Economia
Lula critica hegemonias e defende no Panamá a integração da América Latina
O presidente criticou indiretamente os Estados Unidos, condenou o unilateralismo e disse que a região não resolverá seus problemas ‘olhando para fora’
O presidente Lula (PT) defendeu nesta quarta-feira 28 uma integração mais autônoma da América Latina e do Caribe e fez críticas veladas aos Estados Unidos, ao condenar o ressurgimento do unilateralismo, do protecionismo e das “tentações hegemônicas” no cenário internacional. O discurso foi proferido na abertura do Fórum Econômico Internacional América Latina e Caribe, promovido pelo CAF, na Cidade do Panamá.
Sem citar os EUA diretamente, Lula afirmou que a proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é um fator “inescapável” para a região, seja pela presença ou pelo distanciamento, especialmente em um contexto de disputa por influência global e recursos estratégicos.
“A divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos e retrocessos históricos”, declarou o presidente.
Lula avaliou que a América Latina vive um dos piores momentos de retrocesso em termos de integração regional, atribuindo o cenário à intolerância política, à fragmentação ideológica e à incapacidade de transformar discursos em ações concretas. Segundo ele, paradigmas históricos como o pan-americanismo e o bolivarianismo já não dão conta dos desafios atuais.
O presidente disse que a União Europeia pode servir como “referência”, mas alertou que diferenças históricas, econômicas e culturais tornam inviável, no curto prazo, um projeto de integração com o mesmo grau de profundidade.
Defesa de autonomia regional
Ao longo do discurso, Lula insistiu que os países latino-americanos não devem esperar soluções externas para seus problemas estruturais. Para ele, a falta de convicção das lideranças regionais sobre os benefícios de um projeto próprio de inserção internacional enfraquece a região. “Falta às lideranças regionais convicção sobre os benefícios da adoção de um projeto mais autônomo de inserção internacional.”
Na parte final, de improviso, Lula reforçou o tom e apelou diretamente à responsabilidade das nações da região: “Não existe nenhum país do mundo que vai resolver os problemas de cada país individualmente. Somos nós, latino-americanos, que temos que ter vontade de resolver os nossos problemas. Se não fizermos isso, vamos terminar este século tão pobres quanto começamos.”
Canal do Panamá
O presidente também destacou que a “integração em infraestrutura não tem ideologia” e defendeu a neutralidade do Canal do Panamá, administrado, segundo ele, de forma “eficiente, segura e não discriminatória” há quase três décadas. O presidente dos EUA, Donald Trump, tem defendido que os norte-americanos tomem o controle do canal como parte de um pacote de segurança da região.
O fórum segue até quinta-feira 29 e reúne líderes políticos, empresários e representantes de organismos internacionais da América Latina e do Caribe.
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