanto, remetido do Supremo Tribunal Federal para a Justiça Federal do DF pelo então relator da Lava Jato, Teori Zavascki. Este considerou que, como os envolvidos não tinham prerrogativa de foro, deveriam ser julgados em primeira instância.

"Nunca tive nenhuma preocupação com nenhum testemunho de qualquer empresário ou diretor da Petrobras. O único brasileiro que poderia ter medo do depoimento de Cerveró é Delcídio", afirmou Lula no depoimento.

Segundo ele, Delcídio o envolveu no caso movido por rancor. "Certamente depois de preso alguns dias, a pessoa resolve jogar a culpa nos outros", disse Lula. "Eu tive uma reação que eu sei que ele não gostou. [Disse na época] 'Esse cara é um imbecil, nem na morte você citaria um ministro da suprema corte'. Ele ficou chateado porque eu o chamei de imbecil", disse o ex-presidente.

Lula disse que manteve diversos encontros com Delcídio, mas que nunca pediu para o senador cassado agira contra a Lava Jato. Ele afirmou que não conhecia Nestor Cerveró e que o ex-diretor da Petrobras foi uma indicação do PMDB. Ainda segundo o ex-presidente, é comum que pessoas usem seu nome sem que ele tenha conhecimento. "Muita gente usa meu nome em vão. Tem gente que faz campanha financeira em meu nome, tem gente que coloca foto e diz que estou apoiando", afirmou.

Lula se emocionou no depoimento ao tratar das várias acusações que sofre recentemente. Ele enfrenta cinco processos em tribunais de Brasília e Curitiba por corrupção, lavagem de dinheiro e tráfico de influências. Em 3 de maio deve comparecer ante o juiz Sergio Moro, que coordena a operação Lava Jato.

"Quero provas. Alguém tem que dizer o crime que cometi", afirmou Lula, acrescentando que vê as denúncias contra o PT como uma "perseguição". 

O ex-presidente, entretanto, não deixou o tom combativo de lado ao se defender. "Tô cansado. Com 71 anos de vida tô cansado. Nenhum político aguenta isso. Mas eu vou matar eles de raiva aparecendo sempre em primeiro nas pesquisas", afirmou Lula, reafirmando que vai provar sua inocência. "Quem nasceu no Nordeste e não morreu até os cinco anos não tem medo de cara feia", disse.

Quem é Ricardo Leite

Ricardo Leite, o juiz responsável pelo caso, esteve envolvido em uma polêmica em 2015, no âmbito da Operação Zelotes.

Então juiz substituto da 10ª Vara Federal, Leite foi duramente criticado pelos procuradores federais responsáveis pelo caso, que o acusaram de atrapalhar as investigações. 

Como CartaCapital mostrou em abril de 2015, Leite cancelou as interceptações telefônicas realizadas pela Polícia Federal quando os investigadores estavam prestes a confirmar a suspeita de que a cúpula do Bradesco estava envolvida com a corrupção de conselheiros do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf). 

Leite foi investigado pela Corregedoria Regional da Justiça Federal, passou a responder processo administrativo na Corregedoria Regional da Justiça Federal e acabou deixando o caso, substituído por Célia Regina Ody Bernardes. Hoje, o titular da Zelotes é Vallisney de Souza Oliveira.

*Com informações da AFP