Política

Operação Lava Jato

Lula a Moro: "Estou sendo julgado por um Power Point mentiroso"

por Redação — publicado 10/05/2017 22h12, última modificação 11/05/2017 02h06
Em suas alegações finais, o ex-presidente chamou a denúncia sobre o triplex de "eminentemente política" e criticou enfaticamente a mídia

Após um depoimento de quase cinco horas na sede da Justiça Federal de Curitiba, Lula afirmou, em suas alegações finais, ser vítima da "maior caçada jurídica" que um presidente já sofreu. 

Enquanto recapitulava sua chegada ao poder, Lula foi repreendido por Moro. "Não é para fazer um apanhado do que o senhor fez no governo". O ex-presidente então respondeu: "Estou sendo julgado pelo que fiz no governo, pela construção de um Power Point mentiroso."

Na apresentação de sua denúncia sobre o caso em setembro passado, Deltan Dallagnol, procurador da operação Lava Jato, apontou Lula como "comandante máximo" e expôs um slide de Power Point em que o nome do petista surgia ao centro, circundado por 14 razões pelas quais o procurador considerava o petista o principal beneficiário do esquema de desvios na Petrobras.

Lula chamou a tese do Ministério Público de que era o "comandante máximo" de "eminentemente política". "Aquilo é ilação pura, deve ter sido um ou alguns cidadãos, que, desconhecendo a política, fizeram um Power Point porque já tinham a tese anterior de que o PT era uma organização criminosa, de que o Lula é o chefe e que, portanto, eu montei o governo para roubar. Essa é a tese do contexto que está colocada."

Lula criticou ainda a atuação da imprensa, que, segundo ele, tenta "criminalizá-lo". "Desde março de 2014, são 25 capas na revista Istoé criando a imagem de monstro do Lula. Na revista Veja, 19 capas, na Época, 11." Em seguida, afirmou que os seus acusadores "nunca tiveram 10% do respeito que eu tenho por eles".

Moro perguntou, então, se Lula chama de acusadores a imprensa ou a própria operação. "Na medida em que foi feito um acordo de que não é possível na Lava Jato se condenar políticos importantes ou pessoas ricas sem o apoio da imprensa, se adotou primeiro a política de a imprensa criminalizar", afirmou o ex-presidente. 

Lula perguntou a Moro qual o crime que ele teria cometido. "Crime seria se eu tivesse comprado o apartamento, se tem documento que eu comprei, se me deram a chave, se eu dormi lá alguma vez". Moro então disse que a denúncia era baseada em ocultação de patrimônio. "Não basta levantar uma tese e uma pessoa ser massacrada em um meio de comunicação", respondeu o ex-presidente.

Ao fim, o petista implorou ironicamente para que seus acusadores mostrassem um documento para comprovarem a denúncia. "O Ministério Público tem algum documento de que comprei o apartamento, alguma escritura? Pelo amor de Deus, mostrem. Meu problema não são meus adversários, o problema é que eu tenho neto de quatro anos e outro de cinco que me perguntam sobre isso."

O juiz então afirmou que iria interromper as declarações finais. "Estou falando em dois minutos, doutor Moro, o que se fala de mim há dois anos", retrucou o petista. Moro negou que houvesse vazamentos irregulares à mídia e afirmou que acusação "é publica" e não tem como manter sigilo sobre elas. "Há jornalistas que sabem o que vai acontecer um dia antes", disse Lula. "Há o interesse de vazar, doutor Moro, porque esse julgamento tem de ser feito pela imprensa." 

Lula então encaminhou-se para suas declarações finais: "Essa situação está difícil, sabe, doutor? Vou te dizer uma coisa para ficar com minha consciência leve: o comprometimento da Justiça e o comprometimento da acusação com a imprensa está levando a um impasse. Porque alguns canais de televisão e jornais fizeram disso a sua peça principal de notícia. E eles estão com dificuldade: 'como é que isso vai acabar se esse tal de Lula for inocente?"

Lula falou aos procuradores da Lava Jato, "muito jovens", que o Ministério Público não foi feito para isso. "A acusação tem que ser séria, fundamentada, ela não pode ser especulativa. E hoje, a acusação é muito mais feita pela capa dos jornais do que os dados concretos das perguntas que vocês me fizeram. Sinceramente, se for pelas perguntas que vocês me fizeram, o doutor Moro nem deveria ter aceito essa acusação."

Moro defendeu-se ao afirmar que a imprensa "não tem qualquer papel no julgamento desse processo". "O senhor foi tratado com o máximo respeito e as perguntas que foram feitas, embora possam parecer difíceis, é porque existe uma acusação criminal."

Lula lembrou então do caso da divulgação de conversas pessoais de Dona Marisa com os filhos do petista, autorizadas por Moro. "Eu não podia ter minha casa molestada sem que eu fosse intimado para uma audiência. Ninguém nunca me convidou. De repente, eu vejo um pelotão da Polícia Federal levantando até o colchão da minha cama achando que eu tinha dinheiro, doutor."

No fim, Moro e Lula trocaram farpas. "Se existirem 'sinais' de que ele (Lula) será absolvido, prepare-se. Porque os ataques ao senhor vão ser muito mais fortes", disse o petista ao juiz. Moro contra-atacou ao dizer que já é atacado por muita gente, "inclusive por blogs que supostamente patrocinam o senhor". "Padeço dos mesmos males, em certa medida."